Com até 85% da população do Rio Grande do Norte endividada, o comércio potiguar entra em 2026 pressionado por juros elevados, restrição de crédito e um calendário marcado por eleições e Copa do Mundo. Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Natal (CDL Natal), José Lucena, o cenário exige reação rápida do setor. “Esse ano, para mim, eu estou apostando como sendo um ano desafiador”, afirmou.
Segundo ele, o elevado nível de endividamento limita o consumo e reduz a capacidade de crédito da população. A expectativa do dirigente é que a taxa básica de juros encerre o ano entre 12% e 12,25%, patamar que considera elevado para estimular investimentos e compras financiadas. “Ainda é muito caro para se tomar dinheiro emprestado para fazer qualquer coisa”, disse.

Na avaliação de Lucena, a combinação de juros altos com eventos de grande porte tende a dispersar o foco do consumidor. Ele observa que tanto o ambiente eleitoral quanto a Copa do Mundo alteram o comportamento de consumo, afetando o planejamento do varejo.
Apesar do diagnóstico cauteloso, o presidente da CDL Natal defende uma postura proativa dos empresários. “Não é o maior que come o menor. É o mais rápido que come o mais lento”, afirmou, ao destacar a necessidade de agilidade e diferenciação. Para ele, há demanda permanente no mercado, mas cabe ao empresário agir para captá-la. “Prefiro vender lenço enquanto eu choro”, completou.
Associativismo e segmentação
Lucena ressalta o papel do associativismo como ferramenta para enfrentar o ambiente adverso. A CDL Natal reúne quase 2 mil associados, além de cerca de 250 integrantes do CDL Jovem. A entidade passou a organizar suas atividades por nichos, com frentes como CDL Saúde, CDL Educação e CDL Empresas, com o objetivo de ampliar a atuação em segmentos específicos e fortalecer a troca de experiências.
Ele também defende maior articulação entre entidades empresariais, como Fecomércio RN, Sebrae e Fiern. “Não adianta ego, não adianta vaidade”, afirmou, ao cobrar união para a construção de propostas voltadas ao desenvolvimento do Estado.
Turismo como motor
Diante do endividamento acima da média nacional, Lucena aponta o turismo como principal alternativa para dinamizar o comércio. “O turismo é a nossa maior indústria”, disse. Para ele, o Rio Grande do Norte tem vocação consolidada, com rede gastronômica e hoteleira estruturadas e belezas naturais reconhecidas, mas perdeu espaço para outros Estados do Nordeste nos últimos anos.
O dirigente defende incentivo contínuo ao setor para recuperar competitividade e ampliar o fluxo de visitantes, com impacto direto sobre o varejo.
Conexões internacionais e tecnologia
Na busca por atualização, empresários potiguares participaram neste ano da NRF, maior feira mundial do varejo, nos Estados Unidos. A CDL integrou uma missão paulista que reuniu 220 empresários. De acordo com Lucena, o principal ganho foi a ampliação de conexões e a troca de experiências fora do ambiente local.
A entidade promoverá um evento pós-NRF em Natal no dia 5 de março, no Teatro Riachuelo, com inscrições gratuitas pelo site da Ancar. Entre os aprendizados destacados estão a qualificação das equipes e a experiência do cliente no ponto de venda, além do uso de inteligência artificial como ferramenta acessível para gerar diferencial competitivo.
Entraves urbanos e agenda fiscal
Ao comentar projetos de revitalização da Cidade Alta e da Ribeira, Lucena afirmou que entraves regulatórios dificultam investimentos e demonstrou ceticismo quanto à viabilidade de avanços no curto prazo. Ele comparou o potencial da região portuária de Natal ao modelo de Puerto Madero, em Buenos Aires, e disse que empresários têm interesse em investir, mas enfrentam obstáculos.
No campo político, o presidente da CDL defendeu que os próximos gestores tenham coragem para realizar cortes e ajustes fiscais. “Se a gente não der um passo para trás, depois a gente não vai poder andar para frente”, afirmou. Ele disse esperar, em 2026, um candidato com perfil reformista, disposto a promover mudanças estruturais e recuperar a capacidade de investimento do Estado.
Para Lucena, o comércio potiguar precisa se preparar para um ano de cautela, marcado por crédito restrito, população endividada e eventos que alteram o comportamento de consumo. Ainda assim, sustenta que o setor deve agir com rapidez e coordenação para enfrentar o cenário adverso.
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