Quando falamos de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o momento da refeição pode ser um verdadeiro desafio. A chamada seletividade alimentar — caracterizada pela recusa de alimentos, preferência por poucos itens e resistência a novidades — é uma realidade frequente e, muitas vezes, mal compreendida.
Diferente do que se imagina, a seletividade alimentar no TEA não está relacionada a “falta de vontade” ou “teimosia”. Estudos recentes mostram que esse comportamento está profundamente ligado a questões sensoriais e emocionais. Para algumas pessoas, a textura de um alimento pode ser intolerável; para outras, o cheiro, a cor ou até a temperatura podem causar desconforto intenso. É como se o cérebro percebesse certos alimentos como experiências aversivas — e não apenas como algo a ser comido.

Além disso, aspectos psicológicos também desempenham um papel importante. Pessoas com TEA tendem a buscar previsibilidade e rotina, e isso se reflete diretamente na alimentação. Comer sempre os mesmos alimentos pode representar segurança em um mundo que, muitas vezes, já é percebido como imprevisível. Nesse contexto, a introdução de um alimento novo pode gerar ansiedade, resistência e até reações emocionais intensas. E o impacto disso vai além da mesa.
Uma alimentação muito restrita pode comprometer a ingestão de nutrientes essenciais, afetando energia, cognição e até o humor. Ao mesmo tempo, a própria experiência de comer pode se tornar fonte de estresse, tanto para a pessoa com TEA quanto para sua família.
Diante disso, surge uma pergunta fundamental: como ajudar?
A resposta começa pela forma como o adulto conduz a situação. Pressionar, forçar ou insistir excessivamente tende a piorar o quadro, aumentando ainda mais a resistência. Por outro lado, estratégias mais acolhedoras e graduais têm mostrado melhores resultados. Apresentar o alimento aos poucos, respeitar o tempo da criança, valorizar pequenas conquistas e tornar o ambiente mais previsível são caminhos mais eficazes e respeitosos.
O suporte psicológico contribui diretamente para a compreensão dos fatores emocionais envolvidos, ajudando na redução da ansiedade e na ampliação da flexibilidade comportamental. Ao mesmo tempo, a Nutrição atua garantindo que, mesmo diante das limitações, a alimentação seja o mais equilibrada possível.
Outro ponto essencial é o ambiente. Pequenos ajustes podem fazer grande diferença: reduzir estímulos excessivos, organizar uma rotina alimentar consistente e manter uma apresentação previsível dos alimentos são estratégias simples, mas poderosas.
Falar sobre seletividade alimentar no autismo é, acima de tudo, falar sobre compreensão. Com informação, acolhimento e acompanhamento adequado, é possível transformar a relação com a comida — tornando-a mais leve, mais saudável e, principalmente, mais respeitosa com quem está vivenciando esse processo.
Helington Costa é psicólogo e nutricionista do Centro Universitário Estácio Natal