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Saúde

Estudo brasileiro aponta diferenças entre febre do Oropouche e dengue em surto de 2024

Pesquisa realizada em Manaus identifica sinais clínicos e laboratoriais distintos, mas alerta que diagnóstico seguro exige exames e atenção aos sintomas de gravidade
Redação
02/02/2026 | 20:11

Um estudo desenvolvido por pesquisadores brasileiros durante o surto de febre do Oropouche registrado em 2024 no País trouxe novas evidências que podem auxiliar profissionais de saúde no diagnóstico e na diferenciação da doença em relação à dengue, especialmente em regiões onde os dois vírus circulam simultaneamente. A pesquisa foi publicada na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases e analisou casos atendidos em Manaus, epicentro do surto no ano passado.

Intitulado Perfis clínicos e laboratoriais da doença do vírus Oropouche no surto de 2024 em Manaus, Amazônia Brasileira, o trabalho mostrou que os sintomas das duas arboviroses são muito semelhantes, o que dificulta a distinção apenas pela avaliação clínica. Ainda assim, segundo a médica pesquisadora Maria Paula Mourão, da Rede Colaborativa de Vigilância Ampliada e Oportuna (Revisa), algumas diferenças relevantes foram identificadas. No Oropouche, a dor de cabeça tende a ser mais intensa, as dores articulares são mais frequentes e as manchas na pele costumam ser mais disseminadas.

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Mosquito maruim, transmissor da febre do Oropouche - Foto: Conselho Federal de Farmácia/Divulgação

A pesquisa também apontou alterações laboratoriais distintas. “Observamos no Oropouche um aumento discreto das enzimas do fígado e diferenças na resposta do sistema imunológico”, afirmou Maria Paula. Já na dengue, destacou, é mais comum a queda das plaquetas, além de maior risco de sangramentos e choque. Apesar disso, a pesquisadora ressaltou que os sintomas, isoladamente, não permitem diferenciar com segurança uma doença da outra.

Diante desse cenário, o estudo enfatiza que o foco principal deve ser o reconhecimento precoce dos sinais de gravidade, independentemente do vírus causador. Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, confusão mental ou piora progressiva do estado geral são indicativos de alerta e exigem busca imediata por atendimento médico. Gestantes, crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas, segundo a pesquisadora, devem receber atenção ainda mais precoce, mesmo diante de sintomas iniciais considerados leves.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Rede de Vigilância em Saúde Ampliada (Revisa), com apoio do Instituto Todos pela Saúde (ItpS), e acompanhou pacientes com doença febril aguda atendidos na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, em Manaus. Os participantes foram monitorados por até 28 dias, com avaliações clínicas, exames laboratoriais e testes específicos para dengue, Oropouche e outras arboviroses.

Além dos aspectos clínicos, o estudo identificou que o surto de 2024 em Manaus foi provocado por uma linhagem reordenada do vírus Oropouche, já presente no Brasil em anos anteriores, mas com características de maior virulência e capacidade de replicação. Segundo os pesquisadores, modificações genéticas ao longo do tempo sugerem transmissão local contínua e podem ter contribuído para a intensidade do surto, associadas a fatores ambientais, climáticos e à presença do vetor.

A febre do Oropouche é causada por um vírus transmitido principalmente pelo Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora, comum em áreas úmidas e ricas em matéria orgânica. Diferentemente da dengue, transmitida pelo Aedes aegypti, o controle do vetor do Oropouche é mais complexo, por envolver ambientes naturais.

Para a pesquisadora Bárbara Chaves, do Instituto Todos pela Saúde, a ampliação do diagnóstico e do monitoramento é essencial para reduzir o impacto das duas doenças. Enquanto a dengue conta com estratégias como combate a criadouros, uso do método Wolbachia e vacinação, o enfrentamento do Oropouche depende sobretudo de vigilância epidemiológica, identificação de linhagens virais e aprimoramento do diagnóstico diferencial, sobretudo em regiões onde as duas arboviroses coexistem.