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Saúde

Inteligência artificial ajuda médicos a identificar dor em recém-nascidos

Sistema utiliza modelos multimodais de linguagem e visão para reduzir a subjetividade na avaliação da dor em bebês
Por O Correio de Hoje
16/03/2026 | 11:00

Pesquisadores do Centro Universitário FEI e pediatras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram um sistema de inteligência artificial capaz de identificar sinais de dor em recém-nascidos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) neonatais. A ferramenta analisa expressões faciais dos bebês para auxiliar profissionais de saúde na avaliação do desconforto.

O método utiliza modelos multimodais de linguagem e visão, tecnologia que combina análise de imagens e dados textuais. Com isso, o sistema interpreta movimentos e expressões do rosto dos bebês e produz uma avaliação que pode ajudar na tomada de decisões clínicas.

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Ferramenta analisa expressões faciais dos bebês para auxiliar profissionais de saúde na avaliação do desconforto - Foto: Freepik

De acordo com os pesquisadores, identificar dor em recém-nascidos é um desafio porque os pacientes não conseguem comunicar verbalmente o que sentem. Em UTIs neonatais, a avaliação costuma depender da observação de médicos e enfermeiros e do uso de escalas clínicas, o que pode resultar em interpretações diferentes.

Segundo Ruth Guinsburg, professora de pediatria neonatal da Unifesp e coordenadora da UTI Neonatal do Hospital São Paulo, a dor é uma experiência subjetiva e, no caso dos bebês, precisa ser interpretada a partir de sinais observados por terceiros. A ferramenta de inteligência artificial, explica a pesquisadora, pode contribuir para tornar essa análise mais precisa e reduzir variações na interpretação.

O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e publicado na revista científica Pediatric Research. Os resultados indicam que o sistema apresenta desempenho superior a métodos tradicionais de aprendizado de máquina na identificação de estados de dor e conforto.

Outra vantagem apontada pelos pesquisadores é que o modelo não precisa ser treinado separadamente para cada tarefa, o que amplia sua possibilidade de uso na prática clínica. Até recentemente, sistemas de machine learning exigiam bases de dados específicas e extensos processos de preparação de imagens.

Com a evolução dos modelos multimodais, semelhantes aos utilizados em ferramentas como ChatGPT e Gemini, tornou-se possível aproveitar grandes bases de dados previamente treinadas para resolver tarefas específicas com maior rapidez.

A aplicação da tecnologia pode ser relevante no contexto das UTIs neonatais, onde recém-nascidos podem passar por diversos procedimentos médicos ao longo do dia. Punções, inserção de cateteres, cirurgias e intubações fazem parte da rotina de tratamento e podem causar dor.

Segundo os pesquisadores, avaliar corretamente esse desconforto é importante para equilibrar a necessidade dos procedimentos médicos com o controle do sofrimento do paciente, já que a dor mal gerenciada pode deixar consequências duradouras.

Até a década de 1990, havia a crença de que bebês não sentiam dor por causa da imaturidade do sistema nervoso. Pesquisas posteriores demonstraram o contrário: recém-nascidos podem ser ainda mais sensíveis aos estímulos dolorosos.

A expectativa dos cientistas é que, com novos avanços, ferramentas desse tipo possam futuramente emitir alertas automáticos em tempo real para indicar sinais de dor em bebês internados.