BUSCAR
BUSCAR
Energia

Energia eólica e turismo: o vento que traz geração de negócios e empregos no RN

Recurso natural que sustenta uma das maiores estruturas de geração eólica do País também impulsiona esportes, viagens e serviços; avanço de projetos no mar amplia o debate sobre a convivência entre as atividades
Agora RN
25/09/2026 | 22:59

Os ventos que movimentam milhares de aerogeradores no Rio Grande do Norte também ajudam a encher pousadas, movimentar restaurantes e levar esportistas para o litoral. De Serra do Mel a São Miguel do Gostoso, a característica natural que colocou o Estado entre os principais polos brasileiros de energia eólica sustenta outra atividade econômica: o turismo ligado ao mar, à paisagem e aos esportes de vento.

Dados consolidados do setor mostram a dimensão alcançada pela fonte eólica. Em 2025, o Estado tinha 308 parques e 3.446 aerogeradores, segundo números da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica). A potência instalada superava 10 GW. Em 2026, o Rio Grande do Norte continua recebendo novos projetos e registrou expansão de 639,57 MW em sua matriz elétrica entre janeiro e agosto, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Dezenas de aerogeradores instalados em faixa de vegetação rasteira junto ao litoral, sob céu com nuvens
O vento que sustenta uma das maiores estruturas de geração eólica do País também move o turismo esportivo no litoral — José Aldenir/Agora RN

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), mostra que a fonte eólica produziu 116,5 TWh no Brasil em 2025, avanço de 8,2% em relação a 2024. A geração centralizada alcançou 34.689 MW de capacidade instalada no País.

No território potiguar, essa indústria divide espaço com municípios que dependem do fluxo de visitantes. São Miguel do Gostoso é um dos exemplos. A economia municipal tem agricultura, pesca e turismo como pilares, mas a própria prefeitura aponta que a atividade turística ganhou força a partir dos anos 2000, impulsionada, entre outros fatores, pelos ventos favoráveis ao kitesurfe e ao windsurfe.

A mesma faixa do litoral abriga empreendimentos de geração de energia. Regiões como Mato Grande e Costa Branca concentram parques eólicos, enquanto municípios como São Miguel do Gostoso, Touros e Galinhos aparecem nos roteiros turísticos do Estado.

A Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur) já identifica os ventos como ativos capazes de gerar fluxo de visitantes. São Miguel do Gostoso e Touros receberam etapas de competições de wingfoil justamente pelas condições naturais para modalidades movidas pelo vento. Em evento realizado nos dois municípios, a Emprotur estimou público entre 500 e mil pessoas e relacionou a competição à movimentação da economia local e ao posicionamento dos destinos no mercado de turismo esportivo.

O Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável do Polo Costa das Dunas, da Secretaria de Estado do Turismo do Rio Grande do Norte (Setur-RN), também relaciona São Miguel do Gostoso ao turismo de aventura por causa do kitesurfe.

O mercado turístico, por sua vez, vem ampliando sua participação na economia potiguar. Dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), da Polícia Federal e do Ministério do Turismo (MTur) mostram que 25.919 turistas internacionais entraram no Brasil pelo Rio Grande do Norte em 2024, alta de 27,25% ante 2023. Somente no primeiro semestre de 2025 foram 15.573, crescimento de 39,79% sobre igual período do ano anterior. Entre esses visitantes, 63,5% viajavam a lazer.

O resultado cria uma interseção econômica: o vento é matéria-prima para a produção de eletricidade e, ao mesmo tempo, componente da oferta turística de parte do litoral.

Turismo esportivo encontra força no litoral

Em São Miguel do Gostoso, a relação entre vento e turismo aparece diretamente no mar. Kitesurfe, windsurfe e, mais recentemente, wingfoil transformaram as condições meteorológicas da região em produto turístico.

A cidade já recebeu competições nacionais de wingfoil, modalidade na qual o atleta utiliza uma prancha com hydrofoil e uma asa impulsionada pelo vento. A prefeitura afirma que o município é conhecido internacionalmente pelas condições oferecidas para esportes náuticos a vela.

A atividade movimenta uma cadeia que vai além das escolas esportivas. Hospedagem, alimentação, transporte, aluguel de equipamentos, comércio e prestação de serviços são beneficiados pela circulação de atletas e visitantes.

A dinâmica ocorre justamente em uma região na qual os aerogeradores passaram a integrar a paisagem. Municípios do Mato Grande, da Costa Branca e do litoral norte concentram investimentos do setor elétrico e, simultaneamente, praias e atividades turísticas.

A expansão das duas atividades, porém, exige planejamento. Em Galinhos, por exemplo, a instalação de empreendimentos eólicos já provocou discussões envolvendo paisagem, dunas, pesca, passeios de barco e de bugue. Em audiência registrada pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), moradores levantaram questionamentos sobre possíveis efeitos dos parques sobre atividades turísticas e tradicionais. O desafio é permitir que a geração de energia e as atividades ligadas ao turismo avancem sem que uma comprometa os ativos utilizados pela outra.

Eólica no mar abre uma nova fronteira

A próxima etapa dessa convivência pode ocorrer no oceano. O Rio Grande do Norte recebeu, em 2025, a primeira licença prévia concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para um projeto-piloto de energia eólica offshore no Brasil.

O Sítio de Testes de Aerogeradores de Areia Branca prevê dois equipamentos com potência conjunta de 24,5 MW. O empreendimento é desenvolvido pelo Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER) e deverá servir para pesquisas e desenvolvimento tecnológico.

O avanço para o mar amplia a necessidade de compatibilizar energia com outras atividades econômicas. O próprio Ibama inclui turismo, pesca artesanal, navegação, aves, tartarugas, mamíferos marinhos e ambientes recifais entre os aspectos que precisam ser considerados na avaliação dos impactos de complexos eólicos offshore.

Em março de 2025, os projetos offshore em licenciamento no litoral potiguar somavam 25.468 MW, segundo levantamento do Ibama. O número representa potencial projetado, e não capacidade instalada, mas dá dimensão do interesse empresarial pelo mar do Estado.

A chegada dessa nova geração tecnológica ocorre justamente em uma costa que reúne praias, comunidades pesqueiras e destinos turísticos. O mesmo vento que tornou o Rio Grande do Norte uma referência nacional na geração elétrica continuará, portanto, exigindo decisões sobre uso do território.

Para o Estado, a oportunidade está em fazer as duas cadeias produzirem efeitos complementares: energia para atrair investimentos e turismo para movimentar serviços e pequenos negócios. Do aerogerador à prancha de kitesurfe, o vento potiguar já movimenta atividades diferentes — e ambas dependem de como esse recurso será aproveitado.

A força dos ventos no RN

  • 308 parques eólicos instalados (dado de 2025)
  • 3.446 aerogeradores em operação (dado de 2025)
  • Mais de 10 GW de potência eólica instalada (dado de 2025)
  • 639,57 MW de expansão da matriz elétrica entre janeiro e agosto de 2026
  • 1º projeto eólico offshore do Brasil a receber licença prévia do Ibama está no RN
  • 24,5 MW é a potência prevista para o projeto-piloto offshore de Areia Branca
  • 2 aerogeradores estão previstos no Sítio de Testes de Areia Branca
  • 25.468 MW era a potência somada dos projetos offshore em licenciamento no litoral do RN em março de 2025
  • 25.919 turistas internacionais entraram no Brasil pelo RN em 2024
  • 39,79% foi o crescimento das entradas internacionais pelo Estado no primeiro semestre de 2025

Fontes: Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e Ministério de Minas e Energia (MME).