O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça viveu uma semana de forte protagonismo político e institucional durante um seminário realizado em Frankfurt, na Alemanha, enquanto tomava decisões centrais no caso envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro.
Relator das investigações que abalam o sistema financeiro e a política desde o fim do ano passado, Mendonça determinou à distância a prisão preventiva de Vorcaro durante o evento “Regulation & Investment”, realizado no prédio principal da Universidade Goethe. A decisão ocorreu enquanto o ministro participava das atividades do encontro acadêmico.

O seminário foi organizado pela iniciativa Diálogos Intercontinentais (Dinter), dirigida pelo professor Ricardo Campos, amigo de Mendonça e colega dele em cursos de pós-graduação na própria universidade. A proposta, segundo os organizadores, era promover troca de conhecimento entre brasileiros e alemães sobre regulação, investimentos e instituições.
Embora a programação reunisse autoridades brasileiras e alemãs, Mendonça acabou se tornando o principal foco do evento, em razão da crise política em curso no Brasil.
A lista de convidados incluía nomes de diferentes correntes políticas e do mercado financeiro, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, ministros do governo federal, parlamentares e executivos de empresas brasileiras e alemãs.
Alguns participantes tinham relação direta com decisões recentes do ministro. Campos Neto, por exemplo, havia sido dispensado por Mendonça de comparecer a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre crime organizado um dia antes de participar do seminário.
Segundo o organizador Ricardo Campos, a programação foi definida antes da eclosão do caso envolvendo o Banco Master e não houve interferência do ministro na agenda do encontro.
Mendonça viajou à Alemanha já ciente de que teria que decidir sobre a prisão de Vorcaro. No sábado (28), deu prazo de 72 horas para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestasse sobre o pedido. Enquanto o prazo corria, participou de um painel sobre a relação entre tribunais constitucionais e parlamentos, ao lado do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Na quarta-feira (4), Mendonça deixou brevemente uma das sessões do seminário e, pouco depois, determinou a prisão do banqueiro e de integrantes de seu grupo. A decisão se baseou em diálogos extraídos do celular de Vorcaro, que indicariam ameaças e intimidações contra jornalistas.
No dia seguinte, o ministro voltou normalmente ao evento, participando de atividades e tirando fotos com convidados. Durante o encontro, recebeu de presente uma camisa do Cruzeiro com seu nome nas costas, entregue pelo deputado Sérgio Santos Rodrigues (Podemos-MG), ex-presidente do clube. Santista, Mendonça brincou com o fato de a camisa não ter patrocínio.
Segundo assessores, o ministro não aceitou benefícios como passagens ou hospedagem para participar do evento.
A presença de Mendonça no seminário também ocorreu em meio a debates sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo autoridades citadas nas investigações do caso Master. Nas redes sociais, o ministro afirmou que 90% do lucro de seu instituto acadêmico, o Iter, será destinado a obras sociais. Os 10% restantes, segundo ele, são destinados ao dízimo, já que Mendonça é pastor da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo.
Em pouco mais de um ano, o instituto firmou contratos públicos que somam cerca de R$ 4,8 milhões, de acordo com informações publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo.