O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem ampliado sua presença nas redes sociais desde que foi lançado como pré-candidato à Presidência da República, superando o ritmo de crescimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ambiente digital. O levantamento é da consultoria Bites, encomendado pelo jornal Folha de S. Paulo. O avanço ocorre em um momento em que as pesquisas indicam empate técnico entre os dois em um eventual segundo turno.
A análise considera o período entre 2022 e 2026 e mede a chamada “tração” — indicador que avalia o crescimento consistente de perfis a partir de interações como curtidas, comentários e compartilhamentos. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro dominava esse ambiente, reflexo de uma estratégia digital consolidada desde sua campanha eleitoral.

Após a vitória de Lula, houve um breve período de maior engajamento nas redes em favor do petista, que chegou a liderar por seis semanas. Esse cenário se inverteu com a retomada da força digital de Bolsonaro, até agosto de 2025, quando ele passou a cumprir prisão domiciliar e ficou incomunicável. Mais tarde, já em regime fechado, Lula conseguiu retomar protagonismo por cerca de 15 semanas, impulsionado por uma estratégia mais alinhada à internet sob a condução do ministro da Secom, Sidônio Palmeira.
A virada mais recente, porém, veio com Flávio Bolsonaro. Inicialmente com presença mais discreta, o senador ganhou espaço ao assumir o papel de porta-voz do bolsonarismo. O crescimento se intensificou após o anúncio de sua pré-candidatura, em dezembro. Desde então, segundo a Folha de S. Paulo, ele liderou a tração em sete semanas neste ano, contra apenas uma de Lula.
Em número de seguidores, o presidente ainda mantém vantagem, mas o ritmo de crescimento é mais acelerado no campo adversário. Desde dezembro, Flávio incorporou cerca de 3,4 milhões de novos seguidores, enquanto Lula somou aproximadamente 378 mil. Para André Eler, diretor técnico da Bites, o desempenho do senador já se aproxima dos índices alcançados por Jair Bolsonaro no auge. “As porcentagens de Flávio já se equiparam às de Bolsonaro no auge, falando em nome da família e postando bastante”, afirmou.
Aliados do senador atribuem o avanço ao interesse do público em conhecer o herdeiro político escolhido por Bolsonaro. A estratégia também passa por projetar uma imagem mais moderada, com registros frequentes de viagens internacionais e encontros com lideranças estrangeiras, como o presidente argentino Javier Milei, durante a posse do chileno José Antonio Kast.
O desempenho digital acompanha um cenário eleitoral competitivo. Pesquisa Datafolha aponta Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio. Em eventual segundo turno, os dois aparecem tecnicamente empatados: 46% para o presidente e 43% para o senador.
Em contraste com o crescimento do adversário, Lula tem adotado um discurso crítico à dependência digital. Em diferentes ocasiões, o presidente afirmou não utilizar celular e criticou o uso excessivo de aparelhos. Durante evento no Rio de Janeiro, sugeriu que as pessoas priorizem o convívio familiar ao acordar, em vez de checar o telefone. Em participação no podcast Mano a Mano, também associou o uso intensivo de tecnologia a um comportamento mais individualista.
Especialistas avaliam que esse posicionamento pode afastar parte do eleitorado. Para a consultora de marketing digital Mariana Bonjour, o discurso cria distanciamento. “O presidente fica distante do cidadão comum, e outro candidato ocupa esse espaço”, afirmou. Ela também observa que a comunicação digital de Lula ainda reproduz formatos tradicionais, sem linguagem própria das redes.
Enquanto isso, Flávio aposta em conteúdos mais diretos e pessoais, muitas vezes produzidos por ele próprio, o que amplia a sensação de proximidade com o público. Esse estilo contrasta com vídeos mais produzidos do presidente, que, na avaliação de analistas, podem soar excessivamente ensaiados.
O embate digital também reflete diferenças mais amplas. Lula tem defendido a regulamentação das redes sociais e da inteligência artificial, além de criticar o poder das big techs. Para o estrategista político Paulo Loiola, há um componente ideológico nessa divergência. “A esquerda tem tradição de política de massa, enquanto a direita apostou cedo nas redes”, afirma, acrescentando que fatores geracionais também influenciam — Lula tem 80 anos, enquanto Flávio, 44.
Nesse cenário, o ambiente digital se consolida como um dos principais campos de disputa política, com impacto direto na formação de opinião e no desempenho eleitoral dos candidatos.