O diagnóstico precoce é a única forma de garantir tratamento eficaz contra o câncer de próstata. O alerta é do urologista Maryo Kempes, membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia no Rio Grande do Norte. Em entrevista à TV Agora RN nesta terça-feira 11, ele alertou que a descoberta do câncer em fase inicial eleva as chances de cura para até 95%.
O câncer de próstata é o tipo mais comum entre os homens — quando excluídos os casos de câncer de pele — e o segundo que mais mata, atrás apenas do de pulmão. No Brasil, a estimativa para 2025 é de 80 mil novos casos. “E é um câncer que não manda recado, ele não avisa”, afirmou o médico.

“Câncer de próstata não dá sintoma. Ele é extremamente silencioso, covarde. Quando você vai descobrir, eu te garanto que você não vai mais fazer nada. Você vai apenas tentar dar uma qualidade de vida para terminar sua vida, porque não tem mais o que fazer”, declarou o urologista.
Por isso, destacou o médico, a única forma de assegurar o controle da doença é a detecção precoce. “Sem diagnóstico precoce não existe cura. Dependendo de como tiver o câncer, se descobrir, a gente pode até controlar esse tumor, mas curar, não. Quando a gente fala de cura, só existe uma possibilidade: diagnóstico precoce.”
Segundo o urologista, não há meios de prevenir o surgimento da doença, apenas de descobri-la cedo. “A expressão que a gente usa de prevenção de câncer de próstata é mais um clichê do que propriamente a verdade. Não existe prevenção. Se você for ter câncer de próstata, você vai ter câncer de próstata. A opção de vida que você faz é diagnosticar precoce, onde há cura de 90% ou 95%, ou realmente esperar a doença dar, que aí já não vai ter mais nada para fazer.”
A importância da consulta regular
Maryo Kempes alertou que 30% dos homens brasileiros nunca foram ao urologista e que a cultura de não buscar atendimento médico começa ainda na infância. “Quando uma menina entra na puberdade, a mãe a leva à ginecologista. Em detrimento, o menino também, quando entra na puberdade, o pai não o leva ao urologista”, observou. “Esse menino vai ser um adolescente, um homem, um idoso que não vai cuidar da sua própria saúde, porque não começou isso lá na infância.”
Ele reforçou que a campanha Novembro Azul, criada na Austrália e difundida em todo o mundo, tem como objetivo conscientizar os homens sobre o cuidado integral com a saúde, e não apenas sobre o câncer de próstata. “O homem negligencia a sua saúde e isso tem impactado diretamente na sua qualidade e expectativa de vida”, afirmou. “A mulher vive mais porque se cuida mais.”
Quando e como fazer o rastreamento
O especialista detalhou que homens com histórico familiar de câncer de próstata e os negros devem iniciar o rastreamento aos 45 anos, enquanto os demais devem começar aos 50. “O rastreamento e a periodicidade serão determinados pelo urologista, mas de uma maneira geral a ida é anual.”
Kempes também explicou o papel dos exames. O toque retal, segundo ele, continua indispensável. “O toque retal é um exame muito rápido, indolor, não vicia, não tem que ter medo. É um exame que dura segundos e é extremamente importante para avaliar o tamanho, a consistência e se há caroços na próstata.”
Ele destacou, contudo, que o preconceito não está no exame em si, mas na busca por atendimento. “Hoje eu tenho a total certeza de que não existe preconceito em relação ao toque retal. O preconceito é ir ao profissional. O homem é criado para não poder adoecer, para não poder mostrar fraqueza. Ele tem que ser aquele burro de carga que trabalha incansavelmente. Isso é o que faz com que o homem não vá ao médico.”
Sobre o exame de sangue PSA, o urologista explicou que ele mede uma proteína produzida pela próstata, que pode indicar diversos problemas, não apenas câncer. “PSA alto é igual a câncer de próstata? Não. PSA alto é igual a um provável problema na próstata. Pode ser infecção, inflamação, crescimento ou câncer”, esclareceu.
As opções de tratamento
Uma vez identificado o tumor, as opções variam conforme o estágio e o tipo de câncer. Existem casos de tumores pouco agressivos que permitem apenas vigilância ativa, com acompanhamento clínico e exames periódicos. “Tem muitos pacientes que têm o câncer, mas ele não vai para canto nenhum. Eu já tenho pacientes com vigilância ativa há oito, nove anos e estão vivendo a vida tranquilamente.”
Nos casos em que é preciso intervir, o tratamento pode envolver cirurgia ou radioterapia. “A cirurgia tem um maior benefício em relação à radioterapia, é um pouquinho melhor. Porém, a radioterapia tem as suas indicações para aqueles pacientes que não aguentariam uma cirurgia muito bem”, explicou.
Atualmente, existem três tipos principais de cirurgia: aberta, laparoscópica e robótica. “As três têm a mesma qualidade quando a gente fala em cura. Porém, em termos de internação, dor, sangramento e estética, a laparoscópica e a robótica são infinitamente melhores que a convencional”, detalhou. “A robótica é melhor do que a laparoscópica quando a gente fala em impotência sexual.”
Impotência e cirurgia
A perda de potência sexual é um dos grandes temores entre os homens diagnosticados com câncer de próstata. Conforme o médico, o risco depende de vários fatores. “A cirurgia robótica melhorou muito essa taxa de impotência, mas ainda depende muito de quem opera e da idade do paciente. Não é a mesma coisa operar um homem de 50 e outro de 70 anos”, ponderou.
Ele explicou que a impotência decorre da lesão de feixes nervosos microscópicos localizados ao lado e abaixo da próstata. “A cirurgia de câncer é a cirurgia que a gente extirpa a próstata toda. Os nervos da potência passam no lado da próstata, e são estruturas microscópicas que não dá para ver. Então, invariavelmente, a gente acaba lesionando essas estruturas. Essa lesão ocasiona a impotência sexual.”
Apesar disso, o médico reforçou que a prioridade deve ser a sobrevivência. “A potência é importante, é sim. Mas é mais importante do que a potência é a cura. Quando você faz uma cirurgia, você tem que pensar que vai fazer uma cirurgia para ficar curado.”
Ele também fez distinção entre as cirurgias realizadas por câncer e as de crescimento benigno da próstata. “A cirurgia do crescimento de próstata é muito mais comum e não deixa impotência nenhuma. Se você ficou impotente numa cirurgia benigna, provavelmente o doutor fez alguma besteira em você, porque não deixa. Já a cirurgia do câncer, essa tem uma taxa alta de impotência sexual.”
O uso indiscriminado da Tadalafila
Na segunda parte da entrevista, o médico alertou para um fenômeno crescente: o uso indevido de Tadalafila, medicamento indicado para disfunção erétil, mas hoje amplamente consumido por jovens – que usam não só em relações sexuais, mas até para melhorar a performance na academia.
“É o remédio mais vendido do mundo. Hoje, vende-se mais Tadalafila do que remédio para diabetes ou pressão”, afirmou. “No Brasil, existem mais de 500 marcas do produto, que o pessoal chama de Tadala.”
Segundo Kempes, há um uso indiscriminado e perigoso da substância, muitas vezes sem prescrição médica. “O cara vai tomar um remédio desses, vai para o vizinho, ou vai para a internet e compra indiscriminadamente. Toma uma dose muito alta, que vai dar problema, ou muito baixa, que não vai resolver. Ou associa com outros medicamentos, o que pode simplesmente safar a vida dele”, advertiu. “A diferença entre um remédio e um veneno é a dose.”
O urologista ressaltou que o medicamento não aumenta o desejo sexual nem o tempo da relação, e que seu uso indevido pode gerar dependência psicológica e até química.
Além de riscos psicológicos, há também efeitos colaterais físicos sérios, como arritmias, AVC, hemorragia de retina e dores musculares. “Todo medicamento tem seu risco. O paciente que tem uma arritmia e toma um remédio desse sem saber pode desencadear uma parada cardíaca”, alertou. “Temos complicações como deslocamento de retina, hemorragia de retina, congestão, aumento das rinites. Pode levar até à ruptura de um aneurisma.”
Kempes também comentou o uso do remédio para fins estéticos ou esportivos. “Ele melhora a vascularização cardíaca, melhora a oxigenação, e as pessoas acham que vão ter mais força. Mas de novo: a diferença de um remédio e um veneno é a dose. Tem que ter muito cuidado com o uso inadequado.”