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Editorial

Os números por trás da folha em dia no Rio Grande do Norte

Confira o editorial do Agora RN deste sábado 9
Redação
09/05/2026 | 06:35

O pagamento dos salários em dia é o argumento mais forte do Governo do Rio Grande do Norte na defesa de sua gestão fiscal. E não deve ser tratado como fato menor. Depois de um passado recente marcado por atrasos, manter a folha regular tem valor administrativo, político e social. Mas esse dado, sozinho, não encerra o debate.

Salário em dia é uma parte importante da realidade. Não é a realidade inteira.

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Os números por trás da folha em dia no Rio Grande do Norte - Foto: José Aldenir/Agora RN

A discussão aberta a partir das declarações do vice-governador Walter Alves (MDB), publicadas na edição desta sexta de O Correio de Hoje, exige justamente esse cuidado. Walter acusou o governo de esconder ou minimizar a crise fiscal. Disse que desistiu de assumir o Executivo após conhecer a situação das contas.

Do outro lado, Cadu Xavier, ex-secretário da Fazenda e pré-candidato do PT ao Governo, reconhece problemas, mas rejeita a ideia de colapso e sustenta que o Estado vive trajetória de recuperação. Seu principal argumento é conhecido: salários em dia, valorização dos servidores e reorganização fiscal.

O papel do jornalismo não é aderir automaticamente a uma versão nem à outra. É confrontar ambas com os números.

E os números mostram que a folha em dia convive com uma situação fiscal muito mais apertada do que o discurso oficial sugere. Em 2026, o próprio Governo do Estado reconheceu uma dívida de R$ 363,3 milhões em repasses de empréstimos consignados descontados dos servidores e não transferidos às instituições financeiras.

O período informado vai de maio de 2023 a março de 2026. Esse é um dado central. O servidor recebeu o salário líquido, mas valores descontados de seu contracheque não seguiram regularmente ao destino devido. Portanto, a normalidade da folha é, no mínimo, incompleta.

O orçamento também expõe o aperto. Ainda em 2026, o governo bloqueou R$ 306,07 milhões em despesas depois de arrecadar, no primeiro bimestre, R$ 2,7 bilhões diante de uma previsão de R$ 3,049 bilhões.

O Estado arrecadou 89,9% do esperado e precisou contingenciar gastos. Além disso, o orçamento do ano já nasceu com desequilíbrio: receita estimada em R$ 25,67 bilhões e despesa de R$ 27,22 bilhões, diferença negativa próxima de R$ 1,5 bilhão. Isso não é detalhe contábil. É sinal de que a conta pública não fecha com a facilidade que a propaganda tenta transmitir.

Há ainda o peso da política de pessoal. A gestão Fátima Bezerra (PT) passou a apresentar como marca a realização de 25 concursos e mais de 15 mil nomeações desde 2019. Na segurança, o governo fala em quase 5 mil novos agentes. Na saúde, mais de 1,5 mil servidores. Na educação, mais de 1,6 mil profissionais. Essas nomeações podem ser necessárias. Muitas áreas do Estado enfrentavam carência real de pessoal.

O problema não está em reforçar o serviço público. O problema está em ampliar despesa permanente sem explicar, com a mesma intensidade, como essa conta caberá no orçamento futuro.

Em janeiro de 2026, por exemplo, o governo convocou 1.607 aprovados no concurso da Educação, embora o edital previsse inicialmente 598 vagas. A convocação pode ter mérito do ponto de vista da rede escolar, mas tem impacto permanente sobre folha, encargos e Previdência. Cada novo servidor efetivo representa despesa que não termina no mês da posse. Ela se prolonga no tempo, pressiona o caixa e, no futuro, também chega ao sistema previdenciário.

A folha do Estado, em 2026, gira em torno de 110 mil vínculos, entre ativos, aposentados e pensionistas, com valor bruto mensal próximo de R$ 940 milhões a R$ 946 milhões nos primeiros meses do ano. Na prática, o RN opera uma folha bruta perto de R$ 1 bilhão por mês. Ao mesmo tempo, a recomposição salarial encaminhada pelo governo teve impacto estimado de R$ 60 milhões mensais, algo próximo de R$ 720 milhões ao ano. Em 2026, foi confirmado reajuste de 4,26% para servidores estaduais e militares, mas o retroativo de abril será pago em seis parcelas, de junho a novembro. A própria justificativa oficial citou frustração de receitas e oscilações na arrecadação.

Chegou a circular, em ambientes da imprensa e do debate político, a leitura de que a folha poderia saltar para R$ 1,4 bilhão em 2026. Cadu Xavier negou essa projeção e atribuiu o número a interpretações equivocadas do orçamento, especialmente quando se mistura folha mensal com déficit previdenciário e outras obrigações. O contraponto deve ser registrado. Não há base pública segura para afirmar que a folha mensal chegará a R$ 1,4 bilhão. Mas a negativa não elimina o problema central: mesmo pela versão oficial, a folha já encosta em R$ 1 bilhão, deve crescer com reajustes e recomposições e segue pressionando um Estado com baixa margem fiscal.

O governo concede reajuste, mas parcela o retroativo porque o caixa não comporta o pagamento integral imediato. Reconhecer esse fato não é atacar servidor. Servidor tem direito à valorização. O que precisa ser discutido é a sustentabilidade das decisões. Um governo responsável deve demonstrar não apenas a justiça social da despesa, mas também sua viabilidade fiscal.

A folha em dia, portanto, não prova que o Estado está em ordem. Prova apenas que uma prioridade foi preservada.

E é legítimo perguntar: a que custo?

O cidadão não depende apenas de folha paga. Depende de hospital funcionando, escola abastecida, segurança presente, estrada conservada, fornecedor pago, serviço terceirizado em dia, emenda executada e investimento público acontecendo.