Pesquisas em neurociência vêm ampliando o conhecimento sobre o funcionamento do cérebro humano e os mecanismos responsáveis por diferentes funções cognitivas. Entre as descobertas mais importantes da área está a identificação do sistema que permite ao cérebro reconhecer e mapear o espaço ao redor, trabalho que rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2014 ao pesquisador norueguês Edvard Moser.
A pesquisa foi desenvolvida em conjunto com a neurocientista May-Britt Moser e outros integrantes da equipe. Os cientistas identificaram as chamadas células de grade (grid cells), neurônios que atuam como um sistema interno de localização, permitindo que o cérebro construa mapas mentais e oriente a movimentação em diferentes ambientes.

A descoberta ajudou a explicar como seres humanos e outros mamíferos conseguem identificar sua posição no espaço, reconhecer trajetos e encontrar caminhos, razão pela qual o mecanismo ficou conhecido como o “GPS do cérebro”.
No próximo mês, Edvard Moser estará no Brasil para participar do Rio Innovation Week, evento voltado à inovação e tecnologia que será realizado entre os dias 4 e 7 de agosto, no Rio de Janeiro.
Navegação interna e cérebro
Por que escolheu estudar a nossa navegação interna?
Porque a navegação é um dos aspectos mais fáceis de se estudar, e a razão é que é possível estudar a navegação em ratos e camundongos, e eles são ótimos nisso. Outro detalhe é que eles fazem isso praticamente da mesma maneira que os seres humanos. Isso porque a navegação é tão fundamental que surgiu muito cedo na evolução; sem habilidades de navegação, não seria possível sobreviver.
As pessoas confiam mais em seus telefones do que em seu próprio cérebro para se orientar nos espaços. Isso pode ser prejudicial?
Sim e não. O nosso “GPS interno” é tão fundamental que ainda o usamos, especialmente nos movendo na nossa casa ou no nosso bairro. Nós ainda precisamos mapear caminhos em relação aos outros e ao nosso destino.
Mas, como tudo, você fica melhor no uso de algo quando treina diversas vezes. Se você apenas usa GPS ou Google Maps para tudo, então você só está se baseando em instruções de terceiros sobre onde andar, onde virar. Com isso, você perde um pouco dessa “especialização”, de conseguir ter um bom senso de direção e espaço sozinho, do qual seu cérebro é capaz sem a ajuda de ferramentas digitais.
Quando caminhamos lado a lado com alguém em quem confiamos, ou que conhece muito bem aquele lugar, às vezes não nos lembramos com clareza por onde passamos. O “GPS cerebral” também está ligado a algum tipo de resposta emocional?
Atenção é uma parte importante da navegação. Como você disse, quando andamos com outra pessoa e não prestamos atenção ao nosso redor, se pedirem para andarmos voltando de onde saímos nós podemos ficar perdidos.
Então, isso ilustra que você pode ligar e desligar o seu sistema de navegação até certo ponto. Encontrar o próprio caminho também depende de como você relaciona o seu “mapa de navegação” interno aos objetos, casas e locais. Você precisa estar, de certa forma, prestando atenção ao que vê.
Quando dormimos, o “GPS cerebral” continua ligado?
Sim, ao que parece ele continua ligado. Agora nós conseguimos gravar a atividade de milhares de células e reconstruir quais partes do cérebro estão conectadas a esse “mapa de navegação interno”.
Eu e minha equipe observamos que existe atividade especialmente no sono REM, aquele em que sonhamos. Essa atividade pode indicar que o “GPS cerebral” está ligado, especialmente nesse estágio. No sono REM, chega a ser uma atividade similar à do período no qual estamos acordados. No sono profundo, por outro lado, é um pouco mais disruptivo. Ele se liga e desliga.
Tecnologia e inteligência artificial
Recentemente, um estudo publicado na revista científica Nature mostrou um paciente com ELA vivendo com um implante cerebral. Veremos ainda mais opções de tecnologias de superfície cerebral para pessoas com doenças crônicas?
Interfaces do cérebro-máquina estão vindo com tudo. Elas estão mais relacionadas a funções sensoriais e motoras, como visão artificial, audição artificial e braços artificiais.
Quando se trata das partes mais profundas do cérebro relacionadas à memória, cognição ou navegação, torna-se muito mais desafiador. Não existe um implante que você possa inserir no cérebro e “tomar controle” do sistema de navegação, por exemplo. E talvez isso seja uma boa notícia.
A inteligência artificial (IA) está ganhando cada vez mais espaço na sociedade. Quais são os ganhos e quais as perdas ao usar a IA?
Acho que, assim como muitas outras novas tecnologias, é uma vantagem quando você pode usá-la de forma interativa, como uma ajuda para encontrar informações e também para estruturar o raciocínio.
Antes você tinha que ir a uma biblioteca, sabia quais livros consultar e precisava lê-los, e isso levava uma eternidade para juntar todas as peças. Agora você pode deixar a IA reunir tudo isso para você.
Mas, ainda acho que, embora seja possível realizar tarefas bastante complexas e fazer com que a inteligência artificial realize coisas complexas de forma rápida, o pensamento humano ainda se beneficia do fato de termos décadas de experiência, durante as quais registramos cada segundo de nossa vida, armazenamos essas informações em nossos cérebros e as contextualizamos.
Essa experiência ainda é difícil de substituir. Quando usadas juntas, inteligência artificial e capacidade humana podem representar um ganho. A perda está nisso ser feito sem controle ou ética. É uma preocupação que todos nós precisamos levar a sério e que vai muito além da ciência.
Precisamos garantir que a IA seja utilizada de forma controlada, de modo a beneficiar a sociedade, e não seja usada contra ela ou apenas em benefício de determinados grupos.
Redes sociais e saúde do cérebro
Nas redes sociais, as pessoas passam horas rolando a tela para ver vídeos e fotos. Como lidar com as redes sociais de maneira saudável para o nosso cérebro? Existe uma maneira?
Ficar apenas rolando a tela por horas, o famoso “scrolling”, não é saudável. Precisamos levar em conta que as redes podem nos aproximar de pessoas queridas, mas também é essencial garantir que continuemos interagindo diretamente com as pessoas, que nos movimentemos e que não fiquemos sentados o tempo todo.
Também acho muito importante dar ênfase à formação científica da população em geral, para que as pessoas saibam como o conhecimento é produzido e em que se pode confiar.
Agora, com a IA, é possível criar até mesmo vídeos totalmente falsos, e as pessoas precisam ser mais críticas e não simplesmente aceitar tudo como verdade. Além disso, é muito importante que os cientistas falem sobre ciência sempre que puderem, e isso inclui também as redes sociais.
Mitos sobre o cérebro
No tema das informações falsas, como neurocientista, qual é o mito sobre o cérebro que mais te irrita?
Tem um ditado popular que diz que a gente usa só 10% do nosso cérebro. Isso é completamente errado, porque o cérebro inteiro está ativo o tempo todo.
Ele tem uma capacidade de uso enorme e sempre terá espaço para mais informações. Por alguma razão, essa ideia falsa dos 10% se consolidou e é citada por outras pessoas, que, por sua vez, a citam novamente.
Em um mundo que nos distrai o tempo todo, como fazemos para guardar informações?
O primeiro passo, o básico, é que para reter uma informação você precisa entendê-la. É assim que o cérebro funciona.