Natal sedia, entre os dias 29 de abril e 2 de maio, o Congresso Extraordinário Roberto Chabo, da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), que reúne representantes de oito países para discutir a crise estrutural no trabalho médico. O encontro, realizado na Associação Médica do Rio Grande do Norte, ganhou dimensão internacional ao reunir delegações de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Espanha e Portugal.
De acordo com o presidente da Fenam e do Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed), Geraldo Ferreira, o evento surge como resposta a um cenário global de deterioração das condições de trabalho. “Há uma crise estrutural no trabalho médico, com perda de direitos, queda na remuneração e impacto na qualidade do serviço prestado”, afirmou. A principal proposta do congresso é a criação de uma central íbero-americana para unificar a defesa da categoria e ampliar a articulação institucional.

A programação inclui debates sobre remuneração mínima, condições de trabalho e formação médica, além de discussões sobre atenção básica e regulação do ensino. Também estão previstas articulações com organismos internacionais, como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), com o objetivo de estruturar políticas públicas voltadas ao setor.
Representantes estrangeiros relataram problemas semelhantes em seus países. O médico André Gomes, presidente dos sindicatos médicos da Zona Sul de Portugal, afirmou que “a grande parte dos médicos ainda trabalha no serviço público de saúde”, mas enfrenta desafios como jornadas extensas e perda de renda. “Nos últimos 15 a 20 anos, perdemos 30% do poder de compra do nosso salário”, disse.
No Uruguai, o médico Geraldo Elguren apontou a expansão de contratos precários e seus efeitos sobre o setor. Segundo ele, “há uma precarização do trabalho médico, sobretudo no nível de emergência e primeiro nível de atenção”, associada à pressão para redução de custos e à estagnação salarial.
O argentino Ruben Tucci destacou o impacto direto sobre a qualidade da assistência. “Apesar da nossa luta ano após ano, vemos que as condições de trabalho estão decaindo dia após dia”, afirmou. Ele também criticou o desequilíbrio entre investimentos em saúde pública e na indústria farmacêutica.
Já a neurologista Glória Meza, representante do Paraguai, e o cardiologista boliviano Vicente Gutierrez reforçaram a necessidade de articulação internacional. Gutierrez destacou que a valorização da profissão passa por remuneração compatível e condições adequadas. “O trabalho tem que ser digno, bem remunerado e com qualidade para atender a população”, afirmou, ressaltando que a iniciativa tem alcance internacional e pode influenciar políticas públicas.
Para os organizadores, o congresso marca um movimento de integração diante de desafios comuns, como excesso de profissionais em algumas regiões, informalidade, terceirização e disputas por atribuições no sistema de saúde. A expectativa é que o encontro resulte na formalização de uma entidade permanente, capaz de coordenar ações e fortalecer a interlocução política da categoria em nível global.