BUSCAR
BUSCAR
Ação policial
Caso Marielle: Força-tarefa acredita que Lessa forjou áudio para tirá-lo do foco das investigações; ouça a gravação
Em única gravação encontrada no celular do policial militar, acusado fala sobre a 'morte de vereadora' e aponta um outro grupo de milicianos
O Globo
05/07/2021 | 16:16

Réu nos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, o sargento reformado da PM Ronnie Lessa, antes mesmo de ser preso, teria tentado forjar provas que o tirassem do foco da polícia como suspeito do crime. Uma fonte revelou ao GLOBO que a Força-tarefa do caso Marielle vê indícios de que Lessa deixou, propositalmente, um áudio num dos celulares analisados, no qual gravou uma conversa com um morador da comunidade de Rio das Pedras, tentando direcionar a acusação do duplo homicídio para outros milicianos conhecidos na região.

A informação é de que esta foi a única gravação encontrada num celular, após análise em sete aparelhos apreendidos com ele, que não teve seu conteúdo deletado por Lessa.

A conversa, gravada sem que o outro interlocutor soubesse, ocorreu num bar do Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, reduto de Lessa, duas semanas após o sargento reformado ter ido à Delegacia de Homicídios da Capital (DH). Lessa prestou depoimento ao delegado titular Giniton Lages, no dia 24 de janeiro de 2019.

Apesar de ter sido chamado como testemunha na investigação da morte de Marielle, Lessa — que já atuou em investigações da Polícia Civil como adido, quando foi emprestado à instituição pela Polícia Militar — os investigadores fizeram perguntas que já o colocavam como suspeito do caso, à época. Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz foram presos em 12 de março de 2019 pelas mortes de Marielle e Anderson, ocorridas em 2018.

De acordo com a gravação, a que O GLOBO teve acesso com exclusividade, na maior parte do tempo, Lessa conduz a conversa que tem com um homem, tratado por ele pelo apelido de Kaká. Os investigadores já sabem quem é a pessoa, mas o nome dele está sob sigilo.

No diálogo, Kaká demonstra conhecer bem a atuação da milícia de Rio das Pedras, chegando a dar detalhes sobre os integrantes da organização criminosa. Há uma terceira pessoa na conversa que auxilia o sargento na suposta farsa, para demonstrar que o tema da morte da vereadora surgiu de maneira casual. Inicialmente, ele fala sobre amenidades como as melhores partes de uma galinha para se preparar uma canja ou sobre as frequentes inundações causadas chuvas de janeiro em Rio das Pedras.

Depois do bate-papo descontraído, Lessa fala sobre seu depoimento na DH: “Eu fui depor lá, eu fui depor lá, rapaz!”. E prossegue, de maneira confusa: “O que que acontece? Eu fui chamado pra depor lá há pouco tempo, tem umas duas semanas. Aí eu lembro que ele tinha falado comigo, eu falei, porra… Tava meio que cagando pra isso, mas ao mesmo tempo eu me lembrei que tu, tu, tu me falou aquele dia lá no Quebra-Mar, tu lembra? Que tu me falou, pô, que os cara tavam reunidos e o caralho, não sei o quê…” (sic). Neste trecho, segundo a fonte, os investigadores entenderam que o sargento estava manipulando a conversa para dizer que houve uma reunião de milicianos no Quebra-Mar, local frequentado por Lessa, mas que ele não deu atenção quando Kaká lhe contou.

A vereadora Marielle Franco, que foi morta a tiros em março de 2018 Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo /3-10-2016
A vereadora Marielle Franco, que foi morta a tiros em março de 2018 Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo /3-10-2016

Mais adiante, Lessa faz o vínculo sobre este encontro no Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, com a morte de Marielle. Ele não cita o nome dela, mas fala em morte da “vereadora”: “Não, mas pô, mas o cara sabe o que acontece? Tu sabe que eu nunca gostei de me meter. Aquele dia que tu me falou o negócio lá que eles estavam reunidos no dia da, da morte lá da vereadora, que eles ficaram lá no, tu me falou isso no Rio das Pedras, o que eu falei pra tu? No Rio das Pedras não, no, no Quebra-Mar, que que eu falei? Quero nem saber meu filho, não falei isso pra tu? Não quero nem saber dessa merda. Porra, sai fora meu irmão, eu não gosto nem de saber dessas coisas. Hã?” (sic).

Lessa tenta se aprofundar na conversa e pergunta sobre os milicianos do Morro do Fubá, em Campinho, na Zona Norte, que frequentavam Rio das Pedras, em 2019. Ele se refere a eles como “os moleques de Campinho”. Na época, este grupo era formado por três matadores de aluguel, segundo as investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio.

Segundo Lessa, os “moleques de Campinho” não têm medo de nada: “São kamikazes… Eles não escondem a cara não! Nem toca ninja (usam). Vêm aqui meio-dia e matam alguém. Eles matam!”, diz o sargento na gravação. O policial chega a citar apelidos de integrantes do Morro do Fubá. Alguns trechos da gravação são quase inaudíveis, mas os nomes seriam Leléo e Macaquinho.

Segundo as investigações da polícia e do Gaeco, integram o bando do Fubá: Leonardo Gouveia da Silva, o Mad; Leonardo Luccas Pereira, o Leléo; e Edmilson Gomes Menezes, o Macaquinho. Todos são apontados como matadores de aluguel, antes chefiados pelo ex-capitão do Bope Adriano Mendonça da Nóbrega, morto em fevereiro do ano passado, na Bahia.

Leonardo Gouveia substituiu o chefe, mas foi preso em 30 de junho do ano passado, pelo crime de organização criminosa, durante a Operação Tânatos, coordenada pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e a DH. Ao ser preso, a primeira coisa que Mad fez foi negar a participação nas mortes de Marielle e Anderson.

Conhecimento de técnicas de investigação

O fato de Lessa comentar ainda que a polícia já sabe onde a pessoa esteve no dia do crime, por meio das antenas de telefonia celular, antes de a polícia intimá-lo para depor, revela conhecimento sobre as técnicas de investigação. Ele mencionou o assunto por duas vezes. Segundo a fonte, a Força-tarefa não tem dúvidas de que Lessa fez o comentário já como estratégia para reforçar que, na noite do crime, os telefones dele e de Élcio estavam na Barra, como ficou comprovado durante o inquérito. Por outro lado, ao explicar o funcionamento das antenas, comprovaria que os aparelhos foram deixados lá de propósito para criar um álibi.

Os celulares ligados emitem sinais para as Estações Rádio Base (ERBs), como são chamadas as antenas de celular espalhadas pela região. Daí, os investigadores consultam as operadoras para saber qual a localização da ERB mais próxima do aparelho de que se quer informações. Nas alegações finais sobre o caso, a promotoria não tem dúvidas de que Lessa e Élcio deixaram os telefones na casa do sargento, no condomínio Vivendas da Barra, na Praia da Barra da Tijuca, para cometer o crime sem deixar rastros.

No primeiro comentário sobre as antenas, ele começa a puxar o assunto de que, além dele, outros colegas foram depor na DH como Élcio; Roberto Luiz de Oliveira Dias, o Beto Cachorro; e Márcio José Rosa de Carvalho. Lessa explica a Kaká que, àquela altura das investigações da morte da parlamentar, a polícia já teria feito o levantamento das antenas dos celulares dos suspeitos para saber onde estavam no dia do homicídio, antes de depor: “Vai perguntar coisa de um ano atrás. No caso do Marcinho tava no celular dele que estava de serviço até as 10 da noite. E outra coisa, cara, eles também têm a tua antena. Eles já te pesquisaram antes de chamar. Eles querem saber se tu vai cair em contradição. Então já tem. Aí você diz que tava em casa. Na verdade você não estava em casa porra nenhuma. Eles já sabem, pô!” (sic).

No segundo comentário sobre o assunto, eles falam sobre um conhecido deles que mora em Miami, mas que Lessa não quer estar perto dele: “A distância, às vezes, é melhor. Porque numa situação crítica dessas (crime), a tua antena bate na de fulano, que bate na do sicrano, no dia que alguém se (sic). E aí? Tu na (sic) junto. Vê se entende: ao mesmo tempo o cara é suspeito. Fulano veio não sei da onde e, antes de ir, não sei o que. Resumindo: fulano teve lá no dia tal. Foi fazer o quê? Tramar, beber cerveja?” (sic).

Como adido da Polícia Civil, Lessa trabalhou na instituição por cerca de 10 anos. Ao fazer a gravação e deixá-la no celular, ele tenta, segundo a fonte, manipular as investigações, plantando dúvidas sobre sua participação no crime.

Manifestação dos 1.000 dias da morte de Marielle Franco na Cinelândia, em frente à Câmara Municipal, no Rio Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Manifestação dos 1.000 dias da morte de Marielle Franco na Cinelândia, em frente à Câmara Municipal, no Rio Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Manifestação em data da morte de Marielle e do motorista Anderson Gomes foi realizada em frente à Câmara Municipal do Rio Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Manifestação em data da morte de Marielle e do motorista Anderson Gomes foi realizada em frente à Câmara Municipal do Rio Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Relógios com a imagem de Marielle foram expostos para cobrar respostas Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Relógios com a imagem de Marielle foram expostos para cobrar respostas Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Cores da Anistia Internacional foram usadas no letreiro formado por relógios, em frente à Câmara Municipal do Rio Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Cores da Anistia Internacional foram usadas no letreiro formado por relógios, em frente à Câmara Municipal do Rio Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Anistia Internacional faz uma manifestação pelos 1.000 dias do assassinato de Marielle Franco Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Anistia Internacional faz uma manifestação pelos 1.000 dias do assassinato de Marielle Franco Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Foram colocados cerca de 500 despertadores na calçada em frente a Câmara de Vereadores, na Cinelândia Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Foram colocados cerca de 500 despertadores na calçada em frente a Câmara de Vereadores, na Cinelândia Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo

Procurada, a defesa de Ronnie Lessa informou que, por não ter tido acesso ao áudio, não poderia opinar sobre o assunto. O advogado Bruno Castro explicou que a gravação, ao ser disponibilizada por meio judicial, “deverá ser aberta, eventualmente, a oportunidade ao contraditório e a ampla defesa”.

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - redacao@agorarn.com.br
Comercial: (84) 98117-1718 - publica@agorarn.com.br
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.