A obesidade pode se tornar um empecilho para quem deseja engravidar, comprometendo os aspectos hormonais e metabólicos do organismo. De acordo com a médica ginecologista e obstetra Adriana Leão, que é especialista em reprodução assistida, o excesso de tecido adiposo leva a alterações importantes no eixo reprodutivo, como aumento da resistência à insulina, desregulação na produção de estrogênios e um estado inflamatório crônico de baixo grau.
“Como consequência, há prejuízo na ovulação, irregularidade dos ciclos menstruais e piora da qualidade ovocitária. Além disso, a obesidade também interfere na receptividade endometrial, afetando o ambiente uterino e reduzindo as chances de implantação embrionária”, pontua a médica, em entrevista ao O Correio de Hoje.

Já a nutróloga Socorro Morais explica que o excesso de peso pode reduzir a fertilidade dos dois gêneros. Nos homens, a obesidade pode piorar a qualidade do esperma, com redução na contagem de espermatozoides, motilidade e maior dano ao DNA, aumentando o risco de fetos malformados.
“Além de prejudicar a autoimagem corporal, o excesso de gordura abdominal e visceral afeta o desempenho sexual e a fertilidade, e também está ligado à piora na saúde cardiovascular e metabólica do casal”, diz a nutróloga.
De acordo com Adriana Leão, um índice de massa corporal (IMC) acima de 30 kg/m² já impacta na saúde reprodutiva. Quanto maior o grau de obesidade, maiores são as alterações hormonais e metabólicas.
O excesso de peso afeta diversos eixos hormonais em conjunto. Nas mulheres, a gordura visceral favorece a resistência à insulina e a hiperinsulinemia, o que aumenta os andrógenos (hormônios que atrapalham a ovulação), reduz a proteína ligadora dos hormônios sexuais (SHBG) e desorganiza a ovulação. Já nos homens causa à queda da testosterona e reduz hormônios que estimulam a formação de espermatozoides.
“O estado inflamatório e o estresse oxidativo podem comprometer a qualidade dos espermatozoides, reduzindo concentração, motilidade e morfologia, o que impacta diretamente o potencial reprodutivo”, explica Adriana.
Socorro Morais explica que a obesidade pode não só dificultar a concepção, como causar de fato a infertilidade. De acordo com ela, em algumas mulheres a doença pode causar anovulação, que é a ausência de ovulação, em que o óvulo não é liberado pelo ovário, resultando em ciclos menstruais sem capacidade fértil.
“É importante dizer que nem toda pessoa com obesidade será infértil, mas o risco de subfertilidade e infertilidade aumenta, tanto para gravidez espontânea quanto para tratamentos de reprodução assistida”, pondera a nutróloga.
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é um dos principais problemas enfrentados por mulheres com obesidade. A especialista em reprodução detalha que o aumento da resistência à insulina intensifica a produção de androgênios pelos ovários, o que piora a disfunção ovulatória, levando a ciclos irregulares e maior dificuldade para engravidar.
Diante do quadro, a perda de peso aparece como principal aliado para quem quer recuperar a fertilidade. “Mesmo uma redução de 5% a 10% do peso corporal já pode ser suficiente para regularizar ciclos menstruais e favorecer a ovulação. O tempo para esses benefícios varia, mas muitas pacientes apresentam melhora em poucos meses após a mudança de estilo de vida”, diz Adriana.
A cirurgia bariátrica é uma das opções para mulheres com obesidade grave que encontram dificuldade de concepção. O procedimento pode melhorar significativamente o perfil metabólico e hormonal, aumentando as chances de gravidez e reduzindo riscos obstétricos. Porém, é necessário esperar 12 a 18 meses após a cirurgia para começar a tentar engravidar.
A nutróloga Socorro Morais destaca que há padrões alimentares que prejudicam a fertilidade, favorecendo o ganho de peso, resistência à insulina e inflamação. Entre os alimentos que podem diminuir as chances de engravidar estão: ultraprocessados, açúcares em geral, bebidas açucaradas, doces e frituras.
“Além da alimentação, tabagismo e álcool em excesso também atrapalham a fertilidade e devem entrar nesta recomendação ao casal que deseja ter filhos”, pontua.
A médica Adriana Leão defende mudanças consistentes no estilo de vida, além de um plano alimentar equilibrado, é necessário inserir a prática de atividade física na rotina, melhorar a qualidade do sono e reduzir o estresse.
Socorro explica que não há dieta milagrosa para melhorar as chances de concepção, porém, existe um padrão alimentar que favorece a saúde reprodutiva. Comer mais vegetais, frutas, leguminosas, grãos integrais, proteínas de boa qualidade, gorduras saudáveis e menos produtos ultraprocessados são essenciais para quem quer aumentar as chances de engravidar.
“Fertilidade não depende só dos ovários ou dos espermatozoides; ela também reflete a saúde metabólica do corpo inteiro. Cuidar do peso, da alimentação e do estilo de vida é uma forma concreta de cuidar da capacidade reprodutiva”, conclui a nutróloga.