BUSCAR
BUSCAR
Case de Sucesso
A saga do Nordestão na visão de Manoel Etelvino
Com a primeira loja da rede a ser inaugurada fora do Rio Grande do Norte possivelmente em agosto do ano que vem, a empresa sairá da pandemia do novo coronavírus maior e melhor do que entrou
Marcelo Hollanda
29/08/2020 | 05:33

No último dia 5 de agosto, aniversário de João Pessoa, capital da Paraíba, os potiguares da Rede de Supermercados Nordestão anunciaram oficialmente o que se sabia desde o ano passado: a inauguração de sua primeira loja do “atacarejo” da marca SuperFácil fora do Rio Grande do Norte, possivelmente para agosto de 2021. Será erguida no bairro José Américo de Almeida, zona Sul da capital paraibana.


Muito tempo antes, sem alarde, para não inflacionar o preço, o grupo comprou dois motéis na região para demoli-los e utilizar o espaço em suas futuras instalações, num caminho que promete ser sem volta: a prioridade de investimentos futuros na mistura de atacado e varejo que, apesar de prós e contras, já virou uma tendência do mercado brasileiro e não é de hoje.


O que poucos sabem é que o atacado como atividade sempre esteve no DNA do Nordestão antes mesmo de seu nascimento, em setembro de 1972, pelas mãos de Leôncio Etelvino de Medeiros, pai de uma numerosa prole de 10 filhos, da qual quatro assumiriam o negócio, transformando-o num dos empreendimentos de varejo mais bem-sucedidos do País.


Hoje com nove supermercados em Natal, mais duas estruturas do SuperFácil em Emaús e ao lado da rodoviária e um grande Centro de Distribuição em Parnamirim, seria justo perguntar porque não uma inauguração em Mossoró, segunda maior cidade do estado, ao invés de João Pessoa.


Segundo um dos sócios cotistas, Manoel Etelvino, que presidiu por sete anos o grupo, hoje comandado pelo irmão caçula Leôncio, por três motivos: a distância menor em relação ao Centro de Distribuição; a qualidade da estrada melhor e o dinheiro circulante na Paraíba, maior que a do Rio Grande do Norte.


“Não é novidade para ninguém que a economia de João Pessoa cresce muito mais que a nossa”, reconhece Manoel Etelvino, 78 anos, conhecido como um dos irmãos mais expansivos da família – o oposto de Leôncio, o atual presidente, mais quieto e que pensa 200 vezes antes de dar uma declaração.
Na última quinta-feira, 27, Manoel deu uma longa entrevista ao Agora RN, que merece ser guardada. Em breve, não se sabe quando, por conta da pandemia do novo coronavírus, ele será o segundo da família homenageado com o título de Cidadão Honorário de Natal.

Uma história e tanto

Homem de uma simplicidade assombrosa, recebeu a reportagem na sala da gerência da unidade do Nordestão de Lagoa Nova. Recordou a infância na fazenda do pai em Cruzeta, onde começou a trabalhar aos sete anos, ajudando a manejar o rebanho e a tirar leite, o velho Leôncio lidando com as vacas e ele cuidando dos bezerros.  


À tarde, Manoel servia a ração para o gado, sem não antes frequentar por duas ou três horas o grupo escolar instalado nas proximidades. “Eu tive o privilégio de ser o primeiro filho a estudar fora de Cruzeta. Fui fazer o primeiro ano ginasial em Caicó”, recorde ele.


Já em Natal, fez o resto do ginásio, científico e Universidade. Ginásio e Científico no Ateneu e o curso de Farmácia e Bioquímica na UFRN. Na época – anos 60 – queria ser médico, mas como passou em Farmácia “assim foi”.  Nessa época, já era vendedor externo do Nordestão, com pastinha na mão e roteiro de trabalho.


Mais tarde, viria a cursar a faculdade de Administração na UNP e, posteriormente, pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas.


Como tinha uma irmã e um cunhado médicos, antes do negócio chamado Nordestão, Manoel Etelvino pensou seriamente em colocar uma clínica médica. Só que não:  terminado curso, guardou o diploma e voltou para a empresa do pai, que na época ainda era atacadista.


Com o incêndio que destruiu o mercado público de Natal, no carnaval de 1967, a família transferiu a mercearia que tinha lá para dentro de casa e isso em apenas três dias. Ficava no sobrado da rua Doutor Pedro Amorim, na época Cidade Alta, hoje Barro Vermelho.


“Cidade pequena na época, a maioria dos clientes que compravam de nós no Mercado passou a comprar lá em casa”, lembra Manoel.


O incêndio do mercado, na época, destruiu totalmente o prédio que abrigava mais de 100 pontos comerciais, levando a falência vários comerciantes. Foi quando a prefeitura vendeu o terreno ao Banco do Brasil e o comércio em mercados públicos entrou em decadência.


Menos para a família de Manoel Etelvino.


Há algumas boas razões para isso. Segundo ele, todos os filhos e filhas foram educados pela cartilha do trabalho. Leôncio, o pai, não tinha estudo nenhum, mas sua visão de mundo compensava tudo isso e fez todos os filhos enterrarem a cara nos livros. Isso viria a ser tornar um ativo valioso anos mais tarde, quando o Nordestão virou realidade.


 “Como a mercearia instalada no sobrado era pequena, saímos para uma maior atividade no atacado, no bairro do Alecrim, por oito anos, até resolvermos partir para o varejo, onde a primeira loja do Nordestão está até hoje. Mas nossa primeira escola do varejo, posso dizer, foi no Mercado Público”, diz Manoel Etelvino.  


Para manter os clientes do atacado fieis, ainda no Alecrim, resolveram ele e os irmãos dividir para conquistar:  mantiveram abertos dentro da mesma estrutura atacado e varejo, criando o primeiro “atacarejo” do Rio Grande do Norte, quando esse conceito nem existia no Brasil.


Mas o nome Nordestão não caiu do céu como coisa acabada.


“Quando terminei a universidade, fizemos uma pesquisa de opinião pública, em 1972, para saber que nome daríamos ao novo negócio em parceria com o hoje extinto Diário de Natal. Pedímos às pessoas que sugerissem um nome que, na visão delas, representasse o Nordeste vencedor. Passamos 15 dias pedindo para que a população sugerisse o nome por correio para um determinado endereço, onde as cartas seriam abertas e separadas. No fim do dia, liamos todas. Foi em uma delas que apareceu o nome Nordestão”, conta Manoel.
Sexto filho de 10 irmãos, Manoel Etevilno diz que não é novidade o Nordestão crescer na crise, com a de agora com a pandemia, quando muitas atividades varejistas, mesmo ligadas à alimento, pereceram.


“Como fazendeiro, meu pai comprava a produção das fazendas na época da safra, estocava e vendia na entressafra, próximo da chegada do inverno: milho, feijão, arroz, algodão. Com o tempo, foi comprando outras propriedades dos próprios irmãos e de outras empresas”, resume.
Sem entender muito do varejo, os irmãos foram aprendendo no processo. Mas um fato que se revelaria primordial seria a partilha das cotas entre todos ainda com o patriarca em vida.  


Ou seja, as lojas que iam sendo abertas eram passadas para os irmãos de acordo com as ações de cada um, a partir do falecimento do fundador em 1975.

Com os demais membros da família com interesses diferentes, gerir o Nordestão coube a quatro filhos: Manoel, José, Leôncio e Felix.
Geraldo, como já tinha seu negócio individual, nunca fez parte do empreendimento. Ele e as mulheres do clã, partiram para outras atividades.
“Eu fiquei com uma loja, José Geraldo com duas, Leôncio e Felix com uma cada um. Só dividimos as lojas próprias, não as alugadas com contratos de longo prazo. Embora todos possam livremente investir fora do grupo, preferimos investir dentro”, relata.


Sobre a razão do sucesso, Manoel tem uma filosofia.


As empresas, geralmente, vão à falência a partir de briga por patrimônio e como fizemos essa divisão desde cedo, nunca houve disputa. Dividir o patrimônio em vida foi uma grande sacada. E cada um criou uma holding imobiliária. Os alugueis quem recebe são as quatro holdings. É uma empresa familiar, mas profissionalizada”, resume

NOTÍCIAS RELACIONADAS
Av. Hermes da Fonseca, N° 384 - Petrópolis, Natal/RN - CEP: 59020-000
Redação: (84) 3027-1690
[email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.