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Denúncia
Banco do Crime, do PCC, é suspeito de lavar dinheiro desviado do combate à Covid no Rio
Essa é uma das principais revelações da Operação Tempestade, deflagrada pela PF nesta semana
Estadão
08/05/2021 | 07:44

‘Banco do Crime’, o esquema de lavagem de dinheiro usado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para movimentar o dinheiro do tráfico de drogas, é investigado pela Polícia Federal (PF) sob a suspeita de movimento de recursos desviados de hospitais de campanha para a covid-19 no Rio, na gestão do governador cassado Wilson Witzel. Essa é uma das principais revelações da Operação Tempestade, deflagrada pela PF nesta semana.

Um dos doleiros acusados ​​- Wilson Decaria Junior, o Tio – é ainda o elo entre a apuração da PF e a Operação Sharks (Mais informações abaixo). De acordo com os investigadores, são dois os principais esquemas de lavagem de dinheiro do PCC. Um deles envolve uma doleira identificada pelos criminosos como “Veia”. O outro é o esquema detectado pela Operação Tempestade, que usava pelo menos duas empresas como bancos: o “Banco Neman” e a Bidu Cobranças, Investimentos, Transportes e Participações.

Segundo relatório da PF assinado pelos delegados Rodrigo de Campos Costa e Adriano Mendes Barbosa, da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, os investigados criaram estrutura própria para o “branqueamento de capitais por meio do uso de empresas fictícias e de laranjas conscientes”, emitindo notas fiscais frias para justificar a prestação de serviços inexistentes. O construtor Dalton Baptista Neman é apontado como o líder do esquema criminoso – que incluiria ainda seu filho. A ação contaria ainda com a participação de Decaria Júnior.

Neman e Decaria foram identificados pela PF na Operação Laços de Família, em 2016, que apurou o envolvimento do ex-presidente do Paraguai Horácio Cartes com o contrabando de cigarros para o Brasil. Neman manteria contato com outras divisões da organização criminosa, como o chamado Núcleo Canadense. É aqui que surgiram as suspeitas da PF de ligações entre o Banco do Crime e os desvios dos recursos pata o combate à covid-19.

De acordo com a PF, o advogado e lobista Roberto Bertholdo seria a peça que uniria os dois esquemas. Ele é investigado por suposto envolvido em desvio de recursos de hospitais de campanha para covid-19 no Rio. A PF chegou a pedir à justiça provisória de Bertholdo, mas ela foi negada pela 6.ª Vara da Justiça Federal de São Paulo.

De acordo com o relatório da PF, Bertholdo “ficou conhecido como o homem que grampeou Sérgio Moro”. Os federais destacaram os contactos políticos do advogado, cujo escritório fica em Brasília, no MDB e no PP. Durante as investigações, os federais recebem R $ 700 mil transferidos da conta do escritório de Bertholdo para a empresa Bidu Importação e Exportação Eirelli, dos Nemans. Bertholdo seria representante do Iabas, que foi contratado pelo governo do Rio para construir os hospitais de campanha.

Em pelos menos uma oportunidade, os federais registraram o transporte de dinheiro de São Paulo para o Rio. Era 3 de fevereiro de 2020, quando os federais flagraram um intermediário recebendo dinheiro dos Nemans em um hangar do aeroporto de Jacarepaguá, no Rio.

Em uma conta ligada ligada a Bertholdo, os federais afirmaram terem encontrado nove depósitos feitos pelo Iabas sem valor de R $ 6,5 milhões e quatro outros feitos por Bertholdo à Bidu, sem valor de R $ 2,4 milhões. Ao todo, Roberto Bertholdo teria movimentado por meio de uma empresa r $ 77 milhões. Já os Nemans movimentado cerca de R $ 220 milhões. “Há indícios fortíssimos que levam à possibilidade de que os valores transportados pelos Nemans, fisicamente, podem ter como destino o pagamento de propina a membros do governo daquele Estado (Rio)”.

O Núcleo Canadense usaria o banco do crime para “se os beneficiários de recursos públicos, em tese, oriundos de fraudes em licitações e contratos superfaturados”. De acordo ainda com os delegados da PF, os “clientes dos Nemans” já foram investigados na Operação Prato Feito (um ex-prefeito), que apurou o desvio de merenda escolar em São Paulo, e na Operação Zelotes, sobre fraudes no Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf).

“A desfaçatez do grupo é tamanha que criou uma instituição financeira, do Banco Neman, com um único objetivo: lavagem de ativos ilícitos de qualquer atividade criminosa”, escreveram os delegados. Durante a Operação Tempestade, um PF cumpriu cinco mandados de prisão, quatro preventivas e uma temporária – os delegados solicitados cinco preventivas e seis temporárias. A PF não revelou os nomes dos presos.

Os agentes fizeram 22 buscas em endereços de São Paulo, Tietê (SP), Guarujá (SP), Rio e Brasília. Entre os alvos vasculhados estavam residências, empresas e dois escritórios de advocacia. O Coaf identificou movimentações atípicas de R $ 699 milhões, “que hoje estão integrados no mercado econômico, como se lícitos ocorreram, beneficiados são criminosos tanto do colarinho branco como de facções criminosas, incluindo o PCC”.

Estadão espera Neman, Bertholdo e Decaria Junior bem como as empresas citadas, mas não conseguiu encontrar os acusados ​​ou os seus representantes legais. Decaria Juniorestá foragido desde julho de 2020, depois que seguir um habeas corpus para responder em liberdade à acusação de assassinado o advogado, segundo a PF, “por supostamente ter relação a uma cobrança de dívida referente a criptomoeda”.

A delação do piloto de helicóptero Felipe Ramos Morais foi o que comum aos federais descobrir quem era o Tio, o doleiro misterioso detectado pela primeira vez na Operação Shark. Feita pelo grupo de Atuação Especial e repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), ela encontrou planilhas que indicavam a movimentação de R $ 1,2 bilhão pelo PCC com o tráfico de drogas. Trata-se de um valor hoje considerado ultrapassado pelos investigadores, depois que o “Banco do Crime” foi desvendado pela PF.

“Com os dados da Operação Tempestade e da Operação Sharks, ficou claro que o PCC mantém a operação para movimentar dinheiro do tráfico entre a Holanda, o Paraguai e o Brasil. Juntas, somam cerca de R $ 3 bilhões com o tráfico doméstico e o internacional ”, diz o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco. Para ele, esse é o caminho do dinheiro da organização criminosa. “Não se trata de dinheiro particular dos narcotraficantes que a integram”, afirma.

O piloto teve uma colaboração homologada pela 6.ª Vara Criminal Federal de São Paulo. Ele foi preso sob uma acusação de ter participado dos assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, em 2018. Morais era o piloto da aeronave que levou os dois lideres do PCC para uma armadilha , no Ceará, sob as ordens de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, então responsável pelos contatos do PCC com a ‘Ndragheta e com a máfia sérvia para o envio de drogas para a Europa. Gegê e Paca foram mortos a mando da cúpula da facção, que a suspeita de estar sendo passada para trás pelos dois. Dias mais tarde, Cabelo Duro também foi assassinado em uma queima de arquivo. Preso, o piloto decidiu colaborar.

Morais contou que conhecia Cabelo Duro da Baixada Santista e sabia das dificuldades dele para receber o dinheiro do pagamento da droga exportada parta a Europa. O piloto apresenta o traficante ao empreendedor Caio Neman, filho do dono do Grupo Neman, Dalton Baptista Neman. O piloto conhecia Caio do Guarujá. De acordo com a PF, “os investigados pleno conhecimento de que estavam envolvidos em atividades ilícitas, em especial dando suporte à lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas”. Segundo o piloto, o doleito Wilson Decaria Júnior, o Tio, ligado ao grupo dos Nemans, teria sido o responsável por cuidar da movimentação do dinheiro do PCC.

Cabelo Duro foi para Holanda conhecer o esquema. O dinheiro era entregue em espécie a um emissário do Tio, que tinha um código de número de série de uma nota, que serviço de senha para identificar quem vai receber o dinheiro, normalmente, em hotéis. O dinheiro era depositado na Europa e transferido dali para a China. “A transferência ocorria mediante esquema de doleiros chineses ligados ao comércio da Rua 25 de Março, de São Paulo”, contou o piloto. Um PF conseguiu acessar arquivos dos investigados, confirmando como remessas. Também obteve diálogos em aplicativos de mensagens entre os Nemans e Morais.

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