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Cinema
Espectro e culpa na sétima arte
Criação do grupo potiguar “Sinergia Coletivo Audiovisual”, curta-metragem lançado em 2018 está disponível no YouTube desde o último sábado. Filme trata sobre alucinações, feminicídio e desejos.
Felipe Salustino
06/07/2020 | 23:21

U m homem perturbado pelo espectro da mulher que provavelmente ele próprio assassinou se vê rodeado pelo encontro da culpa, da loucura e do arrependimento, que habitam, simultaneamente, o mais recôndito de seus sonhos. Sozinho em casa, Hugo (Francisco Júnior) está mergulhado numa viagem onírica pelas lembranças e tormentas de um homem assombrado por si mesmo. Mais do que uma imersão pelos desvarios do personagem, “Para Onde os Sonhos Vão” (2018) é um chamado à reflexão pelo fim da violência contra a mulher.

O curta-metragem está disponível no YouTube, desde o último sábado, 4, no canal do produtor audiovisual Emanoel “Xablair” Batista (youtube.com/xablair), que assina montagem, direção de fotografia, edição e finalização do filme. Com cerca de 10 minutos de duração, a película levou apenas 15 dias para fic ar pronta – desde a criação do roteiro à pós-produção – e é fruto de um trabalho de conclusão do curso de Produção de Audiovisual de uma universidade particular de Natal. O trabalho foi todo planejado e executado pelo grupo “Sinergia Coletivo Audiovisual”. “Para Onde os Sonhos Vão” é inspirado na canção homônima do compositor e intérprete assuense Mariano Tavares.

“Remexendo meus CDs, vi o álbum ‘O Sobrado’ do meu amigo Mariano Tavares. Coloquei para tocar e uma faixa me capturou de imediato: ‘White City’ é um tango cantado em inglês. A música me transportou para a cena da dança que é mostrada no curta e foi o ponto de partida para a construção da história”, relembra Mattheus Silveira, roteirista do filme.

“Pesquisando mais sobre a obra de Mariano, cheguei ao segundo álbum – ‘Sem Parar’ – que contém a canção ‘Para Onde os Sonhos Vão “ que dá título ao curta. Foi dela que surgiu a ideia de construir um roteiro que fala sobre a questão do feminicídio. Decidimos mostrar isso de uma maneira onírica e com uma pitada de loucura”, acrescenta.

A produtora audiovisual e designer gráfica Nathalie Alves, responsável pela direção, preparação de elenco, direção de arte, figurino e maquiagem, revela que todo o processo de produção do curta foi executado de forma muito rápida e que o resultado valeu a pena. “Nós conseguimos providenciar tudo em uma semana e gravamos o filme em um tempo recorde: apenas dois dias. Rodamos na casa de uma amiga de Mattheus, a Fernanda. Ela é diretora de arte e tem uma casa espetacular. Então, a gente não precisou mudar muito a estrutura para fazer o filme. O resto a gente gravou em parceria com um hotel da Via Costeira. O resultado ficou muito bonito. Nós gostamos demais”, conta.

O filme

A película, ambientada em meados dos anos 1970, alterna sequências entre as aparições de Isa (Vanessa Labre) para Hugo (Francisco Júnior) e as metáforas materializadas na dança entre os protagonistas, mescladas à ambivalência do encontro amoroso que culmina no ato mais cruel: a abominação da rejeição.

Os elementos cênicos são um ponto a ser destacado. O ar vintage salta aos olhos em cada detalhe. Um toca-discos, uma luminária na escuridão profunda do quarto de Hugo, ou um relógio de pêndulo. Cada item revela o cuidado e a percepção minuciosa da cenografia. E na trilha sonora, as canções de Mariano Tavares.

Reconhecimento

O filme já havia sido exibido em uma sala de cinema da capital potiguar e dividiu as telonas com outros oito curtas. A exibição foi providenciada pela universidade onde o grupo estudava. Alunos, professores do curso e convidados foram os espectadores. Na ocasião, a turma decidiu criar uma espécie de premiação hollywoodiana, o “Oscar Audiovisual”. O filme agradou tanto que levou a estatueta em seis categorias: Melhor Direção, Melhor Música, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição e Montagem e Melhor Fotografia

Além disso, o curta já foi exibido em três importantes mostras de cinema do Rio Grande do Norte: Curta na Praça (projeto da prefeitura de Natal, com exibição no Centro da cidade), Goiamum Audiovisual e Mostra Sesc de Cinema.

Agora, o filme está disponível no YouTube. “Resolvemos disponibilizar o curta (na internet) por causa da pandemia e também porque queremos que as pessoas assistam. Esperamos que ele alcance o máximo de views para que a cultura do cinema potiguar seja apreciada nas telas”, revela Nathalie Alves.

Elenco

O pouco tempo para a gravação do curta foi um desafio, mas não um empecilho para a equipe. Vanessa Labre, intérprete de Isa, comenta que quase não houve preparação de elenco. A cena do tango é a exceção, onde os atores tiveram de desenvolver uma partitura corporal.

“Isa é uma menina jovem, feliz. Ela tem aquela perspectiva de uma juventude liberal. Ao ser pedida em casamento, não aceita e é morta. Ela parece ser uma menina pé no chão, enquanto Hugo está idealizando um amor que mal conhece. Ao receber um ‘não’, ele se torna extremamente violento a ponto de assassiná-la. Quando o filme começa, Isa já está morta e vem como uma espécie de alucinação dele”, explica a protagonista.

Para Vanessa, a grande sacada do curta está em falar sobre a violência contra a mulher, um debate profundamente necessário à sociedade atual. “O filme fala sobre um relacionamento violento. Na medida em que o personagem do Francisco não tem seu amor correspondido, ele agride e assassina a minha personagem. É um tema extremamente atual, e fazer filmes do tipo é sempre muito significativo, porque faz a gente refletir. O filme termina inclusive com uma mensagem, a do ‘Disque 180’ (número para denunciar casos de violência contra a mulher)”.

A experiência também foi enriquecedora para Francisco Júnior. “Me senti muito acolhido pelo grupo (Sinergia), e, por isso, foi fácil descobrir o Hugo dentro de mim. Xablair é um cara experiente. Ele deu dicas muito legais, assim como a Nathalie. Todo mundo foi super acolhedor e isso deixou o trabalho bem fluido e profissional. Foi uma experiência única”, avalia.

Sobre o personagem, Francisco descreve: “Ele tem uma coisa da bipolaridade. Não sabe se cometeu um assassinato ou se está num sonho. O que é notório é o quanto Isa é influente na vida dele. Hugo é um cara bem ansioso, inseguro e violento. Ao mesmo tempo, isso pode ser um delírio também. O legal do filme é que tudo é bem implícito e o espectador pode tirar as próprias conclusões”.

“Para Onde os Sonhos Vão” tem produção executiva de Maury Behring, mixagem e ADR de Erick Carvalho, preparação de elenco de Andrezza Fernandes, Matheus Silveira e Nathalie Alves, coreografia de Andrezza Fernandes, making off e still de Geraldo Pessoa.

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