Contracheques de R$ 165 mil no Judiciário — mais de três vezes o teto constitucional de R$ 46,36 mil — encontram paralelo, em valores, nos pacotes anuais de altos executivos da iniciativa privada. A semelhança, contudo, termina na cifra.
Segundo Mario Custódio, diretor de Recrutamento Executivo da Robert Half, que foi originalmente entrevistado pela jornalista Glauce Cavalcanti, de O Globo, remunerações nessa faixa estão restritas a poucos profissionais dentro das organizações e seguem lógica distinta da observada no setor público.

— Nas maiores companhias, especialmente as de capital aberto e faturamento de bilhões de reais, essa faixa corresponde a posições na diretoria executiva, em funções estratégicas e de alta responsabilidade. Em empresas médias, próximas de R$ 1 bilhão de faturamento, pode ser a remuneração de um CEO — afirma.
Enquanto milhares de magistrados recebem, na prática, mais que um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), no setor privado os valores mais elevados estão atrelados à tomada de decisões estratégicas e à entrega de resultados financeiros.
Pacotes milionários existem — e podem superar com folga os supersalários do funcionalismo —, mas sua composição obedece a critérios de desempenho e governança. Em geral, metade da remuneração é fixa; o restante depende de variáveis de curto e longo prazo.
— Além do salário-base, há bônus atrelados a metas individuais ou corporativas, que podem ser percentuais ou múltiplos do salário. Há aceleradores: se o resultado supera a meta, o bônus cresce. E existem incentivos de longo prazo, como opções de ações, que funcionam como mecanismo de retenção — explica Custódio.
Em companhias abertas, o pacote anual ainda depende de aprovação em assembleia de acionistas. Segundo Daniella Fragoso, sócia de Direito Societário e Mercado de Capitais do BMA Advogados, valores fora do padrão podem ser questionados por minoritários ou pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
— Toda remuneração de administrador precisa ser aprovada em assembleia. Se houver algo destoante, há espaço para questionamento — diz.
Praticamente toda a remuneração executiva está sujeita ao Imposto de Renda. Dividendos são isentos, mas não há verbas indenizatórias relevantes. Benefícios como carro corporativo, plano de saúde de alto padrão ou auxílio-moradia não compõem o salário direto.
A negociação considera porte da empresa, parâmetros de mercado, metas e riscos do negócio. E há um elemento central: não existe estabilidade. Executivos que não entregam resultados perdem o cargo. Se houver crime, respondem na Justiça comum. Não há julgamento pelos pares nem aposentadoria compulsória remunerada.
Empresas costumam contratar seguros de responsabilidade civil (D&O) para proteger administradores contra custos jurídicos e indenizações, desde que não haja dolo ou culpa grave. — O seguro não cobre atos dolosos — afirma Daniella, destacando a rigidez da Lei das S.As.
A comparação entre carreiras públicas e privadas pode ser imperfeita, mas os supersalários nos Três Poderes colocam determinadas categorias estatais no topo da pirâmide de renda de um dos países mais desiguais do mundo.
Ganhar acima do teto constitucional significa integrar um grupo restrito. Apenas 0,9% dos brasileiros recebem mais que esse valor mensal, segundo cálculos de Guilherme Klein, pesquisador do Made/USP e professor da Universidade de Leeds, com base em dados do Imposto de Renda e do IBGE.
No setor privado, a remuneração também pode atingir patamares elevados. Em 2024, os líderes de Itaú Unibanco receberam R$ 81,7 milhões, e os da JBS, R$ 63 milhões. Levantamento com dados enviados à CVM indica que a remuneração média dos CEOs das empresas do Ibovespa ficou próxima de R$ 18 milhões no ano — cerca de R$ 1,5 milhão por mês.
Sergio Gobetti, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), observa que quem recebia acima de R$ 500 mil por ano em 2023 estava entre os 0,75% mais ricos da população adulta. No caso de magistrados, a renda média supera R$ 950 mil anuais ao se considerarem adicionais e rendas de capital, posicionando-os entre o 0,25% mais rico.
Para Pedro Parente, que foi ministro da Casa Civil e do Planejamento no governo Fernando Henrique Cardoso e presidiu Petrobras e BRF, há risco de enfraquecimento institucional quando privilégios são naturalizados.
— No setor privado há duas limitações práticas: a necessidade de gerar lucro e a comparação com salários de mercado. O valor do salário, em geral, é sinal de mérito — afirma.
Segundo ele, casos extremos de remuneração, como o bônus bilionário aprovado para Elon Musk nos Estados Unidos, são exceções condicionadas a metas ambiciosas. Quando não há correspondência entre remuneração e desempenho, o desfecho costuma ser conhecido: a conta chega — e, em alguns casos, a empresa não sobrevive.