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Economia

Fragilidades estruturantes freiam crescimento econômico do Estado

Queda na indústria e volatilidade da agropecuária limitam expansão, enquanto comércio, serviços e turismo sustentam crescimento
Elias Luz
15/04/2026 | 05:28

O Rio Grande do Norte deve registrar crescimento econômico inferior à média nacional nos próximos anos, refletindo desequilíbrios setoriais e limitações estruturais. As projeções indicam avanço de 1% em 2025 e 1,6% em 2026, enquanto o Brasil deve crescer 2,3% e 2,4%, respectivamente, evidenciando um descompasso na trajetória de recuperação.

A diferença de desempenho está diretamente associada à composição da economia potiguar, marcada por forte dependência de segmentos específicos e maior exposição a choques setoriais. Segundo o economista da Fecomércio RNWilliam Figueiredo, o principal fator de pressão negativa está concentrado na indústria.

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Setores de comércio e serviços vão ‘segurar a onda’ na economia do RN - Foto: José Aldenir/Agora RN

“Se não fosse o desempenho da indústria, com retração projetada em 7,9% para 2025, o Rio Grande do Norte poderia ter uma performance, pelo menos, similar à brasileira”, afirma. “A indústria de refino de petróleo puxará o desempenho do setor para baixo, e em 2026 a retração prevista deve ser puxada pelos biocombustíveis, complementa.”

As estimativas setoriais reforçam o cenário de instabilidade. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) industrial deve cair 7,9% em 2025 e recuar mais 1% em 2026, a agropecuária apresenta comportamento volátil, com alta de 5,4% em 2025 e queda de 9,7% no ano seguinte.

Para Figueiredo, essa oscilação compromete a consistência do crescimento estadual. “A análise por setores mostra contrastes importantes. Temos segmentos que avançam, mas outros com forte retração, o que impede uma expansão mais equilibrada do PIB”, destaca Figueiredo.

Em contraposição, os setores de comércio e serviços seguem como principais vetores de sustentação da economia local, com crescimento projetado de 2,3% em 2025 e 2,6% em 2026.

Parte desse desempenho está associada à recuperação do turismo, atividade com peso relevante na estrutura econômica do Estado. Dados recentes apontam aumento de 14,1% na movimentação de passageiros no Aeroporto Internacional de Natal no primeiro bimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Além disso, o fluxo internacional atingiu recorde em 2025, com 100,5 mil passageiros, refletindo a ampliação de rotas e estratégias de promoção do destino. “O turismo performou muito bem nesse primeiro bimestre, impulsionado pelo aumento das rotas e pelas ações de promoção do Estado”, afirma Figueiredo. “Esse movimento ajuda a sustentar o crescimento, especialmente em serviços e comércio”, frisou Figueiredo.

Ele também destaca fatores macroeconômicos que contribuem para a atividade. “As expectativas seguem positivas, principalmente com a continuidade da geração de emprego e renda, da redução da inflação e da taxa de juros, além da queda da inadimplência, fatores que fortalecem o consumo das famílias e estimulam a atividade econômica”, avalia.

Apesar dos sinais positivos em alguns segmentos, especialistas apontam que o crescimento abaixo da média nacional reflete questões estruturais mais profundas. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), Roberto Serquiz, o desempenho do Estado está condicionado a limitações históricas.

“A diferença nas taxas de crescimento entre o PIB do Rio Grande do Norte e o PIB nacional pode ser explicada por uma combinação de fatores estruturais, como a dependência de setores específicos, desafios fiscais e a baixa diversificação econômica”, afirma.

Segundo Serquiz, enquanto o Brasil apresenta uma base produtiva mais diversificada, o RN permanece mais vulnerável a oscilações. “Enquanto o país se beneficia de uma economia mais equilibrada, o Estado enfrenta obstáculos regionais que limitam um crescimento mais robusto”, completa.

O dirigente também destaca a influência de fatores externos no desempenho local. “Os efeitos da pandemia e questões geopolíticas também dificultam a recuperação econômica do estado”, diz.

A combinação entre retração industrial, volatilidade agropecuária e dependência de serviços coloca em evidência a necessidade de diversificação da economia potiguar para sustentar ciclos mais consistentes de crescimento.

Embora o avanço do turismo e do consumo ajude a amortecer impactos no curto prazo, analistas avaliam que o Estado precisa ampliar sua base produtiva e reduzir a dependência de segmentos mais sensíveis a choques externos e variações de mercado.

Nesse contexto, o desafio do Rio Grande do Norte será transformar o dinamismo de setores como comércio, serviços e turismo em ganhos estruturais de produtividade, capazes de aproximar o ritmo de crescimento local ao observado na economia nacional.

Para o presidente da Federação de Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), José Vieira, as projeções que indicam crescimento do PIB do Rio Grande do Norte abaixo da média nacional refletem, sobretudo, fatores estruturais da economia estadual e o desempenho recente de setores-chave. “O principal vetor é a retração da indústria, muito mais intensa do que no restante do País. Esse resultado está diretamente ligado à queda estrutural da produção de petróleo — que já encolheu cerca de 60% desde o início dos anos 2000 — e ainda exerce peso relevante na economia potiguar, reduzindo sua capacidade de crescimento”, explica.

A agropecuária, segundo José Vieira, apesar de ter apresentado bom desempenho em 2025, é um setor marcado pelas incidências climáticas. Para 2026, as projeções indicam retração em culturas importantes, como cana-de-açúcar e mandioca, o que tende a reduzir sua contribuição para o crescimento após um ano anterior mais favorável. Já comércio e serviços seguem como principal base da economia do estado e continuam crescendo, mas em ritmo moderado e com menor capacidade de compensar perdas nos demais setores. “Esse quadro reflete, inclusive, uma mudança estrutural recente, com redução do peso da indústria e maior concentração em atividades de menor dinamismo relativo”, analisa Vieira.

Em contraste, o Brasil apresenta uma estrutura produtiva mais diversificada, o que amplia sua capacidade de absorver choques setoriais e sustentar um crescimento mais elevado. Apesar desse cenário, o estado apresenta vetores importantes de sustentação econômica, como o avanço das energias renováveis, o bom desempenho do comércio e a evolução do mercado de trabalho, que contribuem para manter o crescimento, ainda que em ritmo mais moderado.