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PF encontra indícios de que dono do Master pagou dirigentes do Banco Central

Segundo PF, eles recebiam valores mensais em troca de informações estratégicas sobre procedimentos do BC
Por O Correio de Hoje
05/03/2026 | 16:54

A Polícia Federal identificou indícios de que dirigentes do Banco Central teriam recebido pagamentos do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, em troca de informações e apoio para lidar com fiscalizações do próprio órgão regulador. A suspeita consta em relatório encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça no âmbito da Operação Compliance Zero. As informações foram publicadas em reportagens do jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo a investigação, o ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária Belline Santana teriam atuado como “consultores informais” de Vorcaro dentro da autarquia. De acordo com a Polícia Federal, ambos recebiam valores mensais do banqueiro e repassavam informações estratégicas sobre procedimentos do BC, além de colaborar na elaboração de pedidos e estratégias voltadas a interesses do Banco Master.

Daniel Vorcaro Master
Dono do Banco Master, Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução

Na operação realizada pela PF, os dois servidores passaram a usar tornozeleira eletrônica e foram proibidos de acessar sistemas do Banco Central ou frequentar dependências da instituição. Paulo Sérgio e Belline já haviam sido afastados dos cargos em janeiro deste ano, após o próprio Banco Central abrir investigação interna sobre possíveis irregularidades relacionadas ao caso Master.

Em nota, o Banco Central afirmou que identificou indícios de recebimento de vantagens indevidas por parte de dois servidores durante a revisão de processos de fiscalização e liquidação envolvendo o Banco Master. A instituição informou ainda que afastou cautelarmente os funcionários, instaurou procedimentos internos para apuração e comunicou os fatos às autoridades responsáveis.

Na decisão que autorizou as medidas cautelares, o ministro André Mendonça afirma que há indícios de “relacionamento ilícito” entre o banqueiro e os servidores públicos. O documento aponta que existiam evidências de pagamentos mensais e de um vínculo informal por meio do qual Vorcaro teria recebido apoio interno no Banco Central para lidar com questões regulatórias.

Para os investigadores, os dois servidores teriam se tornado uma espécie de consultores particulares do banqueiro dentro da estrutura da autarquia. A PF também identificou indícios de que empresas teriam sido utilizadas para simular prestação de serviços com o objetivo de justificar transferências financeiras destinadas aos servidores.

Os investigadores afirmam que Vorcaro buscava orientação sobre temas sensíveis relacionados ao Banco Central, incluindo estratégias para reuniões institucionais, elaboração de documentos e formas de abordar determinadas questões junto ao regulador. Em mensagens analisadas pela PF, o banqueiro teria trocado informações frequentes com os dois servidores.

Em uma dessas conversas, segundo o relatório policial, Paulo Sérgio enviou a Vorcaro uma imagem da portaria que oficializava sua nomeação como chefe adjunto de Supervisão Bancária no Banco Central. Em resposta, o banqueiro teria enviado uma mensagem de congratulação.

As investigações também indicam que o ex-diretor do BC teria repassado informações sobre movimentações financeiras consideradas suspeitas pelo sistema de monitoramento da própria autarquia. De acordo com a Polícia Federal, em alguns casos os alertas teriam sido feitos antes que o banco fosse formalmente notificado pelo regulador, o que permitiria ao controlador da instituição adotar medidas para reduzir questionamentos regulatórios.

Além dos pagamentos, a PF aponta indícios de que Vorcaro teria auxiliado Paulo Sérgio em despesas relacionadas a uma viagem a Orlando, nos Estados Unidos. Mensagens analisadas pelos investigadores mencionariam deslocamentos para parques temáticos da Disney e da Universal.

Uso de veículos de informação

Outro eixo da investigação envolve a possível utilização de veículos de comunicação para divulgar informações estratégicas relacionadas ao caso. A Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro uma anotação com texto semelhante ao de uma publicação divulgada horas depois por um site jornalístico. A suspeita é de que a divulgação tenha sido utilizada para tornar públicas informações que estavam sob sigilo em um inquérito judicial.

De acordo com reportagens do O Estado de S. Paulo, os agentes identificaram no aparelho do banqueiro um rascunho de texto que posteriormente foi publicado no site O Bastidor. A anotação fazia referência a informações sobre a vara federal responsável por um processo envolvendo o Banco Master.

Segundo a PF, a publicação teria ocorrido pouco antes de a defesa de Vorcaro apresentar um pedido à Justiça Federal relacionado ao caso. A estratégia teria sido utilizada para dar publicidade a informações que, até então, estavam restritas ao processo judicial.

Em uma anotação registrada no celular no dia 16 de novembro de 2025, o banqueiro teria escrito o nome do juiz responsável pelo processo, Ricardo Soares Leite, acompanhado da pergunta: “Vocês são próximos?”. No dia seguinte, outra anotação trazia um texto detalhando a disputa envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) e mencionando pressões políticas e institucionais relacionadas ao caso.

Horas depois dessa anotação, o site O Bastidor publicou uma reportagem sobre o tema, com conteúdo semelhante ao encontrado no celular do banqueiro. A matéria abordava a rejeição, pelo Banco Central, da compra de parte do Banco Master pelo BRB e mencionava a existência de disputas envolvendo o caso em Brasília.
Segundo a Polícia Federal, a publicação pode ter servido para tornar pública a informação sobre a vara federal onde tramitava o inquérito relacionado ao negócio, o que poderia beneficiar a estratégia jurídica da defesa.

A investigação também menciona conversas entre Vorcaro e o jornalista Diego Escosteguy, responsável pelo site O Bastidor. Em relatório encaminhado ao STF, a PF afirma que há registros de diálogos entre o banqueiro e o jornalista e que, em determinado momento, teria havido referência a pagamentos para publicação de conteúdos de interesse do empresário.

Os investigadores citam ainda a existência de uma planilha em que aparece o nome do jornalista associado a uma ordem de pagamento de R$ 2 milhões.

Procurado, Escosteguy divulgou nota afirmando que a relação com Vorcaro sempre ocorreu no âmbito profissional do jornalismo e caracterizava uma relação de fonte, prática comum na atividade de imprensa. Segundo ele, não houve qualquer irregularidade na publicação de informações no site.

Outro ponto apurado pela Polícia Federal envolve a sigla DCM, que aparece em conversas interceptadas entre Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Os investigadores apuram se a sigla está relacionada a pagamentos mensais destinados a determinados destinatários.

As mensagens indicariam que valores eram divididos entre diferentes pessoas envolvidas em atividades relacionadas ao caso. Em uma conversa analisada pelos investigadores, Mourão afirma que recebia valores mensais e os distribuía entre integrantes de um grupo.

Segundo as reportagens do O Estado de S. Paulo, as investigações continuam em andamento e buscam esclarecer a extensão do relacionamento entre o banqueiro e servidores públicos, bem como a possível utilização de intermediários e empresas para ocultar pagamentos.

A Polícia Federal também procura identificar se houve influência indevida sobre decisões regulatórias ou procedimentos de fiscalização do Banco Central relacionados ao Banco Master.