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Carros

SUVs ampliam risco de mortes em atropelamentos, aponta nova diretriz da Abramet

Documento afirma que frente mais alta e rígida desses veículos aumenta gravidade das lesões em pedestres; cada 10 cm adicionais na altura frontal podem elevar risco de morte em cerca de 22%
Por O Correio de Hoje
09/03/2026 | 16:26

Veículos utilitários esportivos (SUVs) e picapes apresentam maior probabilidade de provocar lesões graves ou fatais em pedestres em casos de atropelamento, segundo novas diretrizes de segurança viária que serão divulgadas nesta segunda-feira 9 pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

O documento, intitulado “Tolerância Humana a Impactos: Implicações para a Segurança Viária”, reúne evidências científicas sobre os limites biomecânicos do corpo humano diante de colisões no trânsito. O texto também aborda novos fatores de risco associados a formas recentes de mobilidade urbana, como patinetes elétricos.

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Ciclista livrando-se de SUV no trânsito de São Paulo. Foto: Reprodução/Internet

De acordo com Flávio Adura, diretor científico da Abramet e coordenador do trabalho, a diferença de impacto entre veículos decorre principalmente de fatores biomecânicos ligados ao desenho da parte frontal.

Em automóveis de menor altura, explica o médico, o primeiro contato do veículo costuma ocorrer nas pernas do pedestre, o que tende a projetar o corpo sobre o capô. Esse movimento pode reduzir a gravidade das lesões.

“Já nos SUVs, o primeiro impacto geralmente ocorre no tórax, abdômen ou cabeça, que são regiões vitais, aumentando muito a gravidade das lesões”, afirma Adura.

Além da altura frontal mais elevada, SUVs e picapes apresentam maior massa e estrutura mais rígida, fatores que elevam a transferência de energia no momento da colisão. Segundo a diretriz, a expansão desse tipo de veículo na frota tem ampliado a exposição de pedestres e ciclistas a riscos mais elevados, apesar dos avanços tecnológicos voltados à proteção dos ocupantes.

O documento cita estudos epidemiológicos e biomecânicos realizados em diferentes países, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, baseados em bancos de dados de acidentes, simulações computacionais e testes experimentais com manequins instrumentados.

De acordo com as pesquisas reunidas pela Abramet, cada aumento de 10 centímetros na altura da frente do veículo pode elevar em cerca de 22% o risco de morte para pedestres.

Em colisões reais analisadas, cerca de 30% dos pedestres atingidos por SUVs morreram em impactos ocorridos entre 32 km/h e 64 km/h. Entre carros de passeio menores, a taxa foi de aproximadamente 23%.

Outra análise com dados da Europa e dos Estados Unidos indicou que a probabilidade de morte de pedestres ou ciclistas é cerca de 44% maior quando o impacto envolve SUVs ou utilitários leves em comparação com carros menores. Entre crianças, o risco pode ser até 82% superior.

Além da gravidade do impacto, a diretriz também aponta que veículos maiores podem aumentar a probabilidade de atropelamentos por causa da visibilidade reduzida do motorista.

Estudo do Insurance Institute for Highway Safety (IIHS), instituto norte-americano dedicado à segurança viária, analisou como características estruturais de veículos influenciam a capacidade de identificar pedestres ao redor do automóvel.

Segundo a pesquisa, a probabilidade de colisão foi 69,7% maior quando o veículo apresentava grandes áreas de ponto cego e 59% maior quando o campo de visão era considerado intermediário.

“Veículos mais altos e volumosos possuem pontos cegos maiores ao redor da carroceria, especialmente na região frontal imediata e nas laterais próximas”, afirma Adura.

Estudos citados pela Abramet indicam ainda que SUVs e picapes são entre 23% e 42% mais propensos a atingir pedestres em manobras de conversão do que carros menores.

Para Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, ainda faltam pesquisas específicas no Brasil sobre o impacto desses veículos no risco de atropelamentos. Ainda assim, análises do IIHS indicam que atualizações recentes no design automotivo ampliaram entre 20% e 60% a área de pontos cegos.

“Isso contribui principalmente para atropelamentos de crianças e pessoas de baixa estatura”, afirma.

A diretriz também reforça que o controle da velocidade permanece como o principal fator para reduzir mortes no trânsito. Segundo o documento, um aumento de 5% na velocidade permitida em uma via pode elevar em até 20% o número de mortes.

O texto foi publicado em meio ao debate sobre mudanças recentes nas regras de trânsito, como a medida provisória editada no fim do ano passado que autoriza a renovação automática da CNH sem a realização do exame de aptidão física e mental.

Entre as recomendações dirigidas a gestores públicos estão a redução de velocidades em áreas urbanas, melhoria da infraestrutura de travessias, ampliação da iluminação pública e campanhas de conscientização de motoristas.

O documento também dedica dois capítulos à expansão dos equipamentos de mobilidade individual autopropelidos. Segundo os estudos analisados, o risco de acidentes envolvendo patinetes elétricos é cerca de 3,8 vezes maior do que o observado com bicicletas.

A maior parte das hospitalizações decorrentes desses sinistros envolve traumatismos cranianos, frequentemente agravados pela ausência de capacete.

“Restrições à velocidade máxima e ao uso noturno de patinetes elétricos estão associadas a uma diminuição na quantidade de atendimentos hospitalares”, afirma o documento.

Para o presidente da Abramet, Antonio Meira Júnior, a nova diretriz busca aproximar a segurança viária da agenda de saúde pública.

“A diretriz evidencia que não estamos lidando apenas com comportamento ou engenharia, mas com limites biológicos. Quando eles são ignorados, o resultado é o aumento de mortes e sequelas graves, mesmo em velocidades consideradas legais”, afirma.