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Economia

Aposta de Trump na reconstrução do petróleo venezuelano expõe riscos bilionários para empresas dos EUA

Crise política, infraestrutura deteriorada e petróleo pesado levantam dúvidas sobre viabilidade econômica, apesar do discurso de retomada liderado por Washington
Agora RN
05/01/2026 | 16:18

A sinalização do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que espera contar com grandes empresas americanas para reconstruir a indústria petrolífera da Venezuela reacendeu o debate sobre os riscos e as oportunidades de um eventual retorno em larga escala ao país que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Especialistas do setor energético, no entanto, avaliam que o cenário é mais complexo — e potencialmente mais custoso — do que o discurso político sugere.

A extração de petróleo na Venezuela exigiria investimentos bilionários para reconstruir uma infraestrutura profundamente deteriorada ao longo de décadas. O próprio Trump reconheceu que seriam necessários aportes vultosos para recuperar campos, oleodutos, refinarias e terminais. O problema é que, no atual patamar dos preços internacionais do petróleo, o retorno financeiro desses investimentos é considerado incerto, sobretudo diante do alto custo operacional do petróleo venezuelano, classificado como pesado e de difícil refino.

petroleo
Plataforma de petróleo na Venezuela Foto: Poder Naval

Além da equação econômica, pesa o ambiente político. A Venezuela atravessa uma crise institucional agravada após a destituição do presidente Nicolás Maduro, capturado no sábado (3) em uma operação conduzida por forças especiais dos EUA, ao lado da primeira-dama, Cilia Flores. Ambos foram levados para Nova York, onde respondem a acusações de narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e crimes relacionados a armas. Trump afirmou que os Estados Unidos irão “governar” o país até que uma liderança considerada segura seja estabelecida.

No mesmo dia, a Suprema Corte venezuelana nomeou Delcy Rodríguez — responsável pela supervisão da estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) — como presidente interina. Para analistas, a sobreposição entre incerteza política e ambição econômica amplia a cautela das empresas do setor. “Toda essa situação levanta mais perguntas do que respostas sobre o futuro da política na Venezuela, e isso será uma das principais preocupações dos planejadores corporativos e industriais”, afirma Clayton Seigle, pesquisador sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).

Trump sustenta que a entrada das gigantes petrolíferas americanas permitiria à Venezuela recuperar o papel de grande produtor global. Segundo ele, as empresas dos EUA investiriam bilhões de dólares para reerguer a infraestrutura e gerar receitas para o país. O discurso, no entanto, contrasta com a avaliação de especialistas de que o risco regulatório, jurídico e operacional permanece elevado, mesmo em um cenário de transição política apoiada por Washington.

Historicamente, a Venezuela manteve uma relação estratégica com os Estados Unidos no setor energético. A proximidade geográfica e o petróleo barato e viscoso levaram refinarias americanas a moldar sua infraestrutura para processar o petróleo venezuelano. Nos anos 1990, políticas de abertura ampliaram a participação estrangeira. Esse quadro mudou radicalmente a partir de 1999, com a chegada de Hugo Chávez ao poder, a estatização efetiva da PDVSA e a subsequente deterioração da capacidade produtiva do país. Em 25 anos, a produção venezuelana caiu mais de um terço.

Hoje, a Chevron é a única grande petrolífera americana ainda em operação no país, mantendo atividades de forma intermitente na última década, amparada por isenções às sanções impostas pelos EUA. Cerca de um quarto do petróleo produzido na Venezuela pela empresa é exportado para o mercado americano. “A Chevron opera lá há literalmente 100 anos, já viu de tudo e perseverou em todos os momentos, até chegar a uma posição realmente vantajosa”, observa Seigle.

Essa presença histórica cria uma barreira relevante à entrada de novos competidores. Para Michael Klare, pesquisador sênior visitante da American Arms Association, qualquer empresa que deseje operar na Venezuela enfrentará uma curva de aprendizado longa e cara. “Não dá para simplesmente entrar na Venezuela e bombear petróleo. É um processo extremamente difícil e complexo, no qual a Chevron se destacou ao longo dos anos”, afirma.

Após os acontecimentos do fim de semana, a Chevron informou, por meio de um porta-voz, que continuará a operar “em total conformidade com todas as leis e regulamentações aplicáveis”. A postura reflete a cautela de uma empresa que, apesar da oportunidade potencial, conhece de perto os riscos estruturais e políticos do país.

Para o mercado, a promessa de reconstrução da indústria petrolífera venezuelana pode representar, ao mesmo tempo, uma oportunidade estratégica de longo prazo e um teste extremo de apetite ao risco. No curto prazo, a combinação de instabilidade política, altos custos e incertezas regulatórias tende a afastar investimentos imediatos, mantendo o futuro do petróleo venezuelano envolto em dúvidas — apesar do entusiasmo retórico vindo da Casa Branca.

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