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Estudo
Como o risco de extinção pode ajudar a humanidade a tornar o mundo melhor
Estudo indica que estamos nos aproximando do chamado ponto de colapso — quando o desaparecimento das espécies provoca um efeito em cadeia que leva à extinção de outras espécies
UOL
05/07/2020 | 16:30

Os cientistas alertam: o mundo está em meio a uma grande extinção em massa. Segundo cálculos de especialistas, a atual taxa de extinção de espécies é 50 a 100 vezes maior do que a média. Se confirmada, não será a primeira vez que isso acontece no planeta. A grande diferença em relação aos eventos anteriores é que, dessa vez, há uma espécie que habita o planeta com consciência do próprio destino e que se aflige com isso: nós. Corremos o risco de extinção?

Em junho, cientistas divulgaram na revista ScienceAdvances um estudo alarmante: quinhentas espécies podem estar extintas nas próximas duas décadas (não, pelo menos nessa lista, o homem não foi incluído). No último século, 543 espécies desapareceram. Somando os dois números, os autores do estudo concluíram que, em 120 anos, a taxa de extinção iguala a dos últimos 16 mil anos.

O que assusta não é o número em si, mas o fato de estarmos nos aproximando do chamado ponto de colapso — quando o desaparecimento das espécies provoca um efeito em cadeia que leva à extinção de outras espécies. E é nesse ponto que podemos ser afetados. “Estamos acabando com a capacidade do planeta manter a vida humana e a vida em geral”, disse Gerardo Ceballos, um dos autores do estudo.

Outro sinal de alerta recente é a Covid-19. Não que alguém acredite que ela tem o potencial de aniquilar a humanidade, mas ela nos lembrou de algo de que muita gente tinha esquecido: uma pandemia pode ser algo catastrófico — e o risco de uma super-bactéria ou vírus mortal não pode ser descartado. “A despeito de todos os avanços da medicina, a humanidade continua muito mais vulnerável a pandemias do que gostaríamos de acreditar”, escreveu o filósofo Toby Ord, da Universidade de Oxford, estudioso de riscos existenciais em artigo publicado no jornal inglês The Guardian.

Afinal, o que é um evento de extinção em massa? É uma perturbação no planeta que impede a sobrevivência e reprodução de um grande número de seres vivos. Geralmente, são marcadas por mudanças tão bruscas no ambiente, que impedem os organismos de evoluir e se adaptar ao novo habitat. O resultado é a extinção.

Isso já aconteceu antes? Sim. Extinção é a regra — não a exceção. Cerca de 99% das espécies que já viveram no planeta não existem mais. Elas perecem por inúmeras razões ao longo dos milênios, mas os cientistas descobriram que, nos últimos 500 milhões de anos, houve cinco momentos em que o número foi muito acima da média. São eventos de extinções em massa, que, em inglês, receberam o carinhoso apelido de Big Five (Cinco Grandes). A pior delas eliminou 90% das espécies que habitavam o planeta — e a mais famosa das cinco ocorreu há 65 milhões de anos, causada pelo choque de um asteroide que caiu no Oceano Atlântico e varreu os grandes dinossauros da face da Terra. Outros três eventos de extinção em massa foram provocados por erupções vulcânicas — que elevaram a temperatura do planeta em níveis aos que boa parte da vida existente não conseguiu sobreviver —, mas podem ser quatro. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que a primeira grande extinção em massa, há 445 milhões de anos, tinha sido causada por esfriamento global. Em junho, porém, dois cientistas, Stephen Grasby e David Bond, divulgaram um estudo com evidências de que o primeiro dos Big Five também teria sido provocado pelo aquecimento global.

Estamos condenados? Se 99% das espécies já não habitam mais o planeta, é no mínimo razoável acreditar que esse deve ser o nosso destino. Há inúmeros candidatos a “nêmesis” da humanidade: asteroides, aquecimento global, pandemias e até raios gama emitidos por uma estrela — isso sem levar em conta ações diretas do homem, como uma guerra nuclear. “Numa escala de tempo de cinquenta anos, diria que o risco de extinção da humanidade é baixíssimo”, disse ao TAB Rodrigo Nemmen, professor de astrofísica da USP (Universidade de São Paulo). “Num prazo de 100 a 200 anos, os riscos aumentam consideravelmente.”

Nosso destino não era nos tornarmos deuses? Em pleno século 21, a ideia de que a vida humana não está garantida pode surpreender. Nos últimos anos, nos maravilhamos com nossas conquistas e ambições em áreas como tecnologia digital e biotecnologia a ponto de acreditar que poderíamos até vencer a morte. Sim. Diversos cientistas, amparados por grandes empresas, como o Google, se dedicam a pesquisar formas de nos tornar amortais, ou seja, capazes de sobreviver a qualquer tipo de doença ou falha do corpo (quanto à queda de um precipício, os cientistas ainda não têm antídoto). De repente, a morte passou a ser encarada apenas como um problema técnico a ser resolvido dentro de um laboratório As teses de triunfalismo do gênio do ser humano foram popularizadas pelo historiador Yuval Noah Harari no livro “Homo Deus – uma breve história do amanhã”. Na obra, ele celebra o triunfo da humanidade, que entrou no terceiro milênio livre dos três grandes problemas desde que o Homem evoluiu do macaco: a fome, a peste e a guerra. Sem esses pesos, restaria ao homem agir como um deus e se entregar à busca incessante pela felicidade. “Depois de assegurar níveis sem precedentes de prosperidade, saúde e harmonia, (…) as próximas metas da humanidade serão provavelmente a imortalidade, a felicidade e a divindade”, escreveu. “Nosso propósito será fazer dos humanos deuses e transformar o Homo sapiens em Homo deus.”

Eis a verdade: somos vulneráveis. A Covid-19 é só a evidência mais recente. Do ponto de vista biológico, o ser humano estaria em desvantagem em relação a outras espécies num evento de extinção em massa. Animais grandes e de sangue quente como nós têm metabolismo elevado; essa característica demanda necessidade constante de alimentação. Tartarugas ou cobras, por outro lado, podem ficar semanas sem comer. Numa catástrofe que interrompa a cadeia de alimentos, como ocorreu nas “Big Five”, podemos ter problemas.

Mas temos vantagens. Num artigo publicado no site The Conversation, o paleontólogo e biólogo evolucionista Nick Longrich mostrou que temos fortalezas que podem compensar nossas vulnerabilidades. “Podemos sobreviver a um evento de extinção em massa”, escreveu Longrich. “Perturbações de longo prazo, como uma era glacial, podem causar conflitos generalizados e colapsos populacionais, mas as civilizações provavelmente sobrevivem.” As principais delas: somos abundantes — quase 8 bilhões de pessoas significa uma chance formidável de que pelo menos alguns de nós possam sobreviver e repovoar a Terra. Se apenas 1% sobreviver, isso significa 78 milhões de pessoas; estamos em todos os lugares, habitando quase todos os pontos do planeta; somos generalistas e comemos de tudo; somos adaptáveis — pelo aprendizado e pela inovação. Aprender a lavar as mãos para evitar o contágio de doenças leva minutos.

Estamos tranquilos, então? “Podemos controlar e direcionar nosso futuro pois somos únicos na capacidade de projetar e manipular o ambiente”, afirma ao TAB o filósofo Thomas Moynihan, que lança em outubro o livro “X-Risk – how humanity discovered its own extinction” (Risco X – como a humanidade descobriu sua própria extinção, em tradução livre). Nemmen, da USP, concorda. Segundo ele, nossa capacidade de inovar é imensa e pode até mesmo nos permitir povoar outro planeta se a Terra se tornar inabitável. “Dado o avanço tecnológico, quase todos os desafios são transponíveis. Tudo depende de interesse político e investimento nas tecnologias que podem salvar a humanidade.”

Mas… “Só” sobreviver não basta. Quando um cientista diz que a humanidade não deve estar extinta nos próximos anos, se atém única e exclusivamente à possibilidade de existência humana na Terra — mas não leva em conta a qualidade de vida dessas pessoas. Nosso grande desafio nos próximos anos não é apenas garantir a sobrevivência, mas manter as condições para que a vida na Terra seja agradável. No livro “A terra inabitável – uma história do futuro”, o jornalista americano David Wallace-Wells descreve um cenário assustador, caso o ritmo de aquecimento global se mantenha — e as temperaturas médias subam 2ºC, 4ºC ou mais. Wells, que se apoiou em centenas de trabalhos científicos para escrever o livro, descreve um mundo em que incêndios florestais, furações, tempestade e ondas de calor insuportáveis provocarão guerras, miséria, fome, sede, doenças, milhões de refugiados e incontáveis mortes. No meio desse caos, é provável que nem sintamos falta das praias, que serão engolidas pela elevação do nível dos mares. “Porque os seres humanos se revelaram uma espécie adaptável, (…) é pouco provável que a mudança climática torne o planeta realmente inabitável”, escreveu. “O que reside entre nós e a extinção é bastante apavorante, e ainda nem começamos a contemplar o que significa viver sob tais condições.”

Então… mais do que respirarmos aliviados pelo fato de que não estaremos extintos a curto prazo, deveríamos usar os riscos de extinção como uma força para tornar o mundo mais agradável. “Pensar em nosso fim pode nos ajudar a assumir nossa responsabilidade enquanto seres morais, em preservar a moralidade que existe no Universo, e que é definida unicamente por nós”, diz Moynihan.

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