Em crise financeira, os Correios anunciaram nesta sexta-feira 6 que vão colocar imóveis próprios à venda em diferentes estados do país como parte do plano de reestruturação da estatal. A expectativa da empresa é arrecadar até R$ 1,5 bilhão até dezembro com a venda de ativos considerados ociosos.
Apesar da meta, nos últimos seis anos os Correios venderam apenas R$ 45,7 milhões em imóveis classificados como disponíveis para revenda, o equivalente a 3% do valor que a empresa pretende arrecadar ainda neste ano. As vendas somaram R$ 512 mil em 2020, R$ 18,4 milhões em 2021, R$ 7,3 milhões em 2022, R$ 6,2 milhões em 2023, R$ 10,4 milhões em 2024 e R$ 2,9 milhões em 2025, até setembro.

Os primeiros leilões estão marcados para os dias 12 e 26 de fevereiro. Nesta etapa inicial, serão ofertados 21 imóveis. Segundo os Correios, os certames serão 100% digitais e poderão ter participação de pessoas físicas e jurídicas.
De acordo com a estatal, os imóveis desta fase inicial estão localizados em 12 estados: Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo. O portfólio inclui prédios administrativos, galpões, terrenos, lojas e apartamentos funcionais, com valores iniciais que variam de R$ 19 mil a R$ 11 milhões.
A empresa informou que a venda dos imóveis integra um conjunto de medidas voltadas à reorganização financeira, redução de custos fixos e recuperação da capacidade de investimento. Segundo os Correios, as alienações não devem afetar a prestação de serviços à população, e outros imóveis ainda estão em fase de preparação para venda.
As informações sobre os leilões, incluindo editais, fotos dos lotes e regras de participação, estão disponíveis nos canais oficiais da empresa e da leiloeira responsável.
A iniciativa ocorre em meio a uma crise financeira considerada histórica dentro dos Correios. No início de 2026, a estatal abriu prazo para adesão a um programa de demissão voluntária. A expectativa é reduzir em cerca de 15 mil o quadro atual, de aproximadamente 90 mil empregados, além de promover reorganização de cargos e mudanças em benefícios como plano de saúde e previdência. A empresa informou que ainda não tem balanço sobre o número de adesões.
Segundo a estatal, as medidas devem gerar economia de R$ 2 bilhões por ano a partir de 2027. Um gráfico produzido pela empresa aponta crescimento dos gastos com pessoal, que passaram de R$ 15,2 bilhões em 2022 para quase R$ 20 bilhões em 2024. Atualmente, de acordo com os Correios, 60% da receita é utilizada para pagamento de salários, plano de saúde e outros custos relacionados ao quadro funcional.
Ao mesmo tempo, a empresa perdeu participação no mercado de encomendas. Há seis anos, detinha cerca de metade do segmento. No fim de 2025, encerrou o ano com aproximadamente 20%, segundo dados citados pela estatal.
O plano para 2026 prevê, além da venda de imóveis, o fechamento de agências. A empresa informou que já fechou 121 unidades, de um total de mil previstas no plano de reestruturação.
Os números do balanço indicam deterioração acelerada. Em 2022, os Correios registraram prejuízo superior a R$ 700 milhões. Em 2024, o déficit chegou a R$ 2,5 bilhões. O resultado de 2025 ainda não foi fechado oficialmente, mas a empresa calcula perdas de R$ 10 bilhões.
Para manter as operações, a estatal contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões com cinco bancos e recebeu no início de 2026 R$ 10 bilhões desse total. Segundo a empresa, a operação só foi concluída após o Tesouro Nacional oferecer garantias. Os recursos serão usados para quitar dívidas imediatas e sustentar a operação, mas a estatal admite que pode precisar de mais R$ 8 bilhões ao longo do ano.
No fim de 2025, o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, afirmou que o resultado negativo de 2026 pode chegar a R$ 23 bilhões caso o ciclo de perdas não seja interrompido.
Especialistas avaliam que a estatal enfrenta dificuldades para competir com empresas privadas do setor. O economista Raul Velloso afirmou: “Nós temos de arrumar as coisas de tal forma que o setor público saia desses segmentos e nós adequemos o funcionamento deles a um índice de gasto bem mais razoável do que o que se tem em nosso país”.
Já o economista Armando Castellar, pesquisador associado do FGV Ibre, declarou: “Não tem agilidade de um setor que é cada vez mais competitivo, cada vez mais ágil. Empresas estatais no passado fecharam exatamente porque o governo hesitou muito. É muita hesitação em termos de você privatizar. Demorou, demorou, acabou tendo que fechar porque o prejuízo simplesmente era grande demais e não havia condição de competir”.
*Com informações do G1

