Apenas 873 candidatos concentraram metade dos recursos do fundo eleitoral distribuídos até domingo 27, segundo levantamento com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O grupo representa 4,56% dos 19.125 concorrentes com receitas registradas e recebeu R$ 2,41 bilhões.
O fundo soma R$ 4,95 bilhões em 2026, dos quais R$ 4,82 bilhões já haviam sido repassados. As prestações de contas mostram que as legendas priorizaram candidaturas à Presidência, aos governos estaduais e de parlamentares que já ocupam cadeiras no Congresso.

O tamanho das bancadas na Câmara dos Deputados determina quanto cada partido recebe. A divisão entre os candidatos, porém, é definida pelas próprias siglas, respeitados os percentuais mínimos destinados a mulheres e pessoas negras.
Lula (PT), candidato à reeleição, lidera os recebimentos, com R$ 55 milhões, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), com R$ 47 milhões. Na sequência estão Fernando Haddad (PT), que disputa o Governo de São Paulo, com R$ 19 milhões, e Douglas Ruas (PL), candidato ao Governo do Rio de Janeiro, com R$ 18,3 milhões.
Entre os concorrentes ao Senado, Simone Tebet (PSB-SP) recebeu o maior valor, R$ 6,6 milhões. André do Prado (PL-SP) e Geraldo Rufino (Podemos-SP) aparecem depois, com R$ 6 milhões cada.
Na disputa pela Câmara, Rosana Valle (PL-SP), Pedro Aihara (PP-MG) e Socorro Neri (PP-AC) dividem a primeira posição, com R$ 3,176 milhões por candidatura. Os três buscam a reeleição.
Para a diretora executiva da Transparência Brasil, Juliana Sakai, o controle partidário sobre os repasses dificulta a entrada de novos nomes. “Essa é uma decisão que cabe ao partido e às direções desse partido. Esse acaba sendo hoje o grande gargalo da entrada de candidatos na política porque, para ter acesso ao dinheiro público, você precisa ter o apoio do dono do partido”, afirma.
Um estudo da organização também identificou desigualdade racial na distribuição. Candidatos brancos receberam 60,4% dos recursos públicos, percentual 10,2 pontos acima de sua participação no total de candidaturas.
“Quando vemos essa concentração, vemos quem de fato tem mais chance de ter uma candidatura viável e se eleger. É muito difícil que ocorra renovação se não houver mudanças na forma como esses recursos são aportados”, diz Sakai.
A Transparência Brasil atribui parte da desigualdade à permanência prolongada de dirigentes no comando das legendas. Alguns ocupam a presidência há décadas por meio de diretórios provisórios que acabam funcionando como estruturas permanentes. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) limitou a quatro anos a duração desses diretórios, mas a decisão ainda precisa ser implementada pelos partidos.
“Os partidos são agremiações que recebem recursos públicos e que deveriam ter formas de eleger essas pessoas, mas as direções são provisórias desde sempre”, afirma a especialista.