Os avanços da inteligência artificial começam a transformar o ambiente das escolas de cinema, ampliando recursos criativos disponíveis para estudantes e ao mesmo tempo abrindo um debate sobre os limites e impactos da tecnologia na indústria audiovisual.
Na University of Southern California (USC), uma das principais instituições de formação cinematográfica dos Estados Unidos, o estudante Siljia Zheng tem explorado essas ferramentas para desenvolver projetos audiovisuais. Aluno da escola onde estudou o diretor Ryan Coogler, de “Pecadores”, Zheng vê na tecnologia um caminho para ampliar suas possibilidades de produção.

“Essa é uma chance para iniciantes como eu, que podem usar IA para simplesmente fazer um filme e anunciar ao mundo que têm capacidade para serem diretores”, disse ele à AFP.
Natural da China, Zheng integra uma nova geração de estudantes que experimenta ferramentas de IA para criar animações, cenários e efeitos visuais que, em produções tradicionais, exigiriam recursos muito maiores.
Durante seus estudos em Los Angeles, ele produziu um curta-metragem de sete minutos chamado “Torment”, sobre um assassino mascarado que aterroriza uma escola. O filme foi desenvolvido em grande parte com recursos de inteligência artificial e finalizado em cerca de uma semana.
Para produzir o projeto, Zheng gravou sua própria imagem diante de um fundo verde e utilizou softwares capazes de transformar seu rosto em diferentes personagens. A tecnologia também permitiu criar ambientes virtuais — como uma escola asiática e cenas ambientadas em uma piscina — que, segundo ele, exigiriam custos muito maiores em uma produção tradicional.
“Como estudante, é impossível ter tanto dinheiro para produzir um filme”, afirmou.
Apesar do entusiasmo de parte dos estudantes, o uso de inteligência artificial no cinema ainda gera debates dentro da indústria.
A tecnologia foi um dos temas centrais das greves de roteiristas e atores em Hollywood em 2023, quando profissionais do setor expressaram preocupação com o impacto das ferramentas digitais sobre empregos e direitos autorais.
O cineasta Guillermo del Toro, diretor de “Frankenstein”, também já criticou o uso excessivo da tecnologia no processo criativo, afirmando que prefere não utilizá-la.
Zheng conta que admira o trabalho do diretor mexicano, mas reconhece que a IA pode alterar o modo como filmes são produzidos.
“Mas quando assisti, pensei: ‘Ah, usar IA para fazer isso seria muito mais barato… e resultaria em algo bem parecido’”.
Ainda assim, ele afirma que a tecnologia não substitui o processo criativo humano.
“A IA é apenas uma ferramenta, e as pessoas podem usá-la para se tornarem melhores”.
Questões éticas e desafios
Em universidades e no setor audiovisual, professores e profissionais têm discutido os aspectos éticos ligados ao uso da tecnologia.
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, atualizou recentemente suas regras para lidar com produções que utilizam inteligência artificial. Segundo a entidade, o uso da tecnologia não favorece nem prejudica automaticamente as chances de uma obra na premiação.
“A inteligência artificial generativa e outras ferramentas digitais não ajudam nem prejudicam as chances de uma indicação”, informou a Academia em comunicado.
Especialistas também observam que algumas ferramentas levantam dúvidas sobre autoria e uso de dados, já que muitos sistemas são treinados a partir de obras criadas por outros artistas.
Ao mesmo tempo, defensores da tecnologia afirmam que o uso responsável da IA pode ampliar a criatividade e democratizar o acesso à produção audiovisual.
Zheng concorda que a ferramenta deve ser usada com cautela, mas acredita que ela pode ajudar novos criadores.
“Bom, barato e rápido nunca acontecerá, não importa qual ferramenta você use”, disse.
*Com informações da AFP