A cultura potiguar perdeu uma importante voz nesta segunda-feira 13. Morreu, aos 81 anos, Cândida Maria de Araújo Bezerra, a inesquecível Candinha Bezerra – artista, produtora cultural e professora que transformou a arte em missão de vida.
Casada com o ex-senador, ex-ministro e ex-presidente da Fiern e da CNI Fernando Bezerra, e mãe de quatro filhos, Candinha deixa um legado que atravessa gerações, marcado pela força criativa e pela dedicação incansável à valorização da cultura do Rio Grande do Norte.

O velório acontecerá às 15h desta terça-feira 14 no cemitério Morada da Paz, em Emaús, seguido da missa às 17h e o posterior sepultamento.
Nascida em Natal, Candinha começou a estudar piano aos oito anos. Na adolescência, já era reconhecida como uma pianista talentosa, se apresentando no Teatro Alberto Maranhão, na década de 1950. O amor pela arte se ampliou com o tempo: formou-se em Educação Artística pela UFRN, onde também foi professora e uma referência entre gerações de alunos.
Nos anos 1980, Candinha iniciou um projeto voluntário de ensino musical no bairro de Igapó, que deu origem, anos depois, à Orquestra de Igapó. Também foi produtora dos discos “Emboladas cocos”, “Coco Zambê”, “Repente Potiguar” e “Nação Potiguar”, este último premiado no II Prêmio Hangar, em 1999.
Em 1983, compôs em parceria com Fátima de Brito as músicas “Azul”, “Branco”, “Cinza”, “Festa na floresta”, “O gato”, “Gira-girafa”, “Laranja”, “Preto” e “Verde”, que foram interpretadas por Fátima no LP “Canções infantis”, lançado pela UFRN.
Sua paixão pela fotografia resultou em trabalhos marcantes. No livro “Coco Zambê”, registrou três grupos potiguares que preservam a tradição do gênero. À época, ela destacou: “Acho que o coco, além de ser importante culturalmente, artisticamente, é uma referência para o RN porque não se tem notícia do coco de zambê fora do RN. Esse livro é importante porque ratifica isso.”
Para o poeta e gestor cultural Dácio Galvão, ex-secretário de Cultura de Natal, a perda de Candinha representa o fim de um ciclo luminoso na cultura do Estado, mas também a continuidade de sua influência. Ele comentou, em entrevista ao AGORA RN, que a sociedade perdeu a solidária presença física de Candinha.
“Mas dela permanece sua incrível produção: livros e documentos sonoros, como Poética das Águas com Moacy Cirne, Coco Zambê, Dona Militana, Elino Julião Canto Seridó 1 e 2. Foi responsável pela produção executiva do Projeto Nação Potiguar, pioneiro em música instrumental, com Hermeto Pascoal, Toninho Horta, Naná Vasconcelos, Hélio Delmiro…”, recordou ele.

O jornalista Vicente Serejo destacou o traço mais humano de Candinha: sua generosidade. “A grande qualidade dela foi sempre exercer o mecenato ajudando artistas e escritores sem precisar exercer cargo público, sem nunca ter desejado exercer cargo público. Fazia isso como iniciativa pessoal”, disse.
Ele também destacou o papel da produtora em projetos emblemáticos: “Ela foi a principal incentivadora para que Fernando Bezerra restaurasse o Solar Bela Vista, que é um dos mais velhos exemplares da arquitetura antiga da cidade. Quando ele foi senador, ela promoveu a exposição de artistas em Brasília. Vai fazer falta o movimento artístico da cidade, cultural e artístico da cidade”.
Candinha Bezerra esteve presente, inclusive, nas recentes movimentações culturais do Estado. Serejo contou, emocionado, que viu Candinha pela última vez na segunda-feira passada, durante o lançamento da Flipipa. “Ela estava muito bem”.
Candinha também inspirou o nome de um dos espaços culturais do RN: o Teatro Municipal Candinha Bezerra, em Santa Cruz, nomeado em homenagem à sua dedicação incansável à cultura e à arte potiguar. A Prefeitura de Santa Cruz manifestou pesar: “Candinha dedicou sua vida à valorização e ao fortalecimento da cultura potiguar. Não é à toa que o nosso teatro municipal leva o nome dela em sua homenagem”.
A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante publicou uma homenagem à produtora. “Seu legado é inestimável: foi ela quem revelou ao mundo o talento singular de Dona Militana, romanceira são-gonçalense considerada a maior voz dos romances ibéricos da época da escravatura. Por meio de seu olhar sensível e comprometido com a cultura popular, Candinha não apenas registrou, mas impulsionou o reconhecimento nacional e internacional de Dona Militana”.
A Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), instituição que também guarda parte de sua história, destacou o impacto de sua contribuição: “Candinha deixa um valoroso legado no campo das artes de nosso estado. Em reconhecimento à sua trajetória e à contribuição para criação do acervo de arte da Fiern, em 2013, a Federação prestou uma homenagem a Candinha Bezerra, dando seu nome ao Espaço Cultural da Casa Indústria, numa reverência ao trabalho por ela desenvolvido no âmbito da cultura no estado”.

Em nota, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte expressou condolências aos familiares: “O poder Legislativo, em nome dos 24 deputados estaduais e do presidente Ezequiel Ferreira, se solidariza com os familiares e amigos pelo momento de dor e luto”.
A Prefeitura do Natal também manifestou pesar, por meio do prefeito Paulinho Freire (União) e da secretária municipal de Cultura, Iracy Azevedo.
Candinha Bezerra deixa uma herança de gestos, sons e imagens que moldaram a identidade cultural do Rio Grande do Norte. Sua vida foi uma melodia de generosidade e beleza – dessas que o tempo não apaga, apenas faz soar mais fundo no coração de quem ama a arte.