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Pesquisa

Liga contra o Câncer lidera no Brasil a inclusão de pacientes no projeto Onco-Genomas

Foram 98 pacientes com câncer de mama entre 2024 e 2026, o equivalente a 19,5% do total nacional e a 75% de tudo o que o Nordeste recrutou
Agora RN
30/09/2026 | 17:52

Está em construção um banco de dados que pretende mostrar como os tumores se comportam geneticamente entre os brasileiros. A maior fatia dele, por enquanto, vem do Rio Grande do Norte. Entre as 23 instituições que participam do Onco-Genomas Brasil, quem mais incluiu pacientes na pesquisa foi a Liga Norte Riograndense Contra o Câncer. O estudo quer reunir o conhecimento de que a medicina de precisão precisa para avançar dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

Os números explicam a liderança. De 2024 a 2026, a Liga colocou no estudo 98 pacientes com câncer de mama, o tipo de tumor escolhido para essa etapa do recrutamento. É 19,5% de tudo o que foi recrutado no país e 75% do que o Nordeste inteiro reuniu.

Profissionais de jaleco branco trabalham em computadores na sala do Centro de Pesquisa Clínica da Liga contra o Câncer, vistos através de um vidro com a inscrição Investigadores Clínicos
Equipe do Centro de Pesquisa Clínica da Liga, que completa 20 anos de funcionamento no Centro Avançado de Oncologia — Bia Azevedo/O Correio de Hoje

Quem coordena o Onco-Genomas é o Hospital Moinhos de Vento, que juntou no projeto centros ligados a instituições de combate ao câncer em várias regiões. A iniciativa corre dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS), mantido pelo Ministério da Saúde.

O objetivo é levantar o perfil genético dos tumores e gerar dados que sustentem a medicina de precisão. Nesse modelo de atendimento, as características biológicas e genéticas do paciente e da própria doença ajudam a escolher o tratamento e os medicamentos direcionados.

O médico Edilmar Moura, que dirige o Instituto de Ensino, Pesquisa e Inovação da Liga (IEPI), enxerga aí uma lacuna sendo fechada. “Estudos como o Onco-Genomas produzem conhecimento sobre a população brasileira, que historicamente é sub-representada nas grandes bases genéticas internacionais, construídas majoritariamente com populações europeias e norte-americanas”, afirma. Para o diretor, a participação potiguar tem efeito direto sobre esse desequilíbrio. “A presença expressiva da Liga garante que o Nordeste e o Rio Grande do Norte, em particular, estejam representados nesses dados”, explica.

O que sair do projeto pode servir de evidência para que gestores discutam se os testes genéticos devem passar a ser oferecidos pela rede pública, em quais situações e para quais pacientes, levando em conta como é a população brasileira. Serve também para deixar equipes e centros de saúde preparados para novos trabalhos ligados à medicina de precisão.

E o alcance do mapeamento não para em quem já recebeu o diagnóstico. Certas alterações genéticas encontradas nos pacientes podem indicar a necessidade de avaliar familiares, orientando rastreamento, redução de risco e diagnóstico precoce.

No estado, os participantes com câncer de mama vieram do próprio fluxo diário de atendimento da instituição. Moura credita o primeiro lugar entre os 23 centros a três fatores: o volume de pacientes que passam pela instituição, a organização da pesquisa clínica e o envolvimento das equipes.

A posição no Onco-Genomas não surgiu do nada. Em 2025, o Centro de Pesquisa Clínica da Liga ficou em sexto lugar entre os centros escolhidos para ensaios clínicos no Brasil. Quem reuniu esse número foi a Anvisa — Agência Nacional de Vigilância Sanitária —, por meio da sua Coordenação de Pesquisa Clínica. A informação saiu em maio deste ano, na nona edição do relatório anual da área.

Nenhuma outra instituição do Nordeste apareceu naquela lista. Ao lado da Liga figuraram o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), o Hospital Israelita Albert Einstein e o próprio Moinhos de Vento.

Instalado no Centro Avançado de Oncologia (Cecan), esse centro de pesquisa chega agora aos 20 anos de funcionamento. Atua em áreas terapêuticas diferentes, com peso maior em três delas: oncologia clínica, radioterapia e hematologia, e já participou de mais de 500 estudos ao longo do período.

O Onco-Genomas acrescenta outra camada a esse histórico. Ao responder por quase um quinto dos participantes do estudo nacional, a Liga amplia a presença de pacientes nordestinos nas bases que vão orientar como a genética dos tumores entra no tratamento do câncer oferecido pela rede pública.