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Gravidez

Gravidez remodela o cérebro de forma duradoura

Especialistas afirmam que alterações estruturais e funcionais não representam perda cognitiva, mas adaptação para a maternidade e podem permanecer por até dois anos após o parto
Por O Correio de Hoje
09/07/2026 | 13:58

A gravidez provoca uma série de mudanças no organismo feminino e, além das alterações hormonais e fisiológicas já conhecidas, pesquisas recentes mostram que o cérebro também passa por transformações estruturais e funcionais que podem persistir por anos após o nascimento do bebê. Estudos indicam que essas adaptações ajudam a preparar a mulher para responder às demandas da maternidade, aumentando a capacidade de reconhecer sinais da criança, regular emoções e fortalecer o vínculo entre mãe e filho.

As alterações começam ainda nas primeiras semanas da gestação. Ao longo de cerca de 40 semanas, praticamente todos os sistemas do organismo — hormonal, cardiovascular, respiratório, gastrointestinal, urinário, musculoesquelético, dermatológico e neurológico — passam por adaptações para sustentar o desenvolvimento do feto, preparar o parto, a amamentação e os cuidados com o recém-nascido.

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Gravidez remodela o cérebro da mulher e mudanças podem durar anos após o parto - Foto: Magnific

Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema foi publicado em 2016 na revista científica Nature Neuroscience. Os pesquisadores compararam imagens do cérebro de mulheres antes da gravidez e alguns meses após o parto. A análise identificou redução do volume da substância cinzenta, principalmente em regiões relacionadas à cognição social e à chamada rede de modo padrão (default mode network), sistema associado à autorreflexão e à compreensão do comportamento de outras pessoas.

Segundo especialistas, essa redução não representa perda de neurônios, mas uma reorganização do cérebro para atender às novas demandas da maternidade.

“Pesquisadores acreditam que não há uma perda de quantidade de neurônios, e sim um ajuste desses neurônios. É como se houvesse uma poda da árvore para que brotasse mais bonita, digamos, metaforicamente. Esses neurônios são rearranjados para que haja um foco nas tarefas relacionadas à maternidade”, explica a neurologista Ana Luiza Vieira de Araújo, do Hospital Israelita Albert Einstein.

As regiões mais afetadas incluem o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo, áreas envolvidas na atenção, memória, cognição social e processamento das emoções. As pesquisas indicam que essas mudanças aumentam a sensibilidade às expressões faciais do bebê e facilitam a identificação de suas necessidades.

Os estudos também observaram que mães que apresentaram maior redução da substância cinzenta relataram vínculos mais fortes com seus filhos após o nascimento. As alterações permanecem mesmo depois da gestação.

“Tem várias alterações estruturais e funcionais para tentar moldar o cérebro da mulher para que ela se torne uma boa mãe para, enfim, cuidar da sua cria. Então, basicamente essas alterações estariam voltadas a facilitar a adaptação cerebral à nova situação que vai vir”, afirma a neurologista Sonia Bruch, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). “Essas alterações que ocorrem no cérebro são duradouras, até mais ou menos dois anos depois do parto, que é justamente a fase em que a criança depende mais da mãe.”

Embora muitas mulheres relatem dificuldade de concentração, esquecimentos e problemas para encontrar palavras durante a gravidez e no início da maternidade, especialistas afirmam que isso não significa perda das capacidades cognitivas.

“Quando se faz os testes cognitivos, a mulher mantém suas capacidades cognitivas intactas, mas no dia a dia ela recebe uma diminuição de performance em tarefas executivas que antes eram mais fáceis, e agora ela tem um pouco mais de dificuldade”, afirma Ana Luiza Vieira de Araújo.

Além das adaptações cerebrais, fatores como privação de sono, mudanças na rotina, estresse, ansiedade e a intensidade emocional da parentalidade também podem contribuir para o chamado baby brain, expressão popular usada para descrever lapsos de memória durante esse período.

Outro estudo, publicado em 2024 também na Nature Neuroscience, acompanhou uma mesma mulher com 26 exames cerebrais realizados antes, durante e depois da gravidez. O trabalho confirmou que a massa cinzenta diminuiu mais de 4% ao longo da gestação e mostrou que esse processo ocorre de forma gradual desde as primeiras semanas, estabilizando-se próximo ao parto e permanecendo anos após o nascimento da criança.

A pesquisa também verificou que as alterações estão associadas ao aumento dos hormônios estradiol e progesterona e identificou fortalecimento da substância branca, responsável pela comunicação entre diferentes regiões do cérebro.

“Aumentar a conexão na substância branca ajuda, por exemplo, a mãe ficar mais ágil para detectar choro e perceber com mais facilidade o estado emocional da criança. A inteligência emocional aumenta e você se antecipa às necessidades do outro, não às suas necessidades”, afirma o obstetra Eduardo Cordioli, diretor técnico de Obstetrícia da Pro Matre Paulista.

As mudanças não se limitam à primeira gravidez. Um estudo publicado em 2026 pelo Amsterdam UMC aponta que uma segunda gestação promove um refinamento dessas adaptações. Enquanto a primeira reorganiza principalmente as redes responsáveis pela interpretação das emoções e pensamentos de outras pessoas, a segunda fortalece sistemas ligados à atenção e à capacidade de administrar múltiplas demandas simultaneamente.

Segundo os autores, isso pode facilitar situações como cuidar de mais de um filho ao mesmo tempo. “Pode-se supor que essas mudanças preparem a mulher para as demandas acrescidas associadas ao cuidado de vários filhos simultaneamente”, escreveram.

As pesquisas também indicam que os efeitos da parentalidade podem ir além da gestação. Estudos baseados em dados do UK Biobank sugerem que homens e mulheres com filhos apresentam marcadores associados a um cérebro biologicamente mais jovem, indicando um possível efeito neuroprotetor decorrente da experiência de cuidar de crianças.

“Não é só a gravidez em si. É o ato de ter uma cria o tempo inteiro do seu lado. Cuidar de alguém exige uma mudança estrutural e de prioridades muito grande”, ressalta Eduardo Cordioli.

Ana Luiza Vieira de Araújo afirma que essas adaptações também podem ocorrer em cuidadores que participam intensamente da criação dos filhos.

“O cérebro de cuidadores que realmente estão ali cuidando intensamente sofre um remodelamento estrutural e funcional muito parecido com a mulher que passou pela gestação. Não na mesma proporção, mas em alguns aspectos muito parecido, e essa relação é diretamente proporcional. Quanto maior o cuidado, maior o vínculo que vai se formando, maiores são essas alterações cerebrais.”

Pesquisas também mostram alterações hormonais nos homens após o nascimento dos filhos.

“Tem um trabalho muito interessante que mostra que o homem que virou pai apresenta uma queda mais rápida de testosterona do que o que não virou pai. Uma das funções da testosterona é ajudar a ir atrás das coisas, da conquista, da guerra, da caça. A partir do momento que o homem já conquistou e tem a cria, o cérebro muda e, com isso, existe menos estímulo para as suas gônadas produzirem testosterona”, explica Cordioli.

O mesmo estudo associou níveis mais baixos de testosterona a uma maior motivação para participar dos cuidados com o bebê e a uma melhor qualidade do relacionamento durante a transição para a paternidade.