Natal lida há bastante tempo com um problema significativo: o processo de revitalização da Ribeira. Com prédios históricos abandonados, o importante bairro sofre com ruas sem movimentação e a consequente baixa utilização dos espaços públicos. O clima fantasmagórico, no entanto, está próximo de mudar. O Teatro Alberto Maranhão, por exemplo, voltou a funcionar recentemente e tem ajudado a dar vida à região.
Na rua Doutor Barata, um prédio específico passou anos fechado. Ele, no entanto, guarda memórias valiosas para a capital potiguar e deve ser reaberto num futuro não tão distante. Trata-se do edifício que abrigava a antiga loja A Samaritana. Construído em 1916, tem um estilo eclético e é um dos mais fotografados pelos apaixonados por arquitetura no estado.
Atualmente, o prédio passa por uma reforma comandada por Roberto Serquiz, diretor da empresa de água Santa Maria. Ele tem uma forte ligação afetiva com o lugar, já que o edifício pertenceu aos avós. Por isso, para o neto, o restauro é também um resgate da vida do casal de origem libanesa que, lá atrás, apostou na veia empreendedora.

Quando a Ribeira ostentava o título de reduto do comércio natalense, a loja de tecidos A Samaritana fazia sucesso. Décadas depois, já em 2019, a família foi notificada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) porque havia risco de desabamento, já que o prédio estava fechado há anos, em condições precárias.
A partir de então, Roberto Serquiz buscou todos os herdeiros, apresentou um projeto de revitalização e conseguiu a aprovação dos familiares. Com recursos próprios, tirou o prédio da situação de emergência em que se encontrava e agora busca o tão sonhado retorno do funcionamento do lugar.
À Cultue, o empresário contou mais sobre as etapas de execução do projeto. Confira:
Revista Cultue – Quais são suas recordações d’A Samaritana?
Roberto Serquiz – O prédio funcionava como uma loja de departamento no estilo da época. Vendia roupa, tecido, brinquedo, perfume, entre outros produtos. Quando A Samaritana fechou, o prédio foi alugado para as Lojas Paulistas, em seguida para as Lojas Pernambucanas. Na parte superior, existiam algumas salas de escritório. Trabalhavam lá algumas personalidades, dentre elas, Djalma Maranhão e três amigos. Eles criaram um jornal chamado Independente. O jornal era editado na sala, e para a impressão contavam com a ajuda do jornal A República. Depois, o Independente passou a se chamar O Diário. Em 1941, Ruy Pereira Paiva comprou O Diário. Foi quando ele transformou-se em Diário de Natal. Depois, por um tempo, o prédio foi alugado para uma casa de show até que fechou-se.
Cultue – Como anda o processo de investimento?
Roberto Serquiz – Depois que fiz os reparos emergenciais, desenvolvi um projeto que foi aprovado pelo Iphan. Uma vez aprovado, busquei recursos. E aí veio a lei Djalma Maranhão, através da Prefeitura do Natal. Quem me aconselhou foi Jener Tinôco, durante uma entrevista. Falei sobre as dificuldades para angariar recursos e ele me explicou sobre a legislação. Então, falei com o secretário de Cultura Dácio Galvão e conseguimos recursos com o apoio da Unimed.
Cultue – Qual é o momento atual da obra?
Roberto Serquiz – Agora estamos começando a sair do papel. Estamos restaurando a fachada, recuperando todas as paredes, e a proposta é deixar coberto. Restauração da caixa do prédio, piso, tudo estará salvo por completo até dezembro. Na parte de trás, deixamos um canteiro de obras pronto para prosseguir com a próxima etapa do projeto em 2023. Para isso, estamos buscando novos parceiros. Temos a perspectiva de que, a partir do momento em que apresentarmos os primeiros resultados, com certeza teremos novos parceiros para auxiliar.
Cultue – E quais são os principais pontos do novo projeto?
Roberto Serquiz – O prédio tem em torno de 600 metros quadrados. O projeto tem um café na entrada, uma área livre para eventos públicos, como lançamentos de livros, exposições e apresentações musicais. No primeiro andar, terá um espaço para o Museu da Água e outras salas para reuniões. Como a Água Santa Maria é uma empresa com 54 anos de experiência, acredito que será uma boa oportunidade para repassar conhecimento aos mais jovens. No terceiro compartimento, haverá um bar/restaurante com espaço para as pessoas curtirem o pôr do sol do Potengi. O que estamos fazendo pode ser o ponto de partida para o ressurgimento da Ribeira, que é um bairro importante historicamente e tem um potencial enorme. Precisamos ocupar, melhorando a qualidade de vida das pessoas com informação e conhecimento.
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