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Editorial

Um plano estruturado para retomar territórios: Estado inicia fase social da intervenção em Felipe Camarão

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 9
Editorial
09/12/2025 | 05:28

As ações de segurança pública que vêm ocorrendo na Zona Oeste de Natal, e que agora ganham nova etapa com o lançamento da segunda fase da Operação Território Seguro, revelam uma mudança de patamar no enfrentamento ao crime organizado no Rio Grande do Norte. Na semana passada, o Ministério da Justiça e o Governo do Estado anunciaram a consolidação de um plano estruturado, com etapas definidas, que vai além da repressão policial e busca, de fato, reocupar territórios historicamente dominados por facções criminosas.

Não se trata apenas da continuidade das ações realizadas em 15 de outubro, quando 32 suspeitos foram presos em uma operação que reuniu cerca de 330 agentes de segurança estaduais e federais e do Ministério Público. Trata-se, agora, da apresentação de um modelo nacional de intervenção em áreas vulneráveis, desenvolvido pelo Ministério da Justiça com base técnico-científica da Escola de Segurança Multidimensional da USP, e aplicado de forma pioneira no Rio Grande do Norte.

Um plano estruturado para retomar territórios - Foto: José Aldenir/Agora RN
Um plano estruturado para retomar territórios - Foto: José Aldenir/Agora RN

A proposta vai além de devolver o controle territorial ao Estado. O novo estágio da Operação Território Seguro, iniciado oficialmente em 4 de dezembro, prevê a chegada gradual e coordenada de serviços públicos essenciais ao bairro de Felipe Camarão, um dos mais afetados pelo avanço do crime organizado em Natal. A lógica é declarada: polícia entra para estabilizar; políticas públicas entram para transformar. É uma estratégia que rompe com a prática, frequente em décadas passadas, de operações episódicas que produzem resultados momentâneos, mas não alteram a realidade de abandono que permite o retorno das facções.

A presença articulada do Estado no território começa por áreas sensíveis. Foram anunciados serviços de mediação de conflitos e atendimento especializado para mulheres, crianças, adolescentes e idosos; emissão de documentos e suporte jurídico pela Defensoria Pública; ações de capacitação profissional, como emissão de carteira de artesão e articulação de cursos; mutirões de limpeza e melhorias na iluminação pública; além de orientação ao consumidor com foco no combate ao superendividamento. Para 2026, estão previstos projetos voltados a jovens e cursos para formação de defensores populares. A intervenção, portanto, não se limita ao enfrentamento armado ao crime, mas busca criar condições permanentes de cidadania e reconstrução social.

O ministro Ricardo Lewandowski, ao apresentar o programa, destacou a cooperação interfederativa como base da estratégia. O Rio Grande do Norte não é um laboratório isolado, é o ponto de partida de um modelo que será ajustado e replicado nacionalmente, com acompanhamento técnico e rigor fiscal no uso de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública.

O que se observa, pela primeira vez em muitos anos, é a combinação de três elementos raramente reunidos no Brasil: operações policiais amplas e sem letalidade, integração efetiva entre instituições estaduais e federais, e um plano de continuidade que aposta na presença permanente do Estado nas comunidades. A experiência recente na Zona Oeste e em Mãe Luiza já havia demonstrado que, quando há inteligência, preparo e coordenação, é possível desarticular estruturas criminosas sem transformar territórios vulneráveis em zonas de confronto. Agora, o desafio avança para uma fase mais complexa: impedir que o vazio deixado pelas facções seja novamente ocupado pelo crime.

A iniciativa reconhece uma realidade que, por anos, se impôs às periferias brasileiras: o domínio territorial exercido por organizações criminosas em áreas marcadas por ausência de serviços públicos, informalidade econômica e vulnerabilidade social. Essa realidade não se desfaz apenas com prisões. Ela exige continuidade, presença diária, integração entre políticas sociais, urbanísticas e de segurança. Exige, sobretudo, que o Estado permaneça onde antes se ausentava.

Ainda é cedo para medir os resultados da segunda fase da Operação Território Seguro. Mas é possível afirmar que há um desenho estratégico em andamento – e isso, por si só, representa avanço. Pela primeira vez, uma intervenção policial de grande porte em Natal vem acompanhada de um plano de médio prazo para estabilização e reconstrução comunitária. É a tentativa concreta de transformar ações pontuais em política pública.

O compromisso anunciado pelo Ministério da Justiça é claro: não abandonar os territórios retomados e não permitir que as periferias permaneçam entregues à própria sorte. Se a promessa será cumprida, dependerá da capacidade de execução do plano e da permanência da articulação entre União, Estado e demais instituições. Mas, ao menos agora, há um roteiro, há uma estratégia e há uma vontade política expressa.