As ocorrências com abelhas no Rio Grande do Norte somaram 3.268 chamados ao Corpo de Bombeiros Militar entre janeiro e agosto de 2026. O volume equivale a uma média superior a 400 chamados por mês, ou cerca de 13 por dia, e mostra que o encontro com um enxame é rotina no Estado, não exceção. O assunto voltou ao noticiário depois que um enxame cercou uma menina de 13 anos em Ibirité, cidade da Grande Belo Horizonte, e deixou no ar a pergunta que pode decidir o desfecho de uma emergência assim: como escapar sem tornar o ataque pior?
O episódio mineiro ganhou repercussão nacional por causa das imagens. A câmera presa ao capacete de um motociclista gravou parte do socorro à adolescente Safira, que levou mais de 100 ferroadas e precisou ficar internada.

Depois do caso, o sargento Granjeiro, do Corpo de Bombeiros Militar, detalhou o passo a passo de quem se vê no meio de um enxame. Ele respondeu, ponto a ponto, às dúvidas mais comuns sobre a hora da fuga, o socorro a outra vítima e o momento de procurar um hospital. A primeira medida é deixar o lugar depressa, cobrir sobretudo rosto, cabeça e pescoço e procurar um ambiente fechado.
Boa parte das reações que parecem intuitivas está na lista do que não fazer. Golpear os insetos, molhar-se, acender fogo ou soltar fumaça e mergulhar em piscina ou rio são saídas que costumam agravar a situação. Quem vê alguém sob ataque também precisa medir o risco antes de se aproximar, para o socorro não produzir uma segunda vítima.
O que fazer ao perceber o ataque
A atitude inicial é se afastar rápido e buscar abrigo seguro, de preferência um ambiente fechado — uma casa, um comércio ou um carro servem. Enquanto corre, a pessoa deve cobrir principalmente rosto, cabeça e pescoço, usando as mãos ou qualquer tecido que esteja por perto.
Enfrentar ou tentar espantar os insetos é o caminho oposto ao recomendado. Movimento brusco, grito e manotaço aumentam a reação defensiva do enxame, que interpreta cada gesto como ameaça e responde em bloco.
Os erros mais comuns
O erro que mais aparece é ficar parado depois da primeira ferroada. Em seguida vêm as tentativas de golpear os insetos e de sacudir peças de roupa ou objetos na direção deles. Molhar-se também não ajuda, assim como recorrer a fumaça, fogo, produto químico ou qualquer método improvisado de dispersão.
Outro erro é parar para ajudar alguém sem antes garantir a própria segurança: quem se aproxima de uma pessoa cercada por abelhas pode virar a segunda vítima. Os insetos liberam sinais químicos que convocam o restante da colônia para o mesmo alvo, e o que começou localizado vira em segundos um ataque coletivo.
O que proteger no corpo
Rosto, cabeça, olhos e pescoço pedem atenção especial. Dá para usar as mãos, uma camisa ou outro tecido para cobrir essas regiões, sem parar de se afastar. A prioridade tem explicação clínica: ferroadas na boca, na garganta e no pescoço podem provocar inchaço e comprometer a passagem de ar.
Como socorrer sem virar vítima
A principal orientação é, se der, mandar a vítima correr para um local fechado e, se possível, ir ao encontro dela num veículo fechado, que serve de refúgio e evita novas ferroadas. Quem socorre dificilmente sai ileso — por isso precisa saber de antemão se tem alergia extrema ao veneno, para não trocar uma vítima por duas.
O socorrista profissional segue outra ordem: primeiro se protege com equipamento adequado e aciona o serviço de emergência, sobretudo quando há muitos insetos no local. Só depois de a área estar segura é que presta assistência. Em caso de ferroadas múltiplas, a vítima tem de ser levada rapidamente para atendimento médico.
Água não resolve
Entrar em piscina, rio ou qualquer ponto com água não é a primeira opção. A imersão parece uma fuga, mas o enxame fica sobrevoando a superfície e retoma o ataque assim que a pessoa sobe para respirar ou deixa a água. O caminho mais seguro continua sendo o abrigo fechado — casa, prédio ou carro — com portas e janelas trancadas.
Quando procurar médico
Ferroadas em grande número exigem avaliação médica mesmo quando não aparece sintoma grave de imediato. Entram na lista de alerta a dificuldade para respirar, a sensação de garganta fechando, o inchaço no rosto, na boca ou no pescoço, tontura, desmaio, queda de pressão, náusea, vômito e qualquer alteração importante no estado geral. Esses sinais podem apontar reação alérgica grave, caso da anafilaxia.
Não há um número de picadas que, sozinho, defina a gravidade para todo mundo, porque a reação depende do organismo de cada pessoa. Segundo a orientação do Corpo de Bombeiros, basta uma ferroada para desencadear anafilaxia em quem é alérgico, enquanto um volume alto provoca intoxicação pelo veneno mesmo em quem nunca teve reação. Informações técnicas do Ministério da Saúde apontam que algumas dezenas de ferroadas já podem levar crianças a quadros graves, e que a marca de 100 picadas representa dose tóxica para adultos. Quando o ataque chega à casa das centenas, o atendimento médico passa a ser prioridade.
Colmeia perto de casa
Quem encontra uma colmeia em árvore, poste, telhado ou junto de uma residência deve manter distância, evitar qualquer provocação ao enxame, tirar crianças e bichos de estimação das proximidades e não tentar remoção nenhuma por conta própria.
Quando o enxame ou a colmeia oferece risco à população — perto de casas, escolas, vias públicas ou áreas de muita circulação —, o Corpo de Bombeiros pode ser chamado pelo 193 para avaliar o caso e fazer o manejo. A corporação acumula registros recentes de atendimentos com enxames instalados em árvores, postes, estruturas de imóveis e outros pontos de circulação. A avaliação do risco cabe à equipe: nem toda colmeia precisa ser removida, mas a proximidade de gente muda o cálculo.
Retirar, capturar, queimar ou espantar o enxame sozinho está fora de cogitação. Jogar água e recorrer a inseticida, fumaça ou fogo também não são alternativas, nem atirar pedras ou objetos contra a colmeia. Equipamento barulhento — roçadeira e ferramenta de jardinagem, por exemplo — deve ficar longe de lugares onde possa haver colônia, porque a vibração e o ruído funcionam como gatilho. Além de proteger gente, essa contenção preserva as abelhas, peça importante da polinização e do equilíbrio ambiental.
Os chamados são frequentes no Estado e oscilam ao longo do ano conforme o clima e o comportamento das colônias. A orientação é redobrar a atenção nos períodos de maior atividade e, diante de um enxame em lugar de risco, não se aproximar nem improvisar a retirada: o caminho é o 193.
Resumo das orientações
O que fazer:
- Afastar-se depressa do local e procurar um ambiente fechado, como casa, comércio ou veículo, com portas e janelas trancadas.
- Cobrir rosto, cabeça, olhos e pescoço com as mãos, uma camisa ou outro tecido, sem interromper a fuga.
- Acionar o Corpo de Bombeiros pelo 193 diante de enxame ou colmeia em local de risco.
- Buscar atendimento médico depois de ferroadas múltiplas, mesmo sem sintoma grave no primeiro momento.
O que não fazer:
- Ficar parado depois da primeira ferroada ou tentar golpear os insetos.
- Sacudir roupas e objetos na direção do enxame.
- Jogar água, soltar fumaça, acender fogo ou usar produto químico e inseticida.
- Entrar em piscina ou rio para se esconder.
- Aproximar-se de uma vítima cercada sem antes garantir a própria segurança.
- Tentar retirar, capturar ou queimar uma colmeia por conta própria.
- Ligar roçadeira e ferramenta de jardinagem perto de onde possa haver colônia.
Quando chamar o 193
O acionamento do Corpo de Bombeiros pelo 193 é gratuito e funciona a qualquer hora do dia. Vale tanto para o enxame ou a colmeia instalada em ponto de risco — árvore de rua, poste, telhado, estrutura de imóvel ou área de grande circulação — quanto para o socorro a quem já está sendo atacado. Entre janeiro e agosto, foram 3.268 registros desse tipo no Estado.
O ataque em Ibirité
A adolescente levava a irmã mais nova para a escola quando uma colmeia alojada no alto de uma árvore despencou num terreno ao lado da calçada, segundo relatos de testemunhas. Em seguida o enxame avançou, e Safira ficou cercada pelos insetos no meio da rua.
Vinícius, o motociclista, ia para o trabalho quando notou a movimentação e encontrou a menina imóvel em meio às abelhas. Parou para socorrê-la, e a câmera do capacete registrou parte da ação. Pelo relato do motociclista, os insetos já entravam pela boca, pelos ouvidos e pelo nariz da menina. Ele próprio saiu do socorro com cerca de 40 ferroadas.
Funcionárias de um projeto social da mesma rua abriram o portão para receber a adolescente e usaram mangueiras na tentativa de tirar os insetos do corpo dela. O banho durou cerca de três minutos, enquanto o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não chegava. Uma das voluntárias contou que se assustou ao ver quantos insetos estavam nas vias aéreas e nos ouvidos da adolescente.
A menina foi atendida primeiro numa unidade de saúde e depois encaminhada ao Hospital Municipal de Contagem, onde ficou em acompanhamento por causa do número de ferroadas. Quatro dias após o ataque, ela informou que os sintomas tinham diminuído. Casos com crianças e picadas múltiplas pedem vigilância pelo risco de intoxicação e de complicações respiratórias.
Na recuperação, a adolescente agradeceu ao motociclista pelo socorro e contou que, durante o ataque, chegou a achar que ninguém conseguiria ajudá-la. Pai de duas meninas, Vinícius contou que lembrou das próprias filhas diante daquela cena e resolveu parar quando viu a adolescente pedindo socorro.