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Cultura

Com três potiguares no elenco, ‘O Agente Secreto’ é indicado ao Oscar 2026

Com quatro indicações, ‘O Agente Secreto’ chega ao mesmo número recorde de indicações do filme ‘Cidade de Deus’, em 2004
Isabelly Noemi
23/01/2026 | 05:24

O filme O Agente Secreto conquistou quatro indicações ao Oscar 2026 e igualou o recorde alcançado por Cidade de Deus em 2004. O novo longa de Kleber Mendonça Filho disputa as estatuetas de Melhor Direção de Elenco, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Filme. As indicações coroam uma temporada de premiações para o filme, que conquistou o Globo de Ouro em duas categorias: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator (para Wagner Moura).

O Agente Secreto se impõe como um dos retratos mais sofisticados já feitos sobre o Brasil dos anos 1970.

wagner moura tania maria o agente secreto
Wagner Moura e Dona Tânia contracenam no filme ‘O Agente Secreto’ - Foto: Reprodução

Ambientado em Recife, o filme acompanha o retorno de um homem marcado pela clandestinidade e pela violência do Estado, vivido por Wagner Moura com contenção e desgaste físico visível. A narrativa nunca se apressa em explicar quem ele foi ou o que exatamente fez. Essa escolha desloca o suspense da ação para o comportamento: o perigo está nos olhares, nas ruas, nos corredores apertados, na falsa normalidade de uma cidade que segue funcionando enquanto a repressão opera em silêncio.

Com quase 2h40, O Agente Secreto rejeita a lógica do thriller convencional. Em vez de escaladas constantes de tensão, Kleber Mendonça Filho constrói uma espécie de deriva por gêneros e referências – do filme político ao realismo fantástico – criando um cinema que permite respirar e observar. O resultado é um longa que parece menos interessado em chegar a um desfecho do que em examinar o que significa existir sob vigilância permanente.

Um começo arrebatador e um fim que divide

O primeiro ato do filme está entre os mais impactantes do cinema brasileiro recente. A chegada do protagonista à cidade, os encontros interrompidos, a percepção constante de ameaça – tudo é filmado com precisão. A partir daí, o longa se expande, introduz personagens excêntricos, autoridades grotescas, aliados improváveis e até a lenda urbana da perna cabeluda, incorporada como elemento de realismo fantástico que dialoga com o absurdo daquele tempo histórico.

O final, no entanto, rompe com qualquer expectativa. Ao mudar de linguagem e deslocar o olhar para o presente, o filme abandona a progressão dramática para apostar em uma fratura consciente. A decisão pode soar frustrante para parte do público, mas faz sentido dentro da proposta: falar sobre um país que nunca resolveu plenamente sua relação com a ditadura implica aceitar a interrupção, o vazio e a recusa de fechamento.

O vilão, por sua vez, surge como figura quase caricata – um magnata autoritário que encarna privilégios e violência estrutural. Funciona como símbolo, ainda que perca a complexidade psicológica que o protagonista carrega. É um desequilíbrio que não compromete o conjunto, mas que abre espaço para debate.

Wagner Moura não está sozinho

Sem o trabalho de Wagner Moura, O Agente Secreto dificilmente alcançaria o mesmo grau de envolvimento. O ator constrói um personagem exaurido, permanentemente à beira do colapso, cuja dor raramente se manifesta em explosões. Está nos olhos, nos gestos contidos, na forma como ocupa o espaço. Moura interpreta alguém que precisa existir sob uma identidade provisória – e faz disso o motor emocional do filme.

Mas o longa cresce justamente quando divide o peso dramático com seu elenco de apoio. Delegados, refugiados, figuras marginais e estrangeiros compõem um mosaico humano que amplia a dimensão política da narrativa. Entre esses personagens, atuações que são orgulho dos potiguares.

Cinema potiguar no centro do mundo

Se O Agente Secreto chegou ao circuito internacional como um dos filmes brasileiros mais celebrados da década, parte desse reconhecimento passa diretamente pelo Rio Grande do Norte. Entre os três potiguares no elenco, Tânia Maria se tornou um dos nomes mais comentados da produção. Natural de Parelhas, no Seridó, ela interpreta Sebastiana, mulher que acolhe refugiados e oferece abrigo em um ambiente marcado pela vigilância e pela suspeita.

Com uma atuação baseada na escuta, no silêncio e na presença, Dona Tânia transforma cada aparição em um acontecimento – e rapidamente deixou de ser tratada como coadjuvante para se tornar um dos grandes destaques do filme.

Ao lado dela, Alice Carvalho, atriz natalense, surge em uma participação curta, porém emocionalmente precisa, enquanto Kaiony Venâncio, também de Natal, imprime densidade a um personagem ligado ao mundo do trabalho e à repressão cotidiana.

Juntos, os três representam um cinema potiguar que deixa de ocupar espaços periféricos para integrar, de forma decisiva, uma obra que circula no centro do cinema mundial.