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Literatura

Escritora e enfermeira retrata aceitação da perda de cabelo durante o câncer infantil

Profissional da saúde observou a rotina de crianças com câncer nos corredores de hospitais e escreveu sobre
Luana Costa
26/07/2024 | 06:00

Tudo começou há 30 anos. Em um estágio de pós-graduação no Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, Denise Martins, uma enfermeira que buscava sua primeira especialização em enfermagem pediátrica, se deparou com uma realidade completamente diferente e cruel no meio dos corredores repletos de crianças.

Aquilo que parecia mais um dia comum para muitos ali dentro, para ela se tornava um momento de observação dos comportamentos de familiares e crianças atingidas por uma doença que abala tudo mas, principalmente, a autoestima. Denise conta as inúmeras vezes que via as crianças com olhares tristes e sem esperança ao passarem pelas sessões de quimioterapia e perceberem a queda dos cabelos.

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“Leoa não tem juba” faz uma analogia entre a queda de cabelo de uma criança com câncer e o reino animal. Foto: Luana Costa

“Elas [as crianças] se fechavam quando percebiam o cabelo caindo por causa do tratamento. É uma doença muito cruel e ninguém tem o psicológico preparado para isso. Imagina para alguém com cinco anos que a única preocupação que deveria ter na vida era brincar?”, diz.

Ao vivenciar esses momentos, a enfermeira percebeu que a dor nos olhares de cada paciente precisava ser entendida e se sentiu na obrigação de trazer no lúdico uma maneira de amenizar o sofrimento e tentar mostrar a cada uma delas que a queda do cabelo, apesar de rápida, poderia ser passageira, assim como o significado de beleza poderia ser ressignificado.

No entanto, apesar da ideia do livro infantil “Leoa não tem juba” ter vindo à tona naquele período, o sonho ficou adormecido por um bom tempo. Apenas em 2019, pouco tempo depois de se aposentar, Denise iniciou um trabalho voluntário na brinquedoteca do Hospital Infantil Varela Santiago, lugar onde conheceu a personagem principal de seu futuro livro.

“Eu estava no hospital quando presenciei uma cena angustiante: a menina tinha acabado de iniciar o tratamento contra o câncer. Ela tinha cabelos longos e já tinha percebido que as outras crianças já estavam em um estado mais avançado, sem nenhum cabelo. Então, a avó dela falou de forma ríspida que ela iria raspar o cabelo assim que saíssem do hospital. Foi um momento angustiante, mas cheguei para conversar com as duas e contei para ela a história que hoje é o meu livro”, relata.

“Leoa não tem juba” faz uma analogia entre a queda de cabelo de uma criança com câncer e o reino animal. A história fala sobre Felina, uma leoa filhote um pouco frustrada pelo fato de seus irmãos e seu pai, o rei da selva, terem juba e ela não. Em meio a esse pensamento, ela se encontra com Diana, uma garotinha que luta contra o câncer e a ausência de seu cabelo.

“A gente sempre tem o pensamento de que, pelo fato do leão ser chamado de ‘rei da selva’, com aquela juba enorme e chamativa, ele faz tudo. Mas na verdade é a leoa que deveria ganhar mais destaque. Enquanto o leão fica descansando, é ela que vai atrás do alimento. Ao chegar com sua presa, ela faz questão de alimentar primeiro sua família e toda a alcateia para somente depois se alimentar, e ela faz tudo isso sem algo muito importante, a juba. A leoa não tem juba, mas olha a força que ela tem”.

Denise conta que a obra oferece um espaço para que esse público infantil se sinta protagonista da história. Dessa forma, inserir as situações e os espaços presentes no ambiente hospitalar (as salas, o ambiente cirúrgico, a brinquedoteca) contribuíram para a compreensão da criança em relação a sua inclusão na sociedade, através da literatura.

Além disso, assim como os diálogos entre as personagens, as ilustrações se tornam uma ferramenta visível cada vez mais útil para o entendimento e fortalecimento da criança, que tem o livro como uma forma de espelho de sua luta. “Uma vez que a criança pegava o livro em suas próprias mãos, ela lia e participava de toda a parte ilustrativa juntamente com a história […] Quando a criança visualiza o livro, as páginas, ela se sente fortalecida”, diz Denise.

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Denise Martins. Foto: Luana Costa

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