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Música potiguar
Abram-se os caminhos
Depois de um percurso regado pela ancestralidade, a cantora natalense CLARA traz ao mundo musical os desfechos de si mesma
Nathallya Macedo
20/07/2020 | 00:07

Quando você reconhece a própria história, também abraça um universo anterior que integra a sua identidade. Foi pensando nessa possibilidade que a natalense CLARA embarcou em uma viagem para entender todas as características da ancestralidade negra – com um trajeto musicado que abriu novos caminhos a partir de raízes autênticas e leais.

Cantora há mais de uma década, CLARA já conquistou prêmios, gravou álbuns e participou de vários projetos, como a Orquestra Boca Seca. Ainda levou a música autoral para outros lugares do Nordeste e até para a Europa. Mas nada como o lar para inspirar. “Moro na Vila de Ponta Negra há 25 anos. É uma periferia e muitas vezes precisamos enfrentar violência. Por outro lado, é o lugar mais afetivo que existe. Temos carinho pelos moradores e somos resistência cultural”, contou.

A Vila acabou virando o cenário do mais novo clipe da cantora, lançado no último dia 10, e que marca a busca por representatividade, expressão e união. O single “Força” traz sonoridades da matriz africana e letras que demonstram intenso vínculo e consonância: “força, meu povo negro. Força, minha mãe negra. Segura minha mão, mana preta. Nossos dias chegarão […] não se entregue, se enxergue e se ergue”.

A canção faz parte do quinto trabalho da artista, o EP intitulado “Volte e Pegue”. Segundo CLARA, o impulso criativo surgiu assim que engravidou da primeira e única filha, em 2015. “A gestação foi como um gatilho: comecei a revisitar algumas memórias, tanto boas quanto ruins, e percebi que passei por diversas situações de racismo. Me vi e me entendi como mulher negra, por isso decidi estudar sobre a nossa luta nesse país. O EP é, então, resultado dessa imersão e desse anseio por autoconhecimento”, revelou.

Agora, aos 36 anos, CLARA deseja influenciar a filha para que conviva e aprenda mais sobre o poder preto. “Essa bagagem nos conecta. Nossa constante luta por vitórias que deveriam ser comuns. O rancor direcionado ao racismo estrutural. Tudo isso está presente no meu cotidiano e, portanto, no álbum”.

Volte e Pegue

O EP “Volte e Pegue” estava programado para ser lançado em junho, mas a pandemia do novo coronavírus adiou o planejamento. “Fiquei temerosa justamente por causa do sofrimento causado pelo vírus. Contudo, lembrei que a arte é transformadora, acolhedora e consegue acalentar”, afirmou. Para que o álbum fosse produzido, a artista criou uma campanha de financiamento coletivo na plataforma “Vakinha”, com o intuito de custear o trabalho de parceiros e trabalhadores da cultura envolvidos no processo.

Sobre o conceito, CLARA recorreu ao símbolo de Sankofa. “Volte e Pegue é a tradução livre deste símbolo, que é utilizado no sistema de escrita do povo Akan da África Central. Está diretamente ligado ao provérbio que diz: ‘não é problema parar a sua vida e voltar para pegar o que você esqueceu’. Tem relação com fortalecimento, ancestralidade e alicerces. E foi o que aconteceu comigo recentemente”, recapitulou. Entre MPB, soul e blues, a cantora imprime uma sonoridade singular, ao mesmo tempo que prega a coletividade preta e empoderada.

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