Quase cinco décadas após lançar Contatos Imediatos do Terceiro Grau, o cineasta Steven Spielberg retorna a um dos temas mais presentes de sua trajetória: a possibilidade de que a humanidade não esteja sozinha no universo. O diretor apresenta agora Dia D, produção da Universal Pictures que chega aos cinemas combinando suspense, conspiração e reflexões sobre o comportamento humano diante do desconhecido.
Logo nos primeiros minutos do longa, Spielberg recria elementos visuais que remetem a trabalhos que marcaram gerações. Uma previsão de granizo aparece na televisão enquanto a câmera percorre um ambiente doméstico até uma mesa de café da manhã. O som dos cereais caindo na tigela faz referência a lembranças pessoais do diretor.

“Era Froot Loops”, afirma Spielberg, sorrindo. “O meu favorito.”
A sequência funciona como ponto de partida para uma história que, segundo o cineasta, revisita sua antiga fascinação por fenômenos extraterrestres sob uma perspectiva diferente daquela apresentada em obras como E.T. – O Extraterrestre e Guerra dos Mundos.
Spielberg sustenta que o novo projeto vai além da ficção científica tradicional.
“É o meu primeiro filme considerado ficção científica que não considero ficção científica”, afirma. “É muito mais um reflexo do mundo à medida que ele evolui e de descobertas sendo feitas neste momento em que estamos conversando.”
A declaração sintetiza a forma como o diretor passou a enxergar relatos envolvendo fenômenos anômalos não identificados, conhecidos pela sigla FANI. Aos 79 anos, ele afirma que sua percepção mudou após décadas acompanhando investigações e testemunhos relacionados à possibilidade de vida extraterrestre.
“Acredito desde que fiz Contatos Imediatos, há 50 anos”, diz Spielberg. “Mas eu sempre dizia: até que eu veja um fani (fenômeno anômalo não identificado) ou um óvni (objeto voador não identificado) com meus próprios olhos, não vou afirmar categoricamente que a vida lá de fora veio para cá.”
Em seguida, admite uma mudança de postura.
“Mas eu mudei isso”, acrescenta. “Agora estou disposto a mudar de ideia em razão das evidências circunstanciais, que são esmagadoras.”
A trama acompanha Daniel Kellner, personagem interpretado por Josh O’Connor. Ex-hacker e especialista em segurança cibernética, ele obtém documentos sigilosos que revelariam décadas de contatos entre governos e entidades extraterrestres. A divulgação do material o transforma em alvo de uma poderosa organização interessada em manter essas informações longe do conhecimento público.
Na fuga, Daniel conta com a ajuda de Jane, interpretada por Eve Hewson. Paralelamente, a jornalista Margaret Fairchild, vivida por Emily Blunt, passa a experimentar acontecimentos inexplicáveis que a levam a questionar sua própria percepção da realidade.
O elenco principal reúne ainda Colman Domingo, no papel de Hugo Wakefield, defensor da divulgação dos segredos relacionados aos FANIs, e Colin Firth como Noah Scanlon, líder da corporação Wardex, que acredita que a revelação dessas informações poderia provocar instabilidade global em um cenário de crescente tensão internacional.
O desenvolvimento da produção nasceu em um momento de reflexão na carreira do diretor. Após concluir Os Fabelmans, lançado em 2022, Spielberg relata ter experimentado uma sensação de encerramento pessoal. Inspirado em sua infância e no divórcio dos pais, o longa foi considerado por ele a obra mais autobiográfica de sua filmografia.
“Foi a pergunta mais difícil que já tive de me fazer, porque me veio uma sensação de encerramento ao resolver tantos problemas pessoais que eu nunca tinha exposto antes de Os Fabelmans”, diz.
O cineasta afirma que o projeto funcionou como uma espécie de terapia.
“Eu não me importava se as pessoas pensavam que Os Fabelmans era apenas uma história inventada, ou se o fato de ser tudo verdade era importante para elas. Eu não me importei com isso. Foi algo que fiz por mim mesmo. Eu costumava dizer que foram US$ 40 milhões em terapia que não precisei pagar. A Universal pagou”, brinca.
A ideia para “Dia D” ganhou força após uma audiência realizada em 2023 pela Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, que discutiu alegações envolvendo fenômenos anômalos não identificados. Entre os depoentes estava David Grusch, que afirmou existir programas secretos relacionados ao tema. As declarações foram negadas pelo Pentágono, mas reacenderam o debate público.
Posteriormente, declarações do então presidente Donald Trump sugerindo a divulgação de arquivos relacionados a óvnis ampliaram o interesse de Spielberg pelo assunto. Inspirado por esses acontecimentos, o diretor elaborou um documento inicial de cerca de 50 páginas que serviu de base para o roteiro.
Para transformar a ideia em filme, voltou a trabalhar com o roteirista David Koepp, parceiro de produções como Jurassic Park e “Guerra dos Mundos”.
“Eu disse: Claro, sobre o que é?”, lembra Koepp. “E ele disse: Ah, sabe, sobre alienígenas de novo. Mas, desta vez, é diferente.”
Segundo o roteirista, o envolvimento de Spielberg no projeto foi incomum até mesmo para os padrões da dupla.
“Houve um período em que acredito que ele relia o roteiro todos os dias durante um ano”, afirma. “Estávamos em fusos horários diferentes, e eu acordava com 30 ou 35 mensagens com as revisões mais recentes que ele tinha feito no roteiro.”
Embora os extraterrestres estejam no centro da narrativa, Spielberg sustenta que o principal tema do filme é a empatia. A personagem de Emily Blunt desenvolve uma habilidade especial ligada à forma como observa e compreende outras pessoas, transformando-se em uma metáfora sobre a capacidade humana de se colocar no lugar do outro.
“Acho que todo filme deveria dar grande ênfase à empatia, porque às vezes parece que a empatia está em falta”, afirma. “Nós a temos, mas às vezes não conseguimos usá-la. Às vezes não é permitido usá-la se você quiser continuar alinhado aos seus amigos e aos seus sistemas de crenças. Mas acho que a empatia está aí para todos nós.”
Nesse sentido, “Dia D” reúne elementos de diferentes fases da carreira do diretor: o fascínio pelo desconhecido que marcou seus grandes sucessos e a abordagem mais reflexiva e humana presente em obras posteriores, como A Cor Púrpura.