O Rio Grande do Norte precisa transformar a liderança construída na produção de energia renovável em uma plataforma para uma nova etapa de industrialização. A avaliação é do presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos. Com 319 parques eólicos em operação e capacidade próxima de 11 gigawatts (GW) apenas nessa fonte, o Estado enfrenta agora o desafio de ampliar o consumo local da eletricidade produzida e reduzir os cortes de geração que atingem os empreendimentos.
Segundo Santos, o Nordeste passou cerca de duas décadas se apresentando ao mercado como uma região produtora de energia e conseguiu consolidar essa posição. Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia estão entre os principais polos eólicos e solares do País. O próximo movimento, afirma, deve ser utilizar a oferta de eletricidade limpa e de baixo custo como instrumento para atrair atividades industriais intensivas em energia.

“Precisamos avançar. O processo agora não é mais: ‘eu quero de atração da indústria para consumir essa energia aqui”, disse.
atrair um parque eólico ou atrair um parque solar’. Eu preciso atrair uma indústria para a região que consuma essa energia aqui”, afirmou Santos. Entre as possibilidades citadas estão produção de cimento e minério de ferro com energia renovável, fabricação de fertilizantes a partir do hidrogênio verde e instalação de data centers.
O movimento ganha importância diante do excedente existente no sistema elétrico. Parte da geração renovável nordestina vem sendo limitada por restrições na infraestrutura de transmissão e pelo equilíbrio entre oferta e demanda. Na entrevista à Radio Mix Natal, foi mencionado que os cortes podem alcançar cerca de 25% da produção em determinados casos, situação que, segundo Santos, tem penalizado particularmente os empreendimentos instalados no Rio Grande do Norte.
Para o presidente do Cerne, a resposta passa por aproximar geração e consumo. Quanto maior a presença de indústrias no Nordeste, menor seria a necessidade de transportar grandes volumes de eletricidade para outras regiões. “Temos que desenvolver políticas
A disponibilidade energética, contudo, não resolve sozinha a equação industrial. Santos reconhece gargalos principalmente na infraestrutura portuária e de cabotagem. Ao mesmo tempo, aponta a localização geográfica do Nordeste como vantagem para o escoamento de produtos em direção à América Central, América do Norte, África e Europa. A questão portuária ganha ainda mais relevância diante das perspectivas para a energia eólica offshore, cujos equipamentos têm dimensões que dificultam o transporte por rodovias.
O presidente do Cerne também questiona decisões recentes do planejamento energético nacional. Segundo ele, a entidade se posicionou contra um leilão que contratou mais de 17 GW de energia baseada em gás natural e carvão. Santos argumenta que a geração fóssil é mais cara do que a eólica e aumenta as emissões justamente em um momento no qual parques renováveis enfrentam restrições de produção.
Parques antigos abrem novo ciclo de investimentos
Os 319 parques eólicos em funcionamento no Rio Grande do Norte colocam o Estado como segundo maior produtor do País, atrás da Bahia, segundo os números apresentados pelo presidente do Cerne. Santos observa, porém, que a comparação territorial favorece o RN, já que a Bahia possui área aproximadamente dez vezes maior. Parte dos empreendimentos potiguares começa agora a chegar aos 20 anos de operação, abrindo espaço para um novo ciclo de investimentos. A substituição dos primeiros aerogeradores por equipamentos mais modernos pode aumentar a geração sem exigir expansão proporcional do número de parques. As máquinas atuais, segundo Santos, conseguem produzir mais de duas vezes a energia de equipamentos instalados há cerca de 15 anos. Isso significa que a capacidade do Estado poderá crescer por meio da modernização dos parques existentes, processo conhecido no setor como repotenciação. O planejamento para os próximos dez anos indica possibilidade de instalar capacidade semelhante à existente atualmente. Se concretizado, o movimento poderia praticamente dobrar a potência disponível. A expansão, entretanto, dependerá de transmissão, demanda e segurança para novos investimentos.
Os efeitos econômicos já podem ser observados em municípios que concentraram empreendimentos. Santos citou João Câmara e cidades do Mato Grande como exemplos de localidades que registraram mudança na trajetória econômica depois da instalação e operação dos parques. Mesmo após a fase de construção, quando investimentos e arrecadação diminuem, alguns municípios mantiveram ganhos em relação à curva econômica anteriormente projetada. Outro exemplo apresentado foi Serra do Mel. Segundo Santos, um projeto local adotou um modelo coletivo de distribuição de receitas entre proprietários, de modo que os benefícios não ficam restritos aos terrenos onde os aerogeradores foram instalados. Para o presidente do CERNE, experiências desse tipo podem ampliar os efeitos econômicos das renováveis nas comunidades próximas aos empreendimentos.
Offshore e porto exigem planejamento longo que pode durar dez anos
A próxima fronteira da energia potiguar está no mar. Santos afirma que o horizonte para projetos eólicos offshore é de aproximadamente dez anos, prazo associado ao licenciamento, estruturação financeira, construção da infraestrutura e contratação necessária para colocar os empreendimentos em operação. O segmento também depende diretamente de instalações portuárias. Nesse contexto, o presidente do Cerne citou o projeto de Porto-Indústria Verde previsto para Caiçara do Norte. Segundo ele, uma infraestrutura dessa dimensão pode levar oito anos ou mais para avançar entre estudos, licenciamento ambiental, atração de investidores, captação de recursos, contratos e definição da autoridade portuária. O prazo é semelhante ao observado em um parque eólico terrestre. Do início do desenvolvimento até a geração comercial, um empreendimento pode consumir cerca de oito anos mesmo quando as etapas transcorrem sem grandes entraves. Santos defende, por isso, que projetos dessa dimensão sejam tratados como políticas de Estado, e não vinculados apenas à duração de um mandato. O CERNE começou a discutir a regulamentação da geração eólica offshore ainda em 2017 e posteriormente participou dos debates no Congresso sobre três frentes consideradas relevantes para a economia de baixo carbono: eólica no mar, hidrogênio verde e mercado de carbono. No caso do hidrogênio, Santos avalia que a exportação provavelmente ocorrerá por meio de derivados, como a amônia, devido às condições mais favoráveis de transporte. A disponibilidade de energia renovável coloca o Nordeste em posição competitiva para desenvolver essa cadeia e abastecer mercados internacionais. Para o presidente do Cerne, o histórico da própria energia eólica mostra que projetos inicialmente vistos como distantes podem se transformar em atividade econômica relevante. O Rio Grande do Norte passou de uma aposta no potencial dos ventos para um dos maiores produtores do País. A próxima etapa será determinar se essa energia servirá principalmente para abastecer outros mercados ou se poderá sustentar uma nova base industrial dentro do próprio Estado.