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Saúde

Jejum, dieta cetogênica, mediterrânea: o que realmente funciona para emagrecer?

Especialista explica por que o déficit calórico e hábitos equilibrados são mais eficazes que soluções rápidas para a perda de peso
Redação
08/01/2026 | 05:39

A busca por emagrecimento rápido segue alimentando um mercado repleto de promessas, dietas restritivas e fórmulas que garantem resultados em pouco tempo. Jejum intermitente, dieta cetogênica, dietas hiperproteicas ou modismos que ganham força nas redes sociais costumam reaparecer a cada verão como soluções definitivas para o excesso de peso. Mas, segundo o gastroenterologista José Gurgel, o ponto central da perda de peso segue sendo ignorado em meio ao barulho dessas propostas: não existe emagrecimento sustentável sem déficit calórico.

Em entrevista à rádio 94 FM, o médico foi direto ao abordar o tema. “Para você perder peso, você tem que fazer uma dieta com menos caloria. A chamada restrição calórica, déficit calórico”, afirmou. Segundo ele, pouco importa o nome da dieta adotada se a equação básica não for respeitada. “Independentemente do tipo de dieta, o que importa é o déficit calórico”, reforçou, ao citar que jejum intermitente, dieta ou qualquer outro método só funciona se o consumo diário de energia for menor do que o gasto.

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Especialista ressalta a importância do consumo diário de vegetais e déficit calórico para perda efetiva de peso - Foto: Freepik

A explicação parte de um conceito simples, mas frequentemente deixado de lado. Calorias representam a energia que o corpo utiliza para realizar atividades básicas, desde caminhar até trabalhar ou praticar exercícios. “Se você gasta duas mil calorias no dia a dia para ir para o trabalho, para ir para a academia, enfim, para as atividades, você tem que consumir 1 mil e seiscentas, 1 mil e setecentas ou até menos, dependendo da quantidade de peso que você pretende perder”, explicou.

O médico reconhece que a proliferação de dietas ocorre porque a obesidade já se tornou um problema de saúde pública no Brasil e no mundo. No entanto, alerta para os riscos de estratégias que focam em resultados rápidos, sem considerar os impactos a médio e longo prazo. Um dos exemplos mais citados atualmente é a dieta cetogênica, que prioriza o consumo elevado de gorduras e restringe fortemente os carboidratos.

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Gastroenterologista José Gurgel – Foto: Youtube/Reprodução

Ao comentar esse tipo de abordagem, Gurgel ponderou que nenhuma dieta específica é capaz de “burlar” a fisiologia humana. “O que importa, na realidade, é que, para você perder peso, você tem que fazer uma dieta com menos caloria”, reiterou, ao destacar que a ciência já comprovou exaustivamente esse princípio.

Além da restrição calórica, o especialista chama atenção para outro problema recorrente nas dietas da moda: a falta de equilíbrio nutricional. Cortar grupos alimentares inteiros pode até resultar em perda de peso inicial, mas costuma cobrar um preço alto depois, seja na forma de efeito sanfona, seja pelo surgimento de carências nutricionais.

Ao longo da entrevista, o médico ampliou o debate para além do emagrecimento estético, relacionando diretamente a má alimentação com o aumento de doenças crônicas e da mortalidade. “Comer mal custa muito caro”, afirmou, acrescentando que o impacto se dá tanto no plano individual quanto coletivo.

Segundo ele, o consumo excessivo de calorias leva ao sobrepeso e à obesidade, condições associadas a uma série de doenças. “O sobrepeso e a obesidade custam muito caro. Quem é obeso ou tem sobrepeso pode ter doenças decorrentes desse problema, que são hipertensão arterial, diabetes, problemas nas articulações, refluxo e muitas outras coisas advindas do excesso de peso”, disse.

O custo também recai sobre o sistema de saúde. “Para o sistema de saúde, tanto o sistema de saúde público como o sistema de saúde privado, custa caríssimo”, observou. Para dimensionar o problema, o gastroenterologista comparou estatísticas de mortalidade. Enquanto a violência urbana domina o noticiário, as doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no País. “No Brasil, morrem cerca de 120 pessoas por dia por crimes violentos. E de doença cardíaca, morrem mais de 1.100. E infarto do miocárdio é uma doença que muitas vezes é decorrente de uma alimentação errada”, declarou.

Gordura saturada e risco cardiovascular

Outro ponto abordado na entrevista foi o consumo excessivo de gordura saturada, especialmente aquela presente em carnes gordurosas. O médico explicou de forma didática como esse tipo de gordura atua no organismo. “A gordura saturada é aquela gordura amarela dura, por exemplo, a picanha”, citou, ressaltando que esse componente contribui para o aumento do colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim.

“É aquela gordura que vai aumentar os seus níveis de colesterol ruim no sangue, e esse colesterol ruim no sangue é que vai ajudar a entupir as artérias da coronária e outras artérias do corpo, levando a um maior risco de mortalidade”, alertou. Por isso, defendeu moderação no consumo de carnes vermelhas e maior atenção às fontes de gordura utilizadas no dia a dia.

A dieta mediterrânea como referência

Em contraponto aos modismos, Gurgel destacou um padrão alimentar amplamente estudado e recomendado pela literatura científica: a dieta mediterrânea. Segundo ele, trata-se de um modelo equilibrado, adotado há décadas, que prioriza alimentos naturais e variados. “É uma dieta equilibradíssima, onde você tem uma preferência por carboidratos integrais, grãos integrais, frutas e verduras, muitas frutas e verduras”, afirmou.

O especialista ressaltou a importância do consumo diário de vegetais. “Pelo menos de verduras variadas, que são muito ricas em vitaminas e antioxidantes”, explicou, acrescentando que quanto mais coloridos forem os alimentos, maior tende a ser a variedade de nutrientes. “Quanto mais coloridos, mais antioxidantes vão ser os alimentos”, disse.

O uso de azeite de oliva também foi citado como um diferencial positivo. “Preferir o azeite de oliva, que é rico em ômega 9, e que vai ser importante para a sua saúde”, recomendou, além do consumo de peixes ricos em ômega 3, como salmão e atum.

Alimentação no verão e riscos à saúde

O período de férias e verão, segundo o médico, costuma agravar hábitos alimentares inadequados. A mudança de rotina, associada à maior oferta de alimentos ultraprocessados em áreas turísticas, dificulta escolhas saudáveis. Além disso, há riscos específicos para a saúde gastrointestinal.

Entre os principais problemas, Gurgel citou o excesso de álcool. “Pancreatite aguda pelo álcool é uma realidade”, alertou, enfatizando que a condição não afeta apenas quem bebe diariamente. “Mas naqueles que fazem o excesso no final de semana”, completou.

O médico também mencionou o aumento de viroses e infecções intestinais no verão, muitas vezes relacionadas ao consumo de alimentos mal acondicionados. “Há um risco de você pegar também uma intoxicação alimentar, uma infecção bacteriana”, explicou, destacando ainda a importância da hidratação para prevenir quadros de desidratação.

Água, sono e atividade física

Outro eixo fundamental para quem busca emagrecer e manter a saúde diz respeito a hábitos frequentemente negligenciados. A ingestão adequada de água é um deles. “Você tem que beber de 30 a 35 ml por quilo, dia, de água”, orientou, exemplificando que uma pessoa de 70 quilos deve consumir cerca de dois litros diários, sem contar a água presente nos alimentos.

O sono também foi apontado como fator determinante. “Já está provado que as pessoas que dormem mal têm maior propensão à obesidade”, afirmou. Segundo o médico, dormir bem não apenas regula hormônios ligados à fome, como também contribui para o gasto energético. “Durante o sono, você está queimando calorias”, explicou.

Nesse contexto, a prática de musculação ganha relevância. “Se você faz musculação, você aumenta a sua massa muscular, você aumenta a sua taxa metabólica basal e você vai queimar calorias durante a noite”, disse, reforçando a importância do exercício de força para além da estética.