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“Estou passando fome, faz um PIX”: pedidos se multiplicaram nas redes sociais
Desemprego elevado, queda da renda, redução do auxílio emergencial e a menor circulação nas cidades com a pandemia estão entre os fatores que estão levando as pessoas a implorarem por ajuda
G1/BBC
15/08/2021 | 08:04

“Tenho 35 anos, sou casada e tenho dois filhos. Estou desempregada, meu marido também está, e nós pagamos aluguel. A empresa em que ele estava trabalhando mandou ele embora, mas vai acertar com ele só dia 26 [de agosto], ele trabalhava de servente de pedreiro. Estamos com as contas atrasadas, e estão faltando coisas para comer em casa.”

O relato é de Fabiana Santos Theodoro, moradora de Blumenau, em Santa Catarina. No início de agosto, ela recorreu ao Facebook para pedir ajuda, após seu marido perder o trabalho na construção civil, tornando-se mais um entre os 14,8 milhões de desempregados do país, número recorde registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 2012.

Assim como Fabiana, muitos outros brasileiros têm usado as redes sociais em busca de doações ou ajuda financeira. O fenômeno se tornou ainda mais evidente após a criação do PIX, sistema de pagamento instantâneo lançado pelo Banco Central em novembro de 2020.

Desemprego elevado, queda da renda, redução do auxílio emergencial e a menor circulação nas cidades com a pandemia estão entre os fatores que estão levando as pessoas a implorarem por ajuda nas redes, avalia Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV).

A criação do PIX também contribui para a prática, já que o meio de pagamentos sem custo para os usuários facilitou a transferência de pequenos valores, antes inviabilizada pelo alto custo de meios de transferência como TED e DOC.

Além disso, o auxílio emergencial levou a um avanço da bancarização da população de renda mais baixa, que agora pode se valer de transferências bancárias para receber doações.

Em meio ao desespero das pessoas que de fato estão precisando de ajuda, no entanto, há também golpistas e robôs que tentam se aproveitar da boa vontade dos doadores, segundo um estudo inédito do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), feito a pedido da BBC News Brasil.

A análise de mais de 1,5 mil tuítes de 181 usuários que pediram doações via PIX num período de 15 dias em julho deste ano revelou que ao menos 4% dos perfis e 10% das postagens tinham “alta probabilidade de comportamento automatizado”. Ou seja, muito provavelmente, são robôs programados para pedir doações nas redes.

Twitter e Facebook — que controla a rede social de mesmo nome e também o Instagram — reconhecem o problema e estimulam os usuários a denunciarem perfis suspeitos.

Um reflexo da anormalidade da economia

Para Lauro Gonzalez, da FGV, a multiplicação dos pedidos de ajuda e doações virtuais é um reflexo da crise gerada pela pandemia e do momento de instabilidade econômica em que vivemos. “Apesar da recuperação da atividade e relativa reabertura, estamos longe ainda da normalidade”, observa.

Exemplo disso é o fato de que, apesar de os economistas projetarem atualmente um crescimento de 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2021 — bem acima dos 3% estimados em meados de abril — a taxa de desemprego do país estava em 14,6% em maio, de acordo com o dado mais recente disponível, com cerca de 3,2 milhões de desempregados a mais do que em dezembro de 2019, antes da chegada da pandemia ao Brasil.

Número de desempregados no Brasil - em milhões — Foto: BBC

Número de desempregados no Brasil – em milhões — Foto: BBC

“As redes sociais acabam constituindo um veículo propício para as pessoas conseguirem dar escala a coisas que antes era muito difícil escalar. Através das redes sociais, esses pedidos de ajuda financeira ou doações podem atingir milhares de pessoas potencialmente, a um custo bastante reduzido”, acrescenta o economista.

Segundo ele, a perda de renda e a redução da mobilidade nas cidades brasileiras durante a pandemia são fatores correlacionados.

“A perda de renda decorre em parte da própria falta de mobilidade porque, na medida em que as pessoas circulam menos, parcela do seu consumo é deslocado para o ambiente virtual, mas outra parcela não, então a roda da economia gira mais devagar com a falta de circulação e o próprio receio das pessoas”, afirma o professor da FGV.

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