Oito em cada dez brasileiros já veem ministros no caso Master. Na pesquisa da AtlasIntel divulgada pelo Estadão, 85,1% dos entrevistados afirmam acreditar que integrantes do Supremo Tribunal Federal têm envolvimento direto no caso ligado ao banco de Daniel Vorcaro. A imagem da Corte piorou à medida que as investigações foram vindo a público: em março, quem enxergava esse envolvimento somava 66,1% dos ouvidos.
Em seis meses, portanto, o índice subiu 19 pontos porcentuais de uma rodada da pesquisa para a outra. No levantamento mais recente, 4,4% responderam que não acreditam em envolvimento dos magistrados — eram 14,9% na rodada de março. Outros 10,5% disseram não saber responder à pergunta, fatia que antes chegava a 18,9% dos ouvidos.

Vale a ressalva: os números medem o que as pessoas pensam e não comprovam participação de ministro nenhum em irregularidade. A coleta foi feita entre os dias 17 e 21 de setembro, portanto depois da sessão do dia 15, em que o Supremo discutiu abrir ou não uma investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes.
Impeachment de Toffoli e de Moraes
A pesquisa quis saber ainda o que os brasileiros pensam sobre afastar os dois ministros mais associados ao caso. O impeachment imediato de Dias Toffoli é defendido por 60,5% dos entrevistados. No caso de Moraes, 49,8% deram a mesma resposta aos pesquisadores.
Há ainda quem só aceite o afastamento com prova nas mãos, isto é, se o envolvimento nas investigações for confirmado. Esse grupo soma 26,1% quando se fala de Toffoli e 31,9% quando o nome é o de Moraes. Declararam-se contrários ao impeachment 6,5% dos entrevistados no caso de Toffoli e 15,1% no caso de Moraes. Não souberam responder 6,8% dos entrevistados no primeiro caso e 3,2% no segundo.
Foram ouvidos 1.852 brasileiros ao todo, recrutados de forma digital e aleatória pelo instituto AtlasIntel. A margem de erro informada fica em dois pontos porcentuais, com 95% de nível de confiança.
O que mudou desde março
A comparação com o levantamento anterior mostra que a virada maior aconteceu na avaliação sobre Toffoli. Em março, 49,3% queriam o impeachment imediato do ministro; agora são 60,5%, uma alta de 11,2 pontos porcentuais. Na outra ponta, encolheu o grupo que só aceita o afastamento mediante prova de envolvimento nas investigações: eram 33,7% em março e agora são 26,1%.
A rodada de setembro foi a campo depois da vinda a público de documentos produzidos nas apurações sobre o banco. Em relatórios, a Polícia Federal registrou mensagens que Vorcaro trocou com autoridades e reuniu informações sobre contatos do banqueiro com pessoas próximas a integrantes do Supremo.
No caso de Moraes, um relatório da Polícia Federal descreve as mensagens trocadas entre o ministro e o banqueiro. Para a investigação, esses diálogos incluem pedidos de auxílio e consultas feitas pelo banqueiro ao ministro. Vieram a público, ainda, informações sobre os contratos que o Master manteve com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, que é casada com o ministro.
Esse material acabou entrando na discussão dentro do próprio tribunal, entre os ministros da Corte. Na sessão do dia 15, o colegiado começou a analisar questões ligadas às apurações, mas o julgamento travou com o pedido de vista feito por Flávio Dino.
Filhos de ministros e reuniões
Os dados extraídos do celular de Vorcaro levaram outros nomes ligados a integrantes da Corte para o centro da apuração. Mensagens apontaram um pagamento de R$ 500 mil a Kevin de Carvalho Marques, advogado e filho do ministro Kassio Nunes Marques.
Pela assessoria, Kevin respondeu que “não prestou serviço ao Banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro”. O ministro também declarou que nunca votou a favor do banco e que o filho não recebeu recursos do empresário.
Outras conversas do material envolvem o advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux. Pelos registros, Vorcaro procurou o advogado para tratar de um caso, e encontros chegaram a ser marcados. A assessoria de Rodrigo Fux afirmou que ele nunca advogou nem para Vorcaro nem para o Master.
As investigações registraram ainda reuniões do banqueiro com ministros. André Mendonça confirmou um encontro com o banqueiro num instituto educacional de São Paulo. Gilmar Mendes reconheceu outra reunião, na qual estavam dois advogados do banco, para discutir uma causa que interessava à instituição. No julgamento desse processo, em junho de 2025, na Segunda Turma, Gilmar votou contra a tese do Master e saiu vencido.
É nesse ambiente, de documentos vindo a público e de disputa interna no Supremo, que a AtlasIntel capta a mudança de opinião. A fatia que acredita na participação direta de integrantes da Corte saltou de perto de dois terços, em março, para os atuais 85,1%, enquanto crescia também o porcentual dos que querem Toffoli fora do tribunal.