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Mercado
Fuga de investidores do Brasil mais que dobra em 2020
Fluxo total estrangeiro cairá de US$ 59 bi em 2019 para US$ 11 bi
Folha de S.Paulo
07/10/2020 | 05:17

A fuga de investidores estrangeiros do Brasil das aplicações de risco em 2020 deve mais do que dobrar em relação ao registrado em 2019. No total, o saldo entre aplicações e retiradas de não residentes ficará negativo em US$ 24 bilhões (R$ 134 bilhões) entre janeiro e dezembro. Em 2019, as saídas somaram US$ 11,1 bilhões (R$ 62 bilhões).

Para investimentos direcionados ao setor produtivo, geralmente de longo prazo e voltados à ampliação de empresas comerciais e industriais, o Brasil também atrairá bem menos dinheiro neste ano: cerca de US$ 49 bilhões, ante US$ 73 bilhões em 2019.

Somando diferentes tipos de entradas e saídas, o Brasil terá um fluxo positivo de dinheiro estrangeiro em 2020 de apenas US$ 11 bilhões, bem abaixo dos US$ 59 bilhões de 2019.

Segundo previsões atualizadas do IIF (Institute of International Finance), que reúne 450 bancos e fundos de investimento em 70 países, as maiores saídas de capital do Brasil estão concentradas em ações e outros títulos de empresas, cujo saldo entre entradas e saques somará cerca de US$ 18 bilhões em 2020. No ano passado, as retiradas nesses itens foram de apenas US$ 2,7 bilhões.

O restante das saídas, aproximadamente US$ 6 bilhões, referem-se a investidores que deixaram de aplicar, principalmente, em títulos relacionados ao endividamento do país, como papéis da dívida pública. No ano passado, esses saques já haviam atingindo US$ 8,4 bilhões.

A redução ocorre em um ano em que os países ricos lançaram pacotes trilionários para injetar liquidez em suas economias —um dinheiro que, em muitos casos, acaba “vazando” para economias que oferecem boas chances de retorno. Não foi esse o caso do Brasil.

Segundo Martín Castellano, chefe do departamento de pesquisas do IIF para a América Latina, a desvalorização do real em relação ao dólar até tem tornado os ativos brasileiros baratos para os investidores.

No acumulado deste ano, o dólar se valoriza quase 40% frente o real. Em uma situação normal, seria a hora de os estrangeiros comprarem ações e títulos brasileiros, desembolsando menos dólares para adquirir ativos em reais.

A situação das contas públicas do Brasil, no entanto, tem desencorajado esse movimento —e estimulado os saques.

Para os investidores, o risco seria comprar o ativo hoje e o real se desvalorizar ainda mais; ou a Bolsa embicar para baixo em um eventual quadro de desarranjo macroeconômico provocado pelo alto endividamento do setor público.

“A fragilidade fiscal continua sendo o calcanhar de Aquiles do Brasil. Ao contrário de outros países na região, o mecanismo de controle do gasto público brasileiro ainda é muito novo e está para ser testado”, diz Castellano, referindo-se ao teto de gastos, que limita a correção das despesas públicas à inflação de 12 meses anteriores.

“A percepção dos investidores sobre a habilidade do governo brasileiro em manejar a situação fiscal no resto deste ano e em 2021 será fundamental para determinar o comportamento dos investidores mais à frente”, diz.

As últimas semanas, marcadas por desentendimentos dentro do governo Jair Bolsonaro sobre manter ou não o teto de gastos para criar programas sociais, não ajudaram.

Para Castellano, o Brasil entrou na pandemia da Covid-19 bem mais fragilizado do que outros emergentes devido ao seu alto endividamento público como proporção do PIB (Produto Interno Bruto).

Embora a reação do governo e do Congresso tenha sido efetiva para conter uma queda acentuada da atividade, medidas como o auxílio emergencial pago a mais de 60 milhões de brasileiros levaram a uma explosão do déficit estatal e ao rápido aumento da dívida pública.

Entre janeiro e agosto, o déficit primário (sem contar juros) do setor público consolidado foi de 12,1% do PIB, ante apenas 0,46% em igual período de 2019, num salto de R$ 549 bilhões. Apenas o auxílio emergencial pago entre abril e agosto somou R$ 213 bilhões.

Isso fez com que a dívida pública bruta saltasse de 75,8% do PIB no final de 2019 para 88,8% em agosto —com previsão de chegar a 95% do PIB no final do ano.

“Embora haja alguns sinais de que as despesas maiores foram transitórias, há dúvidas sobre se o Brasil manterá os gastos elevados de forma mais permanente ou não. Se haverá ou não uma deterioração maior das contas públicas”, diz Castellano.

Nas últimos meses e semanas, investidores domésticos também passaram a desconfiar cada vez mais das intenções do governo Bolsonaro em relação ao manejo das contas públicas e à manutenção do teto —e passaram a exigir juros maiores para refinanciar a dívida pública em prazos cada vez mais curtos.

Em apenas um ano, os vencimentos em doze meses de papéis da dívida pública praticamente dobraram, de R$ 553 bilhões para R$ 1,02 trilhão, atingindo quase 25% da dívida total.

Embora a taxa básica do Banco Central, a Selic, esteja fixada em 2% ao ano, o mercado já exige mais que o dobro disso para comprar papéis do Tesouro Nacional com prazos de dois anos.

Embora o Brasil seja um dos países mais afetados pela saída de investidores por conta de seu alto endividamento, vários outros emergentes vêm sofrendo pressão por conta de mais gastos para confrontar a pandemia.

A expectativa é que muitos deles, mais cedo do que tarde, voltem a elevar taxas de juros hoje em níveis historicamente baixos para continuar atraindo investidores domésticos e estrangeiros.​

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