O ex-assessor parlamentar Laércio Cardoso de Lima acusa o gabinete da vereadora de Natal e candidata a deputada federal Thabatta Pimenta (PV) de exigir a devolução de parte de seu salário. Em entrevista a Brenda Martins, ele afirma que recebia pela Câmara Municipal, mas desempenhava atividades particulares na residência da parlamentar, incluindo tarefas domésticas e cuidados com o irmão dela, Ryan.
Segundo Laércio, a proposta para morar na casa veio acompanhada de uma condição: sua remuneração passaria de R$ 2,4 mil para R$ 3,8 mil, dos quais R$ 800 deveriam ser entregues à pessoa que identifica como chefe de gabinete. O ex-assessor afirma que a orientação era fazer o pagamento em espécie para evitar registros.

A acusação descreve uma suposta prática de retenção salarial conhecida como rachadinha. Documentos oficiais confirmam a passagem de Laércio pelo gabinete, mas não comprovam as devoluções de dinheiro. Até esta etapa da apuração, não foram obtidos comprovantes dos repasses, mensagens de cobrança ou testemunhos independentes que confirmem esse ponto da entrevista.
Em manifestação pública, sem mencionar Laércio nominalmente, Thabatta afirmou que tentam lhe “imputar coisas absurdas”, relacionou os ataques à disputa eleitoral e disse que deixa essas questões a cargo da Justiça. No trecho analisado, não apresentou esclarecimentos específicos sobre as alegações de devolução salarial e trabalho particular.
A cobrança relatada pelo ex-assessor
Laércio afirma que foi morar na residência a convite da vereadora e da chefia do gabinete, porque Thabatta precisava de ajuda. Segundo ele, a alteração da remuneração foi apresentada nesse contexto, junto com a exigência de entregar R$ 800.
O relato envolve questões que ainda precisam ser esclarecidas: quando a cobrança começou, quantas entregas teriam ocorrido, quem recebeu cada pagamento e quais elementos podem confirmar a movimentação do dinheiro.
A nomeação do denunciante está registrada no Diário Oficial. A Portaria nº 007/2025-MD, publicada em 3 de janeiro de 2025, o colocou no cargo de Assessor Parlamentar 5 no gabinete de Thabatta. Diário Oficial de Natal.
Atos posteriores mostram mudanças de cargo durante sua permanência na equipe. Esses registros documentam sua trajetória funcional, mas não demonstram os valores líquidos citados por ele nem a alegada condição para recebê-los.
A saída foi formalizada pela Portaria nº 0184/2026-MD, de 22 de abril, publicada no dia seguinte. O documento não informa as razões da exoneração. Diário Oficial de 23 de abril de 2026.
Da Câmara para a residência
Laércio afirma que, embora contratado como assessor parlamentar, assumiu uma rotina de atividades dentro da casa da vereadora. Segundo ele, preparava refeições e prestava cuidados cotidianos a Ryan.
A questão de interesse público é a possível utilização de um servidor remunerado pelo Legislativo em tarefas particulares. Ainda não foram obtidos registros de horários, ordens de serviço ou informações sobre eventual contratação particular distinta da nomeação parlamentar.
A documentação funcional, portanto, confirma que Laércio ocupava um cargo no gabinete, mas não permite estabelecer como sua jornada era distribuída ou quais atividades efetivamente executava.
Na manifestação pública, Thabatta defendeu sua relação com o irmão e sua experiência de maternidade atípica. Disse que Ryan é sua vida e associou sua atuação política à defesa das famílias atípicas.
“Deixem a minha maternidade atípica em paz”, declarou.
A existência de uma rede de apoio não demonstra irregularidade ou falta de cuidado familiar. A acusação administrativa feita pelo ex-assessor diz respeito à origem dos recursos que remuneravam o trabalho que ele afirma ter desempenhado.
Salários para comprar móveis
Outro ponto da entrevista envolve a montagem do gabinete. Laércio afirma que integrantes da equipe tiveram de entregar o primeiro salário para comprar móveis. Segundo ele, parte da estrutura era destinada à preparação pessoal da vereadora.
O ex-assessor também relata que servidores participavam desses cuidados enquanto pessoas aguardavam atendimento.
Não foram obtidos notas fiscais, comprovantes das contribuições ou registros patrimoniais que esclareçam essas compras. Também falta estabelecer quais integrantes da equipe teriam entregado dinheiro, os valores e se os pagamentos foram impostos.
A afirmação sobre o uso dos salários permanece, assim, sustentada pelo relato de Laércio, sem confirmação documental independente.
Viagens e estrutura pública
Laércio acusa ainda Thabatta de utilizar carro e combustível da Câmara em deslocamentos de campanha pelo Rio Grande do Norte. Afirma que assessores acompanhavam as viagens e precisavam pagar a própria alimentação.
A apuração não reuniu identificação do veículo, autorizações de deslocamento, registros de abastecimento e agendas suficientes para confrontar a versão apresentada.
A finalidade dos compromissos é um ponto necessário dessa verificação. A legislação municipal prevê atividades políticas externas de natureza não eleitoral entre as atribuições da assessoria parlamentar. A atuação fora do gabinete, por si só, não demonstra uso irregular de recursos. Lei municipal nº 7.803/2024.
Documentos e alcance das acusações
A entrevista também contém afirmações sobre episódios externos ao funcionamento do gabinete. Um deles é o caso de discriminação no Shopping Via Direta. Laércio sustenta que outra mulher trans teria sido a vítima e que Thabatta recebeu R$ 10 mil sem dividir o dinheiro.
O processo nº 0802477-51.2023.8.20.5004 registra, porém, o reconhecimento de que a própria Thabatta foi impedida de utilizar o banheiro feminino. Em sentença de 5 de abril de 2024, o 6º Juizado Especial Cível de Natal fixou indenização de R$ 5 mil, acrescida de atualização e juros. Sentença do TJRN.
Em setembro de 2025, a Justiça reconheceu a quitação da dívida e determinou alvarás de R$ 4.585,02 para Thabatta e R$ 1.965 para seu advogado, referentes a honorários contratuais. Os documentos consultados não sustentam a afirmação de que a indenização pertencesse a outra pessoa. Também não foi obtida prova de eventual compromisso particular de divisão. Decisão de encerramento da execução.
Os questionamentos feitos na entrevista sobre a atuação em favor das famílias atípicas também precisam ser considerados à luz dos registros legislativos. Uma proposta de Thabatta resultou na Lei Promulgada nº 844, de 16 de dezembro de 2025, referente ao programa “Cuidando de Quem Cuida”. Sua existência está documentada; a implementação e os resultados exigem verificação específica. Registro oficial da Câmara.
Thabatta atribui ataques à eleição
No vídeo de campanha, Thabatta afirmou que os ataques aumentaram depois de aparecer em segundo lugar em uma pesquisa para deputada federal. O levantamento não foi identificado no trecho transcrito.
A candidata também mencionou pessoas que se apresentaram como rede de apoio durante a eleição anterior, mas não disse quem eram. Não é possível estabelecer, pela fala, que estivesse se referindo a Laércio.
Ao declarar que deixa as acusações a cargo da Justiça, Thabatta não identificou processos ou medidas relacionados ao relato do ex-assessor.
Sua manifestação concentra-se na defesa da relação com Ryan e na mobilização de eleitores. O pronunciamento não esclarece individualmente se houve cobrança de parte dos salários, como foram adquiridos os móveis do gabinete ou quais atividades Laércio desempenhava enquanto recebia da Câmara.