Um novo remédio oral para câncer de mama avançado ou metastático foi liberado para venda no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na segunda-feira 21 o registro do Etcamah, tratamento voltado a um grupo específico de tumores: aqueles que dependem do estrogênio para crescer.
O registro da Anvisa é a autorização para vender o produto no país; não define, sozinho, se e quando ele chega à rede pública. De nome científico camizestranto — Etcamah é a marca com que chega às farmácias —, o medicamento pertence a uma geração de terapias classificadas como degradadoras seletivas do receptor de estrogênio. Em vez de agir de forma ampla sobre a doença, o remédio mira uma característica presente nas células do tumor.

Como o remédio age
Em certos tipos de câncer de mama, o estrogênio funciona como combustível. O Etcamah trava o receptor desse hormônio e ainda provoca a degradação dele, o que derruba a capacidade do estrogênio de estimular o crescimento das células doentes.
A indicação, porém, não vale para todos os casos. O alvo são os tumores que reúnem três características: receptor de estrogênio positivo (ER+), HER2 negativo e mutação no gene ESR1. A autorização da Anvisa alcança as pacientes que ficam dentro desses critérios.
Essa mutação costuma aparecer ao longo do tratamento com terapia hormonal e está ligada ao desenvolvimento de resistência aos medicamentos endócrinos. Identificar a alteração molecular ajuda, por isso, a definir quem pode se beneficiar de uma troca de tratamento.
A chegada de remédios direcionados a alterações específicas também reforça o peso dos exames moleculares na escolha da terapia. No caso do Etcamah, conhecer o perfil do tumor é o que diz se a paciente tem as características para as quais ele foi criado.
Por ser de uso oral, o tratamento é tomado pela própria paciente, sem depender de infusão em ambiente hospitalar.
Uma doença com vários perfis
Não existe um só câncer de mama. Os tumores podem ter biologia distinta, e essa diferença influencia tanto o comportamento da doença quanto a escolha do que usar contra ela.
Números do Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimam 73.610 casos por ano no Brasil no período entre 2023 e 2025. A doença responde por cerca de 30,1% dos diagnósticos de câncer entre as mulheres. Ainda que seja muito mais frequente na população feminina, homens também adoecem e representam perto de 1% dos casos.
Sinais que pedem investigação
Os sintomas variam. O nódulo na mama é a manifestação mais conhecida, mas alteração na pele e secreção pelo mamilo também indicam necessidade de investigar.
Entre os sinais de atenção estão o nódulo em mulheres com mais de 50 anos e o caroço que persiste por mais de um ciclo menstrual em mulheres acima dos 30. Nódulo endurecido, fixo ou que aumenta de tamanho deve ser avaliado em qualquer idade adulta.
A lista de alertas é mais longa do que o nódulo. Inclui secreção com sangue em um único mamilo, mudança no formato do mamilo ou retração dele, retrações na pele e lesão parecida com eczema que não melhora com tratamento aplicado na pele. Íngua ou caroço nas axilas e aumento progressivo da mama, com inchaço e pele em aspecto de casca de laranja, também entram entre os sinais.
Nos homens, o caroço palpável em apenas uma das mamas, sobretudo depois dos 50 anos, precisa ser avaliado. Nenhum desses sinais fecha diagnóstico sozinho: todos indicam que é hora de procurar avaliação.
A investigação começa pela avaliação clínica e pode envolver exames variados, incluindo a biópsia, exame que define as características do tumor. Feito o diagnóstico, a escolha do que usar leva em conta o tipo de câncer, o estágio em que ele está, o perfil molecular e as condições de cada paciente.
É nessa divisão cada vez mais fina dos tumores que entram medicamentos como o Etcamah. A aprovação acrescenta uma opção por via oral para pacientes com doença avançada ou metastática que tenham o perfil molecular definido para o tratamento.