Querida Titica
Ao longo de mais de 35 anos nos relacionamos como família. A relação entre nora e sogra nem sempre é fácil. Creio que ter como amor a mesma pessoa com dois papéis diferentes, o de filho e marido, não ameniza o desafio. Quando a gente conhece alguém muito, muito especial logo se pergunta de onde vem essa personalidade atrativa. Olhar para você me faz entender porque me apaixonei pelo meu marido. Um homem honesto, de conduta reta, de palavra. Não do tipo de pessoa que faz algo para agradar, e sim, faz porque é o certo. Alguém econômico de frases mas que transborda nas atitudes tudo o que deseja dizer. Alguém compreensivo 1000% com o meu trabalho e estilo de vida, sem horários, de festas e ausências. Ou seja, o homem certo para mim.

Querida sogra hoje, escrevendo no dia de sua despedida minha palavra é de gratidão apenas por ter sido a pessoa que foi, a que a vida construiu moldada pelas próprias escolhas. Uma mulher de São Rafael simples em todos os hábitos. A que gostava de levantar cedo e varrer quase a rua inteira, a que abria a casa para que os amigos dos filhos tivessem o ponto de encontro diário para papos, risadas e construção de histórias, das quais muitas vezes participou. A pessoa que gostava de ouvir, que criava facilmente laços com todos os novos vizinhos. A que sempre opinava de forma divertida, fazendo a gente gargalhar ou pensar que lhe faltava uma parte do juízo.
Dentro da sua singeleza você foi a fortaleza que moldou dois homens de verdade. Seus dois filhos, Enilson e Edilson, os melhores do mundo, como sempre ressaltou. E não discordo. Por pura imaturidade minha, no começo de nossa jornada familiar, questionava, criticava e por vezes optei por certo distanciamento. Que durou pouco. Ainda bem. Até porque tê-la sempre do outro lado da rua sempre foi necessário é importante, até especial. Quando me perguntavam o que eu achava disso eu dizia: eu adoro! Era um Norte e um porto para os netos.
Aliás, vê-la desempenhando tão instintivamente esse papel foi grandioso. Lá estavam todos os elementos. À sua maneira. Não era aquela velhinha carente e grudenta, mas o afeto por cada um dos meus quatro filhos sempre foi muito evidente, nos pequenos e mínimos gestos. Você ratificou o ditado que diz: vó estraga. Mas pense num estrago bom o seu. Trazendo milho, tapioca, canjica, fazendo a melhor farofa d’água do mundo (e do qual eu lamento não ter pego a receita), alimentando nosso pet quando menos se esperava, financiando qualquer pedido, costurando as camisas, acolhendo em casa e por aí vai.
Coruja ainda não é uma referência apropriada para o que você era para meu quarteto filial. Por isso vê-los em lágrimas diante de seu corpo inerte também dilacerou meu coração. Foi ele, justamente ele, o coração, que a apartou de nós. Cresceu, ficou grande, talvez para combinar com a mãe e avó que você foi. Teimoso, foi silenciando aos poucos e devagar, meio que avisando que a hora final se aproximava, embora para todos nós isso parecesse improvável.
Você não se importava com datas, comemorações, festejos. Não fazia questão de presentes, mas era presença. Transformava um pedaço de tecido em quase tudo. A sua linguagem de amor era complexa e até estranha. As palavras lhe eram desnecessárias, os beijos, os abraços, idem, nem sempre isso é facilmente compreendido mas, querida sogra, saiba o quanto agradeço a vida por ter colocado você para cruzar os nossos caminhos. Você me deu um dos mais belos, enormes e importantes presentes que recebi: seu filho, meu marido, companheiro, amor.
Ouço por aí inúmeros relatos da dificuldade de ligação entre nora e sogra, pois bem, tive a maior sorte. Você sempre soube exercer o seu papel, sem qualquer interferência na minha vida conjugal. Nunca deu qualquer palpite ou quis impor seu jeito dentro da minha casa, e olhe que ela estava só a três passos da sua.
Muito bonito ainda vê a amizade sincera que construiu com a minha mãe, fazendo até da Iara a médicos momentos divertidos. E ainda como não citar as suas tiradas. O passar dos anos me trouxe o equilíbrio para admirar a sua maneira ímpar de ser, de encarar a vida é de seguir em frente. Torço para que um dia eu seja uma sogra e avó que tenha um pouco desse jeito. Dizem que sogra é para sempre. Apesar de passar a conviver com sua ausência física a partir de agora, sei que a sua figura Dona JOVELINA NERES DE MEDEIROS sempre, sempre, sempre fará parte de todos nós.
Obrigada e siga em paz! Com todo meu afeto da nora que não foi perfeita, mas que reconhece a sua dedicação. Essa é antes de tudo uma carta de amor e agradecimento. Descanse a alma, ainda nos reencontraremos.
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