A iniciativa do deputado estadual Gustavo Carvalho de propor que todos os parlamentares da Assembleia Legislativa façam uma espécie de “vaquinha” com suas emendas para comprar um novo tomógrafo para o Hospital Walfredo Gurgel escancara, mais uma vez, a dramática situação da saúde pública do Rio Grande do Norte.
A ideia do deputado é uma boa intenção, um gesto de solidariedade institucional e, sobretudo, uma tentativa legítima de dar resposta a um problema crítico. Mas é justamente da boa intenção que brota a gravidade da constatação: chegamos ao ponto de depender de uma arrecadação coletiva entre deputados para que o maior hospital de urgência do Estado tenha um equipamento básico funcionando.

A cena é simbólica — e profundamente preocupante. O Walfredo Gurgel, referência para todo o RN, está pela terceira vez em dois meses com seus dois tomógrafos inoperantes. Desta vez, um quebrou e o outro está parado por causa de uma reforma na sala. Pacientes são transportados para Parnamirim para realizar um exame que deveria estar disponível onde a urgência acontece. É o retrato fiel de um sistema exausto, sem capacidade de planejamento e sem margem de investimento.
A “vaquinha” não é o problema. O problema é o motivo pelo qual ela precisa existir.
A própria direção do hospital admite que os tomógrafos — um com nove anos, outro com quinze — precisam ser substituídos. Mas a compra emperra na famosa falta de disponibilidade financeira. Já não é um caso isolado: é sintoma de uma máquina pública que funciona no limite, sem fôlego para o básico. E que, por isso mesmo, empilha improvisos, remendos e soluções emergenciais.
O que está por trás dos tomógrafos quebrados é o mesmo elemento que aparece nos alertas do relator do Orçamento, deputado Tomba Farias: a situação financeira do Rio Grande do Norte beira o colapso.
O Orçamento de 2026 chega à Assembleia prevendo um déficit de R$ 1,5 bilhão. A folha deve saltar para algo perto de impressionantes R$ 1,3 bilhão por mês. As despesas obrigatórias crescem mais que a receita. A dívida de precatórios ultrapassa R$ 5 bilhões. E o investimento público é praticamente inexistente.
Diante desse quadro, Tomba fala em “sacrifício coletivo” dos Poderes — Assembleia, TJ, MPRN e TCE — para impedir a falência institucional. É um diagnóstico duro, mas realista. Tanto que, segundo o próprio deputado, o vice-governador Walter Alves estaria avaliando a gravidade da situação a ponto de repensar assumir o governo em 2026. Não se trata de especulação política, mas de uma constatação: governar o RN, hoje, significa administrar um Estado à beira do estrangulamento fiscal.
É nesse cenário que a proposta da “vaquinha” deve ser compreendida. Ela é bem-intencionada, mas evidencia a falência do modelo. Quando a saúde depende de arrecadação voluntária, o Estado falhou em seus pilares básicos.
O AGORA RN vem insistindo neste espaço que a crise financeira não se resolve com paliativos. A saúde não está colapsando apenas por falta de máquinas, manutenção e gestão — embora falte tudo isso. A saúde está colapsando porque o Estado inteiro está financeiramente inviável.
O quadro atual é resultado de décadas de expansão das despesas obrigatórias sem contrapartida de aumento sustentável da receita, somadas à ausência de reformas, de planejamento e de coragem política para enfrentar o problema estrutural.
A crise é tão profunda que já extrapolou a esfera administrativa e se tornou um obstáculo de futuro: o RN não consegue pensar grande porque não consegue pagar o básico. É um Estado acorrentado ao seu próprio desequilíbrio.
A saúde, por si só, já justificaria um pacto amplo. Mas o cenário fiscal exige ainda mais: um consenso de Estado, com metas de médio e longo prazo, que ultrapasse governos, partidos e ciclos eleitorais.
Não se trata de um debate ideológico. É matemático. A folha cresce mais que a receita. Os passivos se acumulam. Os investimentos desaparecem. Sem reformas, não há saída. E sem estabilidade fiscal, não haverá saúde digna, segurança reforçada, educação estruturada, infraestrutura moderna ou capacidade de atrair investimentos.
Por isso, defendemos que a crise fiscal seja tema central da eleição de 2026 — não como retórica, mas como programa concreto. Todos os candidatos, de qualquer campo político, terão de encarar essa realidade, como lembrou o próprio relator do Orçamento. O RN precisa sair da inércia dessa discussão, que já passou da hora.
Se os deputados decidirem, de fato, unir emendas para comprar o tomógrafo, será um gesto nobre. Mas que fique claro: não é esse o caminho para salvar a saúde pública. Não é possível administrar um Estado com campanhas emergenciais a cada nova falha do sistema.