O ator e diretor Gracindo Jr. morreu aos 83 anos, no Rio de Janeiro, na noite de terça-feira 1º. A morte foi confirmada na quarta-feira 2 pelo filho do artista, Pedro Gracindo, e pela assessoria do ator nas redes sociais. A causa não foi divulgada. Ele deixa uma carreira de mais de cinco décadas no rádio, no teatro, no cinema e na televisão.
Nascido no Rio de Janeiro em 1943 e registrado como Epaminondas Xavier Gracindo, era filho do ator Paulo Gracindo. Entrou cedo no meio artístico: em 1959, aos 15 anos, passou num teste da Rádio Nacional. Na emissora, trabalhou como ator, redator e disc-jóquei, enquanto começava a construir em paralelo uma carreira nos palcos. Chegou a cursar psicologia, mas seguiu na profissão.

Do teatro à inauguração da TV Globo
No teatro, estreou em “A Escada”, de Oswald de Andrade, em 1961, na montagem ao lado de Rubens Corrêa e Ivan Albuquerque. Poucos anos depois estaria diante de outro marco da cultura brasileira.
Gracindo Jr. já estava contratado quando a TV Globo foi inaugurada, em 1965, e fazia parte do primeiro elenco da emissora. No mesmo ano participou de “Rosinha do Sobrado”, uma das primeiras novelas do canal. Vieram depois “Padre Tião”, “A Rainha Louca”, “A Próxima Atração”, “Uma Rosa com Amor”, “Os Ossos do Barão” e “Supermanoela”.
Pai e filho diante das câmeras
A relação entre família e profissão apareceu algumas vezes em cena. Em “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, Gracindo Jr. trabalhou com Paulo Gracindo. Os dois também estiveram juntos em “Os Ossos do Barão”.
O encontro mais simbólico veio em “O Casarão”, novela de Lauro César Muniz exibida em 1976, cuja história atravessava cinco gerações de uma família e diferentes períodos históricos. Gracindo Jr. interpretava João Maciel jovem, enquanto o pai assumia o mesmo personagem na maturidade. Na trama, João Maciel era um artista plástico que entrava em conflito com o ambiente provinciano de Sapucaí e vivia um romance com Carolina, interpretada na juventude por Sandra Barsotti.
No mesmo ano de “O Casarão”, ele estreou como diretor teatral em “A Longa Noite de Cristal”, de Oduvaldo Vianna Filho.
Manchete, Globo e Record
A carreira também passou pela TV Manchete. Em 1984, interpretou Dom Pedro I em “A Marquesa de Santos”, contracenando com Maitê Proença. Dois anos depois reencontrou a atriz em “Dona Beija”, dessa vez no papel de Antônio Sampaio.
De volta à Globo, acumulou personagens em “Tenda dos Milagres”, “Mandala”, “O Salvador da Pátria”, “Rainha da Sucata”, “Gente Fina”, “Deus nos Acuda”, “Explode Coração”, “Anjo de Mim” e “Esplendor”.
Em “Mandala”, de 1987, viveu Creonte, um dos vilões da história inspirada em “Édipo Rei”. Dois anos depois, em “O Salvador da Pátria”, interpretou Ricardo Ribeiro, marido da professora Clotilde — novamente vivida por Maitê Proença — e rival de Sassá Mutema, personagem de Lima Duarte.
“Explode Coração”, de 1995, o colocou em dois lugares dentro da mesma produção: começou atuando e depois assumiu a direção das cenas do núcleo dos ciganos.
Em 2003 apareceu em “Celebridade”, de Gilberto Braga, como Ubaldo Quintela, personagem que passara 15 anos preso pelo assassinato do noivo de Maria Clara Diniz, interpretada por Malu Mader. Seu último trabalho de maior projeção na Globo foi “Como uma Onda”, em 2004. Mais tarde participou de produções da Record, entre elas “Poder Paralelo” e “Plano Alto”.
Cinema e direção
Fora da televisão, reuniu uma filmografia que inclui “Os Homens que eu Tive”, “Os Trapalhões na Serra Pelada”, “O Trapalhão na Arca de Noé”, “Floresta das Esmeraldas”, “Desterro”, “A Hora Marcada”, “Bufo e Spallanzani”, “A Selva”, “Primo Basílio” e “Segurança Nacional”.
A direção virou outra parte importante da trajetória. Depois de uma temporada em Portugal, voltou ao Brasil e assumiu, em 1978, a supervisão do núcleo de novelas das 18h da Globo. No ano seguinte dirigiu “Memórias de Amor” e “Marron-Glacé”. Trabalhou também em programas de variedades e humor e, em 1983, assumiu a direção de “Os Trapalhões”.
Em mais de 50 anos de trabalho, Gracindo Jr. passou pelo rádio, pelo teatro, pelo cinema e por diferentes gerações da televisão. Começou quando a TV brasileira ainda construía sua linguagem e seguiu trabalhando quando novelas e programas que ajudou a fazer já faziam parte da memória afetiva do público.
A morte ocorre em um período de despedidas de nomes marcantes da cultura brasileira. Em agosto, o Agora RN noticiou a morte da atriz Glória Menezes, aos 91 anos.