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Opinião

Barbie incomoda e ensina a escapar do mundo dos Kens

Ela é o momento! Barbie estreou nesta quinta-feira 20 no Brasil e lotou cinemas do país inteiro. Em Natal, não foi diferente: todo mundo usou rosa para assistir ao filme
Redação
22/07/2023 | 08:33

Depois de ser expulsa da Barbieland por ser uma boneca de aparência menos do que perfeita, Barbie parte para o mundo humano em busca da verdadeira felicidade. Com o filme já causando debates acalorados pela internet, o AGORA RN traz a opinião de duas repórteres sobre essa que é uma das produções mais esperadas do ano.

Luana Costa – repórter:

Margot Robbie interpreta Barbie e Ryan Gosling é o Ken no novo filme da diretora Greta Gerwig; longa é uma das produções mais aguardadas deste ano
Margot Robbie interpreta Barbie e Ryan Gosling é o Ken no novo filme da diretora Greta Gerwig. Foto: Reprodução

“Ela é tudo. Ele é só o Ken”. Sempre teremos uma história para contar em relação a Barbie: o dia que ganhamos a primeira boneca, as diversas opções de casas e carros, as roupas rosas, ou até mesmo não ter tido uma Barbie na infância. É esse sentimento de nostalgia e lembranças que o filme “Barbie” traz. Adianto que o longa será um sucesso de bilheteria e figurinha repetida de indicações nas premiações do cinema mundial. Será que teremos Margot Robbie usando rosa em mais um tapete vermelho?

Fui assistir ao filme com receio de me decepcionar. Mas sim, Barbie é tudo isso e mais um pouco. Mais um ponto para a diretora Greta Gerwig, responsável por todas as emoções presentes no filme. É possível se viciar na trilha sonora e nos números musicais (afinal, é a Barbie), rir, se emocionar e até mesmo sentir raiva durante toda a narrativa. Não existe descanso, Você sempre terá os olhos vidrados na tela do cinema para não deixar escapar nenhum diálogo ou referência, e em 1h50 é perceptível que um filme não precisa ser longo para ser um dos melhores do ano.

Outro ponto alto do filme está nas atuações de Margot Robbie e Ryan Gosling, dignas de Oscar. Realmente achei que eles iriam entregar excelentes personagens, mas ainda sim conseguiram me surpreender positivamente, os atores realmente nasceram para interpretarem Barbie e Ken. O histórico cinematográfico da Margot Robbie, que segue intacto, abre mais um espaço para a boneca da Mattel, com sentimentos transparentes e humor no momento certo. Quando pensarmos em Barbie agora, pensaremos nela.

Mesmo julgado pela idade, por ser velho demais para interpretar um boneco, Ryan Gosling prova que técnica e preparação são os caminhos para um bom personagem. Ele é o Ken perfeito! As expressões, comportamento e as reviravoltas da narrativa criaram um grande destaque para alguém que sempre foi um mero coadjuvante e que se sente na vontade de encontrar seu lugar no mundo. Sem dúvidas, Ryan Gosling terá muitas indicações merecidas nas próximas premiações e terá seu lugar guardadinho entre os favoritos ao Oscar. Mas, apesar do protagonismo no filme, para mim, o Ken sempre será só o Ken…

Boa parte do sucesso de Barbie se dá pela forma que o filme foi construído. Até porque, quais as chances de um mundo de bonecas funcionar em um filme com pessoas reais? Todas! A Barbielândia conseguiu ter todas as referências possíveis às brincadeiras da infância, e o melhor disso tudo foi conseguir perceber que o mundo da Barbie foi projetado para ser de fato como os brinquedos, sem tentar trazer aspectos do mundo real. Ver a Margot Robbie descer de um tobogã rosa como a boneca e andar sobre a piscina desenhada do chão aqueceu meu coração e desbloqueou memórias de uma época incrível.

Mas para quem acha que vai ver só um mundo rosa poder ir parando por aí. Barbie não é um filme superficial. Greta Gerwig traz em seu longa-metragem críticas que sempre estarão presentes em nosso dia a dia, mas de um jeito próprio. Com muito sarcasmo e comédia. Você pode achar em algum momento que é um assunto batido, com diálogos óbvios, mas acredito que essa seja a verdadeira intenção, incomodar. Barbie vai muito além da cor de rosa, traz a história de um fenômeno que evoluiu ao longo dos anos e que inspirou e ainda inspira, mesmo que indiretamente, diversas gerações de mulheres que buscam um lugar no mundo dos Kens.

Nathallya Macedo – Repórter:

Quero começar dizendo que evitei todo tipo de spoiler e não li críticas sobre o filme antes de assisti-lo. E foi a melhor coisa que fiz! Fui pega de surpresa pelas piadas bem escritas e afiadas, e pelo tom irônico do filme, construído em cima de um sarcasmo inteligente que só Greta Gerwig teria.

A produção consegue abordar quase todas as faces da existência feminina que, com certeza, não é das mais fáceis: a pressão estética, projeções e problemas com a mãe, carreira e muitos outros dilemas. Tudo isso foi despejado sem perder o fio cômico que liga o filme inteiro.

E é aí onde está a graça: nas entrelinhas. O roteiro não é especificamente feito para ensinar algo sobre feminismo – aliás, o feminismo branco recebe críticas válidas –, mas acaba levando à reflexão sobre nosso papel no mundo dominado por homens e sobre como podemos escapar dele. Entre risadas sinceras, o súbito reconhecimento de tudo que nos fere.

As atuações de Margot Robbie como Barbie e Ryan Gosling como Ken foram impecáveis, tão boas que o Ken roubou a tela em muitos momentos de destaque. Para mim, foi intencional.

No mesmo caminho, o discurso pronto de Gloria (America Ferrera) sobre a jornada contraditória e cruel que enfrentamos é interessante, mas superficial. Acredito que esse monólogo também foi planejado como piada.

Sobre a cena da Barbie pedindo desculpas ao Ken já no finalzinho do filme: foi séria? Deveria ter o tom irônico perpetuado ao longo do filme inteiro? Ou então estamos tão acostumadas a pedir desculpas por tudo que Greta resolveu reproduzir isso como uma crítica nas entrelinhas também? Bom, o filme é propositalmente ridículo e é incrível por isso.

Preciso rever. E logo! Neste fim de semana!