Nas últimas semanas, a deputada Natália Bonavides voltou ao centro de uma polêmica tão imediata quanto artificial, quando adversários passaram a acusá-la de defender um suposto “fim da Polícia Militar”. A narrativa ganhou tração nas redes bolsonaristas e foi ecoada por parte da imprensa, seguindo um roteiro de tentativa de ganho eleitoral já bastante disseminado na política brasileira, no qual a comunicação cria um rótulo simples, emocional e de forte apelo, ainda que desconectado da realidade factual.
O fato concreto é que Natália jamais defendeu o fim da polícia. Ao contrário, é uma parlamentar que destina recursos sistemáticos para a instituição, tendo sido, inclusive, condecorada com a maior honraria da corporação, por relevantes serviços prestados à Polícia Militar e à segurança pública do estado. Levanta-se, então, uma pergunta que deveria ser óbvia: qual instituição premiaria alguém que estivesse trabalhando para enfraquecê-la?

O que explica, portanto, o tamanho da reação? A resposta está menos no conteúdo da questão e mais na disputa de narrativa. Para alguns setores da política, qualquer discussão sobre segurança pública vira combustível para ataques fáceis, destinados a provocar medo, gerar engajamento e marcar posição ideológica. É mais lucrativo politicamente simplificar tudo a um falso dilema de ser “a favor ou contra a polícia”, “a favor ou contra bandidos”, do que permitir um debate sério e responsável sobre um tema tão importante. A discussão sobre a militarização das polícias, que existe no Brasil (e no mundo) há décadas, não trata de extinguir a instituição, mas de discutir o seu modelo. Não se debate se a polícia deveria existir, mas como ela poderia funcionar melhor. É o mesmo modelo já adotado por diversas forças civis que atuam com eficiência e reconhecimento, como: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil e Guardas Municipais. Nenhuma delas é militarizada, e nem por isso alguém sugeriria que elas são “contra a segurança pública”.
Quando setores políticos atacam qualquer menção a esse debate, o objetivo não é proteger o policial, mas sim proteger uma narrativa. Uma narrativa que transforma nuances em escândalos, que impede a população de entender a discussão real e que rende muitos dividendos eleitorais para quem vive do pânico moral e da polarização. Nesse ambiente, refletir dá menos voto do que simplesmente atacar. O caso envolvendo a deputada é um exemplo didático de como funciona esse mecanismo. É mais fácil e mais útil, para alguns atores, criar uma imagem de que ela seria “contra a polícia” do que discutir o tema da militarização. Muito menos, reconhecer que a deputada investe recursos na instituição e que, por isso, foi reconhecida por ela. É muito mais vantajoso inflar uma acusação falsa do que admitir que, por trás da fumaça, existe apenas a tentativa de obter ganhos eleitorais.
No fim, o Brasil segue perdendo boas oportunidades de tratar o grave problema da segurança pública de forma séria e responsável, uma vez que parte da política prefere o atalho da narrativa vantajosa unicamente a si, do que o compromisso com o fato. Enquanto isso, o ruído segue falando mais alto que a verdade.