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Economia
Apertem os cintos. A feira subiu!
A sensação de que as compras de supermercados sobem a cada semana contrasta com a preocupação dos mais pobres, que passarão a receber metade do auxilio emergencial antes que o benefício chegue ao fim, em dezembro
Marcelo Hollanda
16/10/2020 | 05:17

Arroz, feijão, derivados do leite, óleo de soja e carne, produtos de limpeza e higiene pessoal. Tudo anda subindo de preço muito rápido, sem nada ter a ver com a sazonalidade.

“É a tal carestia da pandemia”, nas sábias palavras da comerciária Zefinha, que faz a feira semanal na Zona Norte, mas já olhou os preços pela zonas Sul e Oeste e não notou qualquer diferença.

“Acho que a vida está bem mais fácil para a minha patroa do que para mim”, afirma ela, no que provavelmente está certa.

Hoje, com exceção de algum produto próximo ao vencimento ou aqueles que os supermercados precisam desovar, mas sem descer demais o valor para que o santo do milagre não desconfie, “os preços estão todos pela hora da morte”, decreta Marli, dona de casa que mora na Zona Oeste de Natal.

“Faz tempo que eu nem olho mais para os queijos e troquei a carne de boi pela de frango depois que a de porco também começou a ficar cara”, afirma mais uma de tantas representantes da classe média, que também sente o custo de vida pesar, olhando com preocupação para 2021 sem a ajuda emergencial do governo federal.

“Pense bem, como é que vai ficar?” – indaga incrédula, soltando um suspiro profundo. O marido dela perdeu o emprego no começo da pandemia.
Para o secretário-executivo da Associação dos Supermercados do Rio Grande do Norte, João Marinho Dantas, foi mais ou menos essa preocupação que levou o presidente nacional da entidade, João Sanzovo Neto, um mês atrás, a entrar no gabinete do presidente Jair Bolsonaro.

Depois de falar com o número 1 e incluir na conversa os ministros Paulo Guedes, da Economia, e Tereza Cristina, da Agricultura, Sanzovo expressou a preocupação do varejo de alimentos – um dos que mais cresceram no País com a pandemia – com o que chamou de “equilíbrio nas relações de consumo”.

Nessa ocasião, o presidente da Abras preveniu para a necessidade de se buscar alternativas para evitar que o câmbio não se reflita no valor os produtos no varejo e para que o abastecimento da população se mantenha normalizado. Normalizado ele está, mas a que custo?

Explica João Marinho que, nesse caso, a relação dólar-real interfere diretamente nos preços do mercado interno, especialmente de alimentos, na medida em que ela favorece os exportadores que passam a mandar mais seus produtos para fora, enquanto o pouco que fica aqui dentro sofre os efeitos da lei da oferta e da procura.

Ou seja, com a demanda aquecida e a cadeia de suprimentos ainda se restabelecendo dos efeitos da pandemia, a tendência de alta nos preços nas gôndolas é uma consequência lógica.

“Hoje, quando alguém se depara com o quilo do frango congelado a menos de US$ 2, é porque o fornecedor resolveu fazer essa promoção e o preço vai subir assim que esse estoque terminar”, diz Marinho.

Assim, quem deixou de consumir carne de boi para cair no frango ou no porco, com a pressão dessas novas demandas, fará a lei da oferta e da procura atuar também sobre as aves e suínos.

“Como o governo não está intervindo no câmbio, comprando dólar, aquecendo a especulação sobre a moeda americana, de duas uma: o País começa a exportar mais, de um lado, e a importar mais, de outro”, lembra João Marinho.

Resultado disso: o preço do óleo de soja subindo, puxando outras altas, ligando o sinal de alerta nos consumidores. E a mesma coisa acontecendo com outros produtos, num momento em que a cadeia de suprimentos ainda não está totalmente recuperada.

Os dados oficiais provam isso. A inflação de agosto último foi de 0,24%, segundo o IBGE, revelando uma flagrante variação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que é o principal indicador usado para medir a mudança de preços no País.

Nos últimos 12 meses, por conta dessa situação, o Brasil acumulou alta de 2,44%, pertinho da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central, que é de 2,5% ao ano. Como conseqüência, o grupo alimentos registrou alta de 0,78% em agosto, fazendo disparar alguns produtos da cesta básica.
Enquanto as mensalidades de escolas e faculdades caíram, por exemplo, só os alimentos, seguidos dos transportes, mantiveram altas.
Elas foram puxadas por produtos como tomate, leite, carnes, frutas, arroz e óleo de soja, obtendo seu ápice com o limão, que subiu 42,2% no período.
Moral da história: com a redução do auxilio emergencial de R$ 600 para R$ 300, que passou a vigorar em setembro, a sensação dos mais pobres é de frio na barriga.

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