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Saúde

Janeiro Branco: Psicólogo defende viver o agora como cuidado com saúde mental

Criada em 2012, campanha Janeiro Branco adota, a cada edição, um tema central. Em 2025, o foco está em paz e equilíbrio
Redação
08/01/2026 | 05:54

A campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre a saúde mental, chega a mais um ano propondo uma reflexão coletiva sobre a forma como as pessoas têm conduzido suas rotinas, lidado com emoções e enfrentado as pressões do cotidiano.

Para o psicólogo Rodrigo Costa, o momento é oportuno para desacelerar, repensar hábitos e resgatar a atenção ao presente, em um cenário marcado pelo aumento dos casos de ansiedade e depressão no Brasil. Ele destaca que isso está diretamente relacionado a um modo de vida acelerado, pouco reflexivo e excessivamente conectado ao ambiente virtual, que dificulta a vivência plena do agora.

Janeiro Branco: Psicólogo defende viver o agora como cuidado com saúde mental
Para o psicólogo Rodrigo Costa, o momento é oportuno para desacelerar, repensar hábitos e resgatar atenção ao presente - Foto: Reprodução/Youtube

Criada em 2012, a campanha Janeiro Branco adota, a cada edição, um tema central. Em 2025, o foco está em paz, equilíbrio e saúde mental. “Buscando desacelerar desse cotidiano que muitas vezes nos leva a uma não reflexão, a uma não pausa do nosso dia a dia”, explicou o psicólogo em entrevista à TV Tropical nesta quarta-feira 7. A proposta, segundo ele, é provocar uma pausa consciente na rotina marcada pela correria do trabalho, das demandas familiares e das obrigações profissionais.

Na avaliação de Rodrigo Costa, a sociedade tem funcionado permanentemente “no automático”, sem espaço para a contemplação e para o cuidado emocional. Esse funcionamento contínuo, segundo o psicólogo, pode trazer consequências graves para a saúde mental, justamente por impedir que as pessoas percebam e valorizem os pequenos momentos da vida.

O símbolo escolhido pela campanha deste ano ajuda a traduzir essa mensagem. “Para esse ano, um dos símbolos da campanha é o post-it, traduzindo que grandes cuidados começam com pequenas lembranças, com pequenas coisas do dia a dia”, explicou. A ideia é que atitudes simples — como reduzir o ritmo, mudar a forma de executar tarefas ou permitir-se fazer algo com mais calma — possam gerar impactos positivos significativos no bem-estar emocional.

“Então, assim, ‘hoje eu vou fazer isso devagar’, ‘hoje eu não vou fazer isso’, ‘hoje eu posso fazer isso de um outro jeito’”, exemplificou. Para o psicólogo, pequenas escolhas conscientes ajudam a reconectar a pessoa consigo mesma e com o presente, rompendo a lógica da produtividade excessiva.

Menos telas, mais presença

Um dos principais desafios apontados pelo especialista é o uso excessivo de telas, realidade que afeta adultos, jovens, crianças e idosos. Rodrigo Costa defende que a redução do tempo de exposição, sempre dentro das possibilidades de cada pessoa, é uma das estratégias importantes para cuidar da saúde mental. “Tentar usar menos telas, se for possível, dentro da realidade de cada um”, orientou.

No caso das crianças e adolescentes, ele ressaltou o papel fundamental dos pais e responsáveis. “Preservar o máximo possível o uso da tela e os pais monitorarem essa tela é importante, é fundamental”, afirmou, lembrando que muitos dispositivos já contam com mecanismos internos de controle de tempo de uso. Para os adultos, o desafio passa pelo reconhecimento do próprio comportamento. “Você está toda hora checando, toda hora vendo a ligação, toda hora usando a rede social?”, questionou.

O psicólogo destacou que o excesso de conexão virtual pode afastar as pessoas do convívio real, ampliando sentimentos de isolamento, ansiedade e esgotamento emocional. Por isso, o chamado da campanha Janeiro Branco também envolve um convite claro: sair do virtual e voltar ao mundo físico.

Reconexão com a cidade e com as relações

Na entrevista, Rodrigo Costa ampliou o debate para além do indivíduo, destacando a importância das conexões sociais e do uso dos espaços urbanos como fatores de promoção da saúde mental. “Reconexão dos laços familiares, da reconexão dos laços sociais, de viver a cidade”, afirmou. Segundo ele, o acesso a praças, bibliotecas, projetos culturais e espaços de lazer contribui diretamente para o bem-estar psicológico da população.

“Nós temos uma cidade belíssima e precisamos viver a cidade”, ressaltou, lembrando que o cuidado com a saúde mental também passa por políticas públicas e pela oferta de espaços adequados de convivência. Para o psicólogo, “uma população que participa da vida do seu território é uma população mais saudável”, especialmente quando se observa a saúde mental sob uma perspectiva social e coletiva.

Nesse sentido, ele destacou que praças bem cuidadas, bibliotecas públicas abertas e projetos comunitários fortalecem vínculos e ajudam a reduzir o isolamento. O lazer, seja ele público ou privado, também aparece como elemento essencial. “Acessar praia… A gente tem um litoral lindo, e aí você sair do virtual e ir para o mundo físico”, pontuou.

Dependências e novos riscos

Outro ponto de destaque na entrevista foi o alerta para comportamentos compulsivos que têm afetado a saúde mental, especialmente entre grupos vulneráveis. Além da dependência de telas e redes sociais, o psicólogo chamou atenção para o crescimento das apostas online.

Segundo ele, adolescentes e jovens são atraídos pela promessa de enriquecimento fácil, enquanto idosos podem ser impactados pela sensação de pertencimento e pela tentativa de suprir o isolamento social. “Por essas duas vias, elas acabam capturando a atenção”, explicou. A disponibilidade constante dessas plataformas — “um dispositivo que está 24 horas disponível” — aumenta o risco de dependência, que, em casos mais graves, exige acompanhamento profissional.

Sinais de alerta

Durante a entrevista, Rodrigo Costa também detalhou os principais sinais de alerta para transtornos como ansiedade e depressão, ajudando o público a identificar quando é hora de procurar ajuda. “O prejuízo do sono” aparece como um dos primeiros indicadores. “O sono começa a ficar diferente, fica mais curto ou longo demais, ou fica inconstante”, explicou.

Outro sinal importante é a dificuldade de concentração. “Atividades que se fazem em um certo tempo, de um certo jeito, não conseguem mais ser realizadas da mesma maneira”, afirmou. Mudanças de humor também merecem atenção, seja na forma de retraimento, isolamento social ou irritabilidade excessiva. “Quando isso muda muito de um padrão anterior da pessoa, isso também acaba sendo um fator pra gente investigar”, completou.

Diante de qualquer dúvida, a orientação é clara. “Procura um profissional de saúde, um psicólogo, um psiquiatra”, recomendou. Ele lembrou ainda que a rede pública de saúde dispõe de serviços de atendimento psicológico, como as Unidades Básicas de Saúde e unidades especializadas em saúde mental.

Viver o agora como estratégia de cuidado

Ao longo da entrevista, a mensagem central de Rodrigo Costa foi clara: cuidar da saúde mental passa, necessariamente, por desacelerar e viver o presente. Em um contexto de excesso de estímulos, cobranças constantes e conexão permanente, o convite do Janeiro Branco é para que as pessoas façam pausas, reflitam sobre seus hábitos e busquem mais equilíbrio.

Mais do que grandes mudanças, o psicólogo reforça que pequenos gestos diários podem fazer a diferença. Valorizar o momento presente, reduzir o ritmo quando possível, fortalecer vínculos reais e buscar ajuda profissional diante de sinais de sofrimento são atitudes que contribuem para uma vida mais saudável do ponto de vista emocional.