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Artigo
A utopia política como religião profana
Confira o artigo de Geraldo Ferreira desta quarta-feira 29
Geraldo Ferreira
29/09/2021 | 08:08

Os grandes temas da religião cristã giram em torno da queda do homem. Houve uma felicidade original, quebrada pela desobediência, há a queda do homem com uma promessa de redenção futura. Milton, em sua obra prima Paraíso Perdido, coloca a punição divina “a expiar tal traição nada lhe resta, mas ao estrago dado e consagrado, deve morrer com sua descendência, morre ele ou a justiça; só se dele tão capaz como pronto outro pagar a alta satisfação, morte por morte. Há no céu caridade tão querida? “ Milton prossegue que o céu emudeceu, até que o Filho se manifesta “pesa-me, por ele eu, vida por vida ofereço, sobre mim desfere a ira, toma-me homem.

Por ele eu deixarei teu colo, e esta glória junto a ti declinarei, e dele a grata morte morrerei; faz que em mim cevada a morte, enjoe a fúria”, virá do sacrifício a expiação e o reencontro com a felicidade primeira, tudo mediado pela figura messiânica de Cristo, que confia no Pai “não me deixarás lá na tumba sórdida, erguer-me-ei vencedor, ferida de morte a morte sofrerá tombando inglória, morto o seu ferrão”. O Marxismo foi delineado como uma religião profana, levou seus adeptos a um fundamentalismo político incondicional, por fiar-se em um projeto histórico absoluto. O seu projeto cabalmente ateu redesenhou todas as etapas das religiões divinas para a luta política e a busca do paraíso na terra. Sua substância ideológica intenta a transformação da sociedade, da economia, da cultura e da própria natureza humana. No mito marxista, toda escatologia das religiões está presente, por isso é tão fundamentalista e aliciante.

A salvação vem da destruição do sistema construído pelo progresso histórico contaminado pela dominação, exploração e alienação, com o proletariado encarnando a figura do herói messiânico. Vladimir Tiasmãneanu diz que o ateísmo encontra-se no coração desse projeto, porque diviniza a humanidade, colocando neste mundo a salvação. A violência foi santificada, passando a ser elemento absoluto na construção dessa nova sociedade. Tismãneanu, em seu livro Do Comunismo, cita do livro de Ernst Nolte que Grigore Zinoviev no começo do terror vermelho disse “Construiremos o socialismo a qualquer preço, mesmo se o preço for o extermínio de 10 milhões de pessoas”, ao que Lênin teria acrescentado “certamente, mas não anunciemos”. Além do credo ateu eis aqui pontos cruciais de conflito de praticamente todas as religiões com o Comunismo, a sacralização da violência, a impossibilidade do perdão e do reencontro.

O Ocidente, que teve no Cristianismo a grande força propulsora de seus valores de respeito à natureza, como obra de Deus, e do ser humano como criado à sua imagem e semelhança, viu no século XX o surgimento da religião secular, onde o homem é mera engrenagem na máquina social fabricada pela engenharia política. Mesmo o insucesso econômico do marxismo não abalou a doutrina, com os conflitos identitários, de gênero, sexuais e raciais, avançou na radicalidade materialista da redenção. Em O Diabo na História, Tismaneanu fala dessa manifestação ideológica como “encarnação de princípios diabolicamente niilistas da subjugação humana e do condicionamento em nome de fins supostamente puros e purificadores.” Leszek Kolakowski, filósofo polonês, disse que os regimes ideológicos representavam encarnações da presença desastrosa do diabo na história “o diabo inventou estados ideológicos que se fundam no fato de se fazerem proprietários da verdade.”

Muitos intelectuais se envolveram na busca exaltada da utopia, isso deu legitimidade a regimes despóticos, guiados ideologicamente. Marx e seus seguidores imaginavam ter descoberto as leis ocultas do desenvolvimento histórico. No seu Manifesto, Marx e Engels diziam “nosso programa abole verdades eternas, abole toda religião, toda moralidade”. Interessante é que, coloca W. Cleonice Skousen em O Comunista Exposto, “tendo rejeitado Deus, as Escrituras, a imortalidade, o julgamento eterno, a existência do espírito e a santidade da vida humana individual, transformaram tudo isso no culto de si próprios”.

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